30 de maio de 2012

DICA: NAVEGAÇÃO DE CABOTAGEM - APONTAMENTOS PARA UM LIVRO DE MEMÓRIAS QUE JAMAIS ESCREVEREI

Formato: Livro
1ª ed. - 2012
608 p
Assunto: LITERATURA BRASILEIRA - MEMÓRIAS

Sinopse: Uma bebedeira com Pablo Neruda, uma reunião política com Picasso, uma visita ao bordel ou ao terreiro de candomblé com Carybé ou Dorival Caymmi, os últimos dias de Glauber Rocha, o pedido de casamento de Miúcha feito em nome de João Gilberto - dezenas de cenas como essas são evocadas com ternura e humor por Jorge Amado, que escreveu Navegação de cabotagem (1992) às vésperas de completar oitenta anos.Com a serenidade e a sabedoria de quem viveu as maravilhas e os horrores do século XX, o escritor passa em revista momentos marcantes da sua vida, das paixões de juventude à glória literária mundial, da militância política apaixonada à desilusão com o sonho comunista, transformado em pesadelo totalitário. O exílio, as amizades, os amores, o aprendizado da cultura popular nas fazendas de cacau, nos prostíbulos e nos terreiros de candomblé, tudo isso se mistura nestas páginas vibrantes de humanidade. Este livro pode ser lido como uma sucessão de vívidas cenas de um filme ao mesmo tempo épico, lírico e cômico. Revendo com franqueza e fina autoironia sua trajetória de êxitos e tropeços, de acertos e equívocos, com Navegação de cabotagem Jorge Amado insere a si próprio, por fim, na sua rica galeria de personagens inesquecíveis. (Companhia das Letras)

A CULTURA ÀS VOLTAS COM UM NOVO CONSUMIDOR - Monica Lucas

Nas últimas duas décadas, quase 40 milhões de pessoas ingressaram na classe C, que se tornou o maior segmento econômico do País - detendo mais de 46% do poder de compra do Brasil. Com renda familiar média entre quatro e dez salários mínimos mensais, a classe C deve ser a maior impulsionadora do consumo do país nos próximos anos.

Enquanto o mercado de bens de consumo corre atrás da classe C e comemora a expansão de seus negócios, o que se pode dizer dos produtores culturais? Será que buscam maneiras de atrair esse público? Será que já entendem e respondem a contento às demandas desses segmento? Ou será que mantêm essa parcela à margem do consumo cultural?

Ainda há mais perguntas do que respostas. Desde a década de 90, o Brasil vê a redução do tamanho das famílias e o avanço do nível de escolaridade da população. O início do novo milênio veio acompanhado de aquecimento do mercado de trabalho e aumento da renda média do trabalhador, em especial o de classe C.

Maior acesso

Mudanças que implicam em um maior acesso também a bens culturais. "São pessoas cujos pais geralmente não tiveram acesso a estudo e cultura, e que agora são estimulados por eles a buscar isso", diz o gerente de Cultura do Sesc-CE (Serviço Social do Comércio no Ceará), Paulo Leitão, mestre em Educação pela Universidade Federal do Ceará (UFC).

Segundo ele, é perceptível o aumento da demanda de produtos culturais por parte deste segmento econômico da população. Com mais estudo e acesso a informação, o público está cada vez mais exigente, não só em relação ao que está consumindo, mas também às condições em que se dá esse consumo. "Eles querem bons equipamentos, boa estrutura, organização das filas. Não veem mais isso como um favor", comenta Paulo Leitão.

Responsável por uma programação prioritariamente gratuita ou subsidiada, o Sesc tem ações de formação de plateia em diversas áreas, como audiovisual, música, teatro e circo - muitas delas itinerantes, com bons resultados. "Agora mesmo, no projeto Palco Giratório (dedicado às artes cênicas), as pessoas já pedem que seja uma ação permanente, porque têm curiosidade, não querem a mesmice".

Essa procura por ampliação de repertório cultural, muitas vezes, passa despercebida pela indústria cultural. "Os processos midiáticos tradicionais caem no reducionismo para a massa, mas é um erro achar que a audiência quer só entretenimento. Há uma heterogeneidade muito grande e públicos refinados em todas as classes", argumenta.

Descompasso

Um levantamento sobre os hábitos culturais da classe C divulgado pela Data Popular em 2011 indica um "descompasso entre a oferta tradicional de bens culturais e a nova demanda". Em muitas cidades, é deficiente o número de cinemas, teatros e livrarias nos bairros. Ou seja, ao custo do programa cultural, há que se incluir ainda os gastos de tempo e dinheiro com deslocamentos.

Isolando da pesquisa as atividades com cobrança de ingresso, a classe média é maioria em números absolutos, mas proporcionalmente as classes A e B ainda frequentam mais cinemas do que a classe C (são 73%, contra 63%, respectivamente), assim como acontece com exposições de arte (43% e 22%) e peças de teatro (51% e 32%).

Entretanto, o mesmo levantamento mostra que as estatísticas se invertem quando se destacam as atividades culturais gratuitas. No cinema, a classe C representa 37%, contra 29% das classes A e B. Também são maioria em espetáculos de teatro (32%) e exposições de arte (28%). Um indício de que existe uma busca por consumo cultural que o mercado pode preencher com preços mais baixos.

Iniciativas públicas

Por enquanto, a maior parte das iniciativas ainda está na esfera pública, como o primeiro Centro Urbano de Cultura, Arte, Ciência e Esporte (Cuca Che Guevara), construído pela gestão municipal na Barra do Ceará. Ou ainda projetos específicos, como o programa "Cinema perto de Você", desenvolvido pelo governo federal, por meio da Ancine (Agência Nacional do Cinema).

Esse programa tem o objetivo de instalar cinemas em áreas carentes, criando um mercado e desenvolvendo condições para a autossustentabilidade. Para isso, conta com uma linha de financiamento do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Social). As primeiras salas foram inauguradas, em 2010, dentro de um supermercado na zona oeste do Rio de Janeiro.

Extraído do sítio Diário do Nordeste

NEM FREUD EXPLICA - Mogli Veiga

Sigmund Freud
Sigmund Freud, que todos conhecemos, é considerado o pai da psicanálise e tornou-se um dos maiores pensadores da humanidade.

O primeiro grande conceito desenvolvido por Freud (1856-1939) foi o de Inconsciente. Ele inicia seu pensamento teórico assumindo que não há nenhuma descontinuidade na vida mental. Ele afirmou que nada ocorre por acaso e, muito menos, os processos mentais.

Freud em suas investigações sobre as causas e funcionamento das neuroses, descobriu que a grande maioria de pensamentos e desejos reprimidos referia-se a conflitos de ordem sexual, localizados nos primeiros anos de vida dos indivíduos. Acreditava que o desejo sexual era a energia motivacional primária da vida humana.

Pretensiosamente, afirmo que as comunicações, principalmente por dificuldades de entendimentos das línguas, podem também, provocar neuroses e confusões mentais.

O que deveríamos pensar se fossemos convidados para participar de um Campeonato de Trepadas?

Eu pensaria: oba (!) um campeonato, isto significa que não é só uma “partida”, pode ter mais… É por pontos corridos, ou seja, devemos ter fôlego para um desempenho mais prolongado, ou é “mata-mata”, não desempenhou está fora. O exercício deste tipo de esporte pressupõe uma equipe com dois membros. Você deve levar sua partner ou a organização providencia? Se for a segunda hipótese, como garantir uma boa participação se não conhecemos nossa companheira? Ela tem “preparo físico” para uma jornada longa?

Diante das interpretações do convite, confirmamos as teorias freudianas. Tudo que passa na nossa cabeça está focado no sexo, sexo e mais sexo. E vamos combinar, é muito bom.

Pois bem, andando pela região de Córdoba, Argentina, encontrei este convite:


Campeonato de Trepadas significa corrida de subida de montanha. É um esporte automobilístico trazido da Europa, onde vários competidores participam de uma corrida montanha acima. Larga um de cada vez e, quem completar o percurso no menor tempo é o vencedor. Simples não?

Certa feita, fazendo um city-tour por Antofagasta, Chile, encontrei este local


Agora imagine você está num lugar muito quente, de clima desértico, procurando um lugar para tomar uma cerveja e se depara com um estabelecimento chamado Buzetada.

Pensar que pode ser fornecimento de material para participar do campeonato acima? De novo a teoria freudiana presente.

A placa anuncia: “Aí rapaziada aqui na Buzetada tem um rango esperto”.

Neste caso, trata-se de um bar/restaurante, onde provavelmente, um “carioca exxxxperto” (há controvérsias) quis tirar “um sarro” com os chilenos.

O termo “rango” pode ser qualquer comida que “mata a fome”, que tenha sustância, bastantão. Também pode ser o personagem de HQ, criado na década de 70 por Edgar Vasquez.

Também acha que a gíria sarro tem duplo significado? Sim, tem: fazer uma gozação com alguém ou “dar um amasso” na(o) namorada(o). É óbvio com intenção de terminar em sexo.

Pô! Esse tal de Freud está em todas.

* Mogli Veiga, engenheiro e aventureiro.


Extraído do sítio Sul21

JUAN RULFO E O SEU E SEU INTENSO SILÊNCIO - Jacir Alfonso Zanatta

Um escritor que marcou a história da literatura, não pelo que disse, mas pelo que deixou de dizer. Esta afirmação pode até parecer estranha e contraditória, mas a verdade é que o mexicano Juan Rulfo escreveu apenas duas obras em toda a sua vida: o romance “Pedro Páramo” e o livro de contos “Chão em Chamas”. Depois disso se recolheu em sua solidão para não escrever mais nenhum livro durante o resto de sua vida. Mas, o único romance que produziu serviu como inspiração para escritores como Gabriel Garcia Marques e Mário Vargas Llosa. 

Quem se dispõe a ler “Pedro Páramo” fica incomodado com o longo silêncio que o autor se impôs. A cada pedido para publicar um novo livro, ele se defendia dizendo que quando não há nada que efetivamente valha a pena ser dito, mais vale ficar em silêncio. São páginas que ultrapassam as fronteiras da nacionalidade e colocam Juan Rulfo como um dos maiores escritores da América Latina e da literatura universal. Depois de “Pedro Páramo”, o 35º da lista dos melhores do século XX, o autor não tinha mais motivos para escrever novo livro, já estava entre os imortais. 

É interessante observar como seu silêncio incomodava os demais. Ele, no entanto, se mantinha irredutível e inabalável no esconderijo de sua própria alma. Soube como ninguém dizer não às cobranças e optou por deixar um único legado que suplanta qualquer outra tentativa. Alguns podem estar pensando que Rulfo deixou de produzir por medo de fracassar como escritor. Cuidado! Não se enganem. É importante lembrar que o autor começou a escrever para espantar a solidão. Mas sua escrita lhe trouxe a fama e com ela uma nova realidade como personalidade nacional e internacional que o autor não estava acostumado. 

A escrita que no início servia como companheira para espantar a solidão acabou ficando de lado para que a solidão pudesse se tornar um refúgio contra as cobranças de novas publicações. Desta maneira, a solidão que num primeiro momento parecia assustadora, acabou por se tornar uma amiga indispensável de travessia. Enquanto lia “Pedro Páramo” ficava imaginando a figura singular de Juan Rulfo e me veio à mente a canção “Solidão” que na voz de Sandra de Sá fez sucesso alguns anos atrás: “Solidão/ Dá um tempo e vai saindo/ De repente eu tô sentindo/ Que você vai se dar mal”. Acredito que era este sentimento que fez Rulfo optar por se calar e não mais produzir. 

Mas “Pedro Páramo” não trata apenas de solidão, é uma obra mágica que consegue mostrar as mazelas daqueles que acreditam possuir alguma autoridade sobre a vida e a morte. Autoridade esta que se desfaz com a própria vida. Num país assolado pela miséria e por constantes revoltas, Rulfo acreditava que as orações não enchem a barriga de ninguém, a não ser dos padres e pastores. Esta é uma obra com forte apelo psicológico e com capacidade de nos fazer entender que a vergonha não tem cura e que o mundo contemporâneo muda o tempo todo parecendo um líquido sendo trocado de recipiente, onde cada um tem a liberdade de lhe dar a forma que melhor convém. 

Mas o que mais chama a atenção é o fato de que conforme vamos lendo o livro, temos a nítida impressão de que estamos sendo roubados e que a história está sendo contada pela metade. Algo fica velado. A verdade é amputada e quanto mais o autor vai revelando a trama, mas ela insiste em se esconder do leitor. Enfim, realidade e fantasia acabam se misturando até percebermos que, no romance assim como na vida, as coisas nunca saem do jeito que a gente quer ou espera que aconteçam. 

De acordo com o autor, a voz do pobre é feita de fiapos humanos. Nas entrelinhas o autor defende que as pessoas simples ficam tanto tempo sem erguer o rosto que acabam esquecendo de olhar para o céu. Amargurado com a solidão que ele mesmo se impunha, Rulfo (2008, p.77-78) defendia que “a única coisa que faz com que a gente mova os pés é a esperança de que ao morrer nos levem de um lugar a outro; mas quando fecham para a gente uma porta e a que continua aberta é só a do inferno, mais valeria não ter nascido”. 

Rulfo escreveu e revelou o mundo de seus fantasmas e esperanças e, acabou por revelar o mundo interno de todos nós. Sempre defendeu que tinha começado a escrever para combater a solidão. Metade da primeira edição de “Pedro Páramo” o autor deu de presente aos seus amigos. O resto que sobrou levou mais de quatro anos para ser vendida. Depois do reconhecimento e da fama que o livro lhe proporcionou e das cobranças para uma nova publicação ele se defendia de seu silêncio dizendo que não tinha escrito mais nada que valesse a pena transformar em livro. 

Um romance para ser lido e relido. O início do romance deixa transparecer um cunho realista muito forte. Depois o texto se torna descritivo e por fim a obra ganha um ar de poesia para terminar de forma fantástica. O enredo trata da promessa feita por um filho à mãe moribunda, que lhe pede que saia em busca do pai, um malvado assassino. A história gira em torno de Juan Preciado que vai a Comala, terra de seu pai, Pedro Páramo, para cumprir a promessa feita a sua mãe, que pede vingança. O personagem central chega a uma cidade abandonada, encontra pessoas e convive com elas. Depois descobre que estão mortas e que talvez ele mesmo esteja morto. 

Rulfo (2008) defende que a morte não se reparte e que é preciso tomar cuidado com quem andamos, uma vez que as pessoas não andam à procura de tristeza. O livro serve para nos mostrar que este mundo nos dilacera por todos os lados e que a vida, quanto mais se tenta preserva-la, mais ela se esvazia como se fosse pó. No final temos a nítida sensação de que a terra em que vivemos, de alguma forma, está sendo regada com nosso sangue. 



Juan Rulfo nasceu em Sayula, no estado de Jalisco, no México. Em 1970 recebeu o prêmio nacional de literatura do México, e em 1983, o prêmio Príncipe de Astúrias, na Espanha. Em 1991 foi criado o prêmio Juan Rulfo, que condecora grandes nomes da literatura latino-americana. Juan Rulfo morreu no dia sete de janeiro de 1986, na Cidade do México onde havia chegado em 1935, aos 18 anos e na mais sombria solidão. Foi enterrado com honras nacionais. É um dos autores mais estudados e reverenciados, um dos menos imitados. Rulfo é uma espécie de ícone para escritores de linhas, tendências, épocas e estilos completamente diferentes. 

Livro: RULFO, Juan. Pedro Páramo. Rio de Janeiro: BestBolso, 2008.


Extraído do sítio Diário de Cuiabá

BUENA VISTA PORTO ALEGRE

Buena Vista Porto Alegre! Clipe Produzido, Gravado e Finalizado por Lacê Cirne e Vanderlei Torbis, gravado com uma Canon T2i e editado em Adobe Premiere Pro CS5.5 - Imagens: Lacê Cirne - Edição: Vanderlei Torbis


Extraído do Blog Por Amor A Porto Alegre 

A PIAF - Jorge de Sena



Esta voz que sabia fazer-se canalha e rouca,
ou docemente lírica e sentimental,
ou tumultuosamente gritada para as fúrias santas do “Ça ira”,
ou apenas recitar meditativa, entoada, dos sonhos perdidos,
dos amores de uma noite que deixam uma memória gloriosa,
e dos que só deixam, anos seguidos, amargura e um vazio ao lado
nas noites desesperadas da carne saudosa que se não conforma
de não ter tido plenamente a carne que a traiu,
esta voz persiste graciosa e sinistra, depois da morte,
como exactamente a vida que os outros continuam vivendo
ante os olhos que se fazem garganta e palavras
para dizerem não do que sempre viram mas do que adivinham
nesta sombra que se estende luminosa por dentro
das multidões solitárias que teimam em resistir
como melodias valsando suburbanas
nas vielas do amor
e do mundo.

Quem tinha assim a morte na sua voz
e na vida. Quem como ela perdeu
toda a alegria e toda a esperança
é que pode cantar com esta ciência
do desespero de ser-se um ser humano
entre os humanos que o são tão pouco.

(6/10/1964)


Extraído do sítio LetrasUFRJ