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15 de junho de 2013

JOSÉ EDUARDO AGUALUSA VENCE PRÊMIO MANUEL ANTONIO PINA


O livro "A rainha dos estapafúrdios" valeu ao escritor angolano José Eduardo Agualusa o prémio Manuel António Pina, criado este ano para distinguir obras da literatura para a infância e juventude, revelou hoje o júri à agência Lusa.

Com ilustrações de Danuta Wojciechowska, editado em 2012 pela D. Quixote, o livro narra as aventuras da perdigota Ana, uma pequena perdiz cinzenta que, à procura de uma plumagem mais colorida, cai num arco-íris e que, depois de muitas peripécias, se transforma na rainha da savana.

O júri foi consensual em atribuir o prémio desta primeira edição a "A rainha dos estapafúrdios", por ser a obra que reuniu todos os requisitos do galardão, criado em honra de Manuel António Pina, disse Adélia Carvalho, um dos elementos do júri.

O Prémio Manuel António Pina, no valor de 2.000 euros, foi criado pela editora Tcharan para premiar textos de literatura infanto-juvenil do universo lusófono, em honra do escritor, falecido em outubro passado.

O júri, que integrou ainda o escritor Álvaro de Magalhães e a jornalista Inês Fonseca Santos, atribuiu uma menção especial, no valor de 500 euros, a Emílio Remelhe, que assina com o pseudónimo Eugénio Roda o livro "minhamãe", ilustrado por Gémeo Luís, pela Edições Eterogémeas.

De acordo com Adélia Carvalho, escritora e uma das fundadoras da editora Tcharan, a esta primeira edição do prémio concorreram cerca de 1.500 textos de autores sobretudo de Portugal e do Brasil.

José Eduardo Agualusa, 53 anos, que acaba de publicar o romance "A vida no céu", autor de outras obras para a infância e juventude, como "Estranhões e Bizarrocos", "Nweti e o mar" e "A girafa que comia estrelas".

O prémio e a menção especial serão entregues a 18 de novembro no Porto, no dia em que Manuel António Pina completaria 70 anos.

Poeta, cronista, jornalista e Prémio Camões em 2011, Manuel António Pina morreu aos 68 anos, a 19 de outubro, deixando sobretudo poesia e obras para a infância e juventude.

A estreia literária deu-se em 1973 precisamente com uma obra para os mais novos, intitulada "O país das pessoas de pernas para o ar", reeditado pela Tcharan com ilustrações de Marta Madureira.

A esse juntam-se outras obras como "Têpluquê", "Gigões & Anantes", "Pequeno livro da desmatemática", "História com reis, rainhas, bobos, bombeiros e galinhas" e "O cavalinho de pau do menino jesus".

Extraído do sítio Notícias Ao Mundo

18 de março de 2013

JOSÉ EDUARDO AGUALUSA DIZ QUE PORTUGAL TEM MAIS A GANHAR COM ACORDO ORTOGRÁFICO DO QUE O BRASIL - Nuno Ferreira Santos


Em Macau para participar no Festival Literário – Rota das Letras, o escritor angolano lembra que são as editoras portuguesas que querem entrar no mercado brasileiro. Agualusa diz estar cansado da polémica em torno do novo acordo.

O escritor angolano José Eduardo Agualusa defendeu esta quarta-feira, em Macau, que Portugal tem mais a beneficiar com o novo acordo ortográfico do que o Brasil, dado que são as editoras portuguesas que estão interessadas em entrar no mercado brasileiro.

“As editoras brasileiras têm ainda imenso espaço para ocupar no Brasil, não estão preocupadas nem com Portugal nem com África, e quem está a entrar no Brasil são as editoras portuguesas. Portanto, o acordo ortográfico, desse ponto de vista, é sobretudo benéfico para as editoras portuguesas, não para as brasileiras, e se alguém fosse beneficiar seria Portugal”, disse o escritor.

Durante um encontro com alunos da Escola Portuguesa de Macau, no âmbito do Festival Literário – Rota das Letras, Agualusa, questionado sobre a sua posição em relação ao acordo ortográfico, disse “não ter já paciência para falar” sobre o assunto, porque ele “não é interessante”. “Defendo uma ortografia comum”, reiterou, considerando “não haver nenhuma vantagem em existir mais do que uma ortografia no mesmo espaço linguístico”.

Se houvesse, continuou, “porque não ter mais do que uma ortografia em Portugal, por exemplo? Os alentejanos têm o seu português, os lisboetas têm o seu português, os algarvios também, mas todos escrevem com a mesma ortografia”. O acordo ortográfico é importante, na perspectiva de José Eduardo Agualusa, “para países como Angola e Moçambique, que produzem poucos livros e importam mais, de Portugal e do Brasil e, de repente, há duas ortografias no mesmo território, o que confunde as pessoas, especialmente as que estão a chegar agora ao livro”.

“Nunca entendi por que houve tanta celeuma em relação ao acordo, porque é uma coisa que não interfere com a vida das pessoas”, disse, salientando que “Vasco Graça Moura errou no dramatismo, porque o que ele dizia era que o mundo ia acabar com a aplicação do acordo, era como um desastre global”. “Mas a verdade é que não conheço um único caso de diarreia, ninguém passou mal porque o acordo começou a ser aplicado”, disse.

O acordo ortográfico “tem uma relevância muito pequena”, mas “tem importância sobretudo para os países que importam livros”, rematou.

Extraído do sítio Público.pt

16 de março de 2013

AGUALUSA: "SE MACAU FOSSE CENÁRIO DE UM LIVRO, SERIA UM LUGAR DE ENCONTRO" - Raquel Carvalho


Para José Eduardo Agualusa, foi uma surpresa encontrar a Língua Portuguesa viva em Macau. “Eu acredito no fim das fronteiras. De todas as fronteiras.”

Espantou-se com os nomes das ruas e os avisos que saltam à vista em português. Se Macau, terra que percorre pela primeira vez, figurasse em livro seu, vestiria a pele de pote de confluências e lugar de encontros.

José Eduardo Agualusa, escritor angolano, reflete sobre a contaminação cultural entre africanos e chineses, bem como sobre as barreiras na circulação da literatura lusófona. Autor de mais de uma dezena de romances e peças de teatro, desvenda que o próximo livro será diferente de tudo o que já fez até agora.

Conseguiu encontrar-se em Macau? Conseguiu encontrar alguma portugalidade?

Ainda vi muito pouco. Fiquei admirado por ver que há o cuidado de as placas serem todas com caracteres chineses e também em português. Vê-se isso não só nas placas toponímicas, mas também no interior dos prédios, em avisos… Não estava à espera disso. Já sabia que a presença da Língua Portuguesa nunca foi muito grande em Macau. Por isso, foi para mim uma surpresa encontrar a Língua Portuguesa na toponímia. Por exemplo, em Goa isso não existe. Raramente se vê alguma coisa em português. Em Goa continua a haver uma elite goesa a falar português e existem escolas para pessoas em português. Aqui fiquei admirado por ver essa presença no quotidiano, nos cartazes…

Durante a sessão na Universidade de Macau, falou-se muito da questão do português padrão, mas não se falou sobre os crioulos de origem portuguesa, como o patuá…

Isso interessa-me muito. Tudo o que diga respeito à Língua Portuguesa me interessa; portanto, os crioulos que tenham por base a Língua Portuguesa também me interessam. Muitas vezes o que acontece é que há palavras que sobrevivem, arcaísmos, que sobrevivem nesses crioulos. O crioulo que melhor conheço é o de Cabo Verde. Sou absolutamente fascinado por arcaísmos. Gosto de adquirir essas palavras e de integrá-las na minha escrita. Tenho um romance precisamente sobre isso, que é o Milagrário Pessoal.

Mas faz um esforço para descobrir palavras antigas?

Sim, faço. Eu coleciono palavras. Presto atenção aos crioulos. Dá para encontrar palavras que percebemos, mas que são arcaísmos, que pertencem à Língua, embora não as usemos mais. Imagino que também aqui em Macau existam termos próprios, com arcaísmos.

Nos romances que escreve há uma vontade consciente de espelhar essa identidade lusófona?

Não penso nisso. O Prémio Nobel da Literatura [de 1986] nigeriano, o Wole Soyinka, dizia: um tigre não precisa de afirmar a sua tigritude, um tigre salta. Eu não penso nisso, exerço naturalmente a minha identidade. Não se pensa nisso. Exerce-se como se respira. Se for dançar e pensar ‘qual é o pé que devo mexer primeiro?’, você não consegue dançar. É preciso esquecer-se para depois dançar.

Lê autores chineses?

Gosto muito de poesia chinesa, tradicional e nova poesia que consigo encontrar em português. Mas a literatura chinesa para o mundo ocidental ainda é um universo por descobrir. Está a ser feito agora, com o último Prémio Nobel da Literatura [Mo Yan], por exemplo. Tenho a certeza que a literatura chinesa é uma das literaturas que vai crescer mais nas próximas décadas.

A quantidade de chineses a viverem em África, nomeadamente em Angola, está a crescer. Acredita que isso levará a uma contaminação cultural?

Com certeza. Já existe. Em Angola e em Moçambique, que são os países que eu conheço melhor com presença chinesa, essa população vive muito isolada ainda. São chineses que vão temporariamente construir e depois regressam, mas entre esses há sempre alguns que ficam. Portanto, já é possível encontrar chineses casados com angolanos, vivendo nos bairros pobres de Angola… isso já se começa a ver. Eu acho isso fascinante e muito interessante. Tenho até num dos meus últimos livros, o Barroco Tropical, duas personagens, dois jovens irmãos de ascendência chinesa, porque eu acho que isso vai acontecer… Já está, já existe, mas dentro de alguns anos esses resultados serão mais óbvios, mais evidentes. Até por isso seria bom que a China se preocupasse não só com essa presença no terreno, na construção, e que se preocupasse também com a presença cultural. Ainda agora estive num encontro de escritores em Brazaville [na República do Congo], que é uma cidade pequena e muito pouco desenvolvida e, de repente, no meio daquilo tem enormes construções chinesas, horrorosas, o que é inexplicável quando a China tem tão bons arquitetos e tem surpreendido o mundo com a sua arquitetura. Então talvez fosse bom a China investir também aí e não apenas construir, preocupando-se em trazer para estes países a sua melhor arquitetura.

Na sessão de domingo da Rota das Letras, defendeu que se devem destruir fronteiras e construir pontes… Já os escritores chineses mostraram um certo receio da globalização. Como olha para esta dicotomia?

Foi uma conversa interessante porque realmente mostrou um certo receio dos escritores chineses em relação a essa abertura ao mundo, o que é muito estranho quando se está de fora e se pensa que a China é esta imensidão e tem este poder todo. A última coisa que se espera é que alguém como o chinês possa ter esse receio. Mas, depois, pensamos que os chineses construíram a Grande Muralha. Então talvez grande parte da cultura chinesa tenha sido construída por receio do outro, por medo do outro. Aí já fará sentido aquele pensamento. Para mim, o grande combate é o combate pelo fim das fronteiras. Eu acho as fronteiras a pior construção ideológica da humanidade. Eu acredito no fim das fronteiras. De todas as fronteiras.

Mas mesmo dentro do mundo lusófono ainda existem barreiras, algo que se vê na própria circulação da literatura entre os países e regiões que falam português. As editoras têm um papel importante neste sentido?

A ideia, quando ajudei a criar em 2006 uma editora brasileira [Língua Geral], era exatamente dar a conhecer ao público brasileiro autores de Língua Portuguesa, que na época não eram conhecidos. A editora triunfou nesse sentido, ou seja, essa ideia prosperou. Hoje, a generalidade das grandes editoras brasileiras estão à procura e estão a publicar autores portugueses e africanos de Língua Portuguesa. Isso no Brasil mudou nos últimos dez anos. Quando nós dizíamos “autores de Língua Portuguesa”, também estávamos a incluir os autores asiáticos – publicámos na editora, por exemplo, o Luís Cardoso e eu próprio entreguei Henrique de Senna Fernandes a uma editora brasileira, a Gryphus; portanto, um livro dele foi publicado numa editora brasileira. Mas ainda há muita coisa a fazer. Há todo um caminho que é preciso fazer ainda.

Porquê é que ainda existe este distanciamento?

Há coisas que são difíceis de explicar. Acho que a situação está a mudar rapidamente. No caso do Brasil, mudou mesmo. Mesmo nos festivais de literatura, a maioria tem essa atenção, até porque descobriram que os autores portugueses ou de Língua Portuguesa dão certo. Um exemplo bom é o Valter Hugo Mãe, que esteve na Festa Literária do Parati [cidade do Estado do Rio de Janeiro, fundada no século XVIII] e foi um sucesso imenso lá, e hoje é um fenómeno literário no Brasil. Portanto, no Brasil isto está a mudar. Em relação a Portugal, há muitos anos que os autores africanos são bem recebidos. Mas, por exemplo, os autores brasileiros menos. Estão até publicados, mas não vendem. Não têm público. É difícil explicar porquê. Eu não tenho uma explicação. Agora acho que as editoras precisam de trabalhar melhor. Em Portugal as pessoas veem filmes, novelas brasileiras, porquê é que não hão de ler? Não compreendo.

Então depende mais das editoras do que da abertura dos povos?

Pois… eu acho que sim. Acho que há leitores, mas os leitores ainda não descobriram “aquele” autor… Quando descobrirem, vão comprar.

A literatura de Macau de expressão portuguesa é provavelmente a mais desconhecida no universo lusófono…

Sim, com certeza. Porque realmente Macau está na periferia da periferia. É o território mais periférico de todos nesse sentido. Essa comunidade de falantes de Língua Portuguesa também é muito pequenina; por isso também imagino que a produção literária em Macau em português seja pequena.

Macau poderia ser cenário para um dos seus livros?

Macau tem uma coisa que a mim me interessa e me cativa, que é o facto de ser um ponto de encontro. Mesmo historicamente, como porto, etc.. É um lugar de convergências, de confluência. É um lugar onde se encontram pessoas vindas de países e lugares muito diferentes, com experiências muito diferentes e, ao mesmo tempo, com uma cultura muito própria, muito específica e muito forte. Isso a mim fascina-me, essa mistura é para mim muito interessante. Se Macau fosse cenário de um livro, seria um lugar de encontro.

Depois de A Rainha dos Estapúrdios e Teoria Geral do Esquecimento, ambos publicados em 2012, já está a trabalhar num novo livro?

Sim, estou, mas ainda não consigo falar sobre ele… É um romance… [risos]

Mas pode integrar um bocadinho deste universo oriental?

É uma coisa absolutamente diferente de tudo o que eu fiz até agora. E integra tudo. É diferente de tudo. 

* Publicado originalmente no Jornal Tribuna de Macau (Macau, China) - 13. mar. 2013.

Extraído do sítio Ventos da Lusofonia

28 de setembro de 2012

ABERTURA OFICIAL DA 28ª FEIRA DO LIVRO OCORRE NESTA SEXTA-FEIRA


O Município de Caxias do Sul por meio da Secretaria Municipal da Cultura - Programa Permanente de Estímulo à Leitura - PPEL/Livro Meu lembra que na próxima sexta-feira, 28 de setembro, será aberta a 28ª Feira do Livro de Caxias do Sul. A solenidade ocorre às 18h30min, no Palco Central – Praça Dante Alighieri.

O patrono Gilmar Marcílio e a homenageada Domingas Colombo Giacomin apadrinham a edição deste ano da Feira, que tem como tema ?“Entre nesta história?”. Estão previstas mais de 300 atrações literárias, entre elas sessões de autógrafos, mesas temáticas, bate-papo com autores, contação de histórias, música, palestras, teatro e oficinas.

A estrutura da Feira conta com coberturas que totalizam 3,5 mil m² e abriga as 46 bancas de livreiros de Caxias e de outros estados; Biblioteca da Estação/SMED; Coordenação; Auditório com 150 lugares; Café Cultural; estande da Associação dos Livreiros Caxienses; Academia Caxiense de Letras; espaço do SESI; além do palco central e setor infantil.

A novidade deste ano é um novo estande no setor infantil, destinado à leitura para bebês: o Berço da Leitura. O projeto é desenvolvido pelo PPEL desde o início do ano na Biblioteca da Estação e visa contribuir, desde cedo, para a formação de uma postura leitora e fortalecer laços afetivos entre pais e filhos. Livros coloridos, com efeitos sonoros, de tecido, de banho, com fantoches e muitos outros recursos prometem atrair a atenção dos pequenos. Além disso, o setor geral também conta com um novo espaço com capacidade para mais seis bancas.

A Feira do Livro aguarda um público superior a 300 mil pessoas, que poderá contar com os tradicionais descontos de 20% à vista (dinheiro, cheque, cartão de débito), e 15% no cartão de crédito, para a compra de livros. Grandes nomes da literatura fazem parte da nominata da 28ª Feira do Livro, entre os destaques estão: Antonio Cicero, Carlos Brandão, Carlos Moore, Clara Averbuck, Fabrício Carpinejar, Eliane Brum, João Gilberto Noll, José Eduardo Agualusa, Juan Pablo Villalobos, Lucas Figueiredo, Nasi, Tico Santa Cruz, Paula Pimenta, Eduardo Sacheri e Carlos Maltz. A Orquestra Municipal de Sopros de Caxias do Sul apresenta-se tradicionalmente no primeiro sábado de Feira do Livro. Será na manhã do dia 29, às 10h30min e o concerto será regido pelo Maestro Gilberto Salvagni.

A 28ª Feira do Livro de Caxias do Sul é uma realização da Prefeitura de Caxias do Sul, por meio da Secretaria Municipal da Cultura - Programa Permanente de Estímulo à Leitura/Livro Meu e da Associação dos Livreiros Caxienses. O maior evento literário da cidade ocorre de 28 de setembro a 14 de outubro, na Praça Dante Alighieri, é financiada pela Lei de Incentivo à Cultura – LIC, e conta com o patrocínio da Marcopolo, Empresas Randon e Visate, com apoio da Faculdade da Serra Gaúcha (FSG) e Secretaria Municipal da Educação (SMED).

PROLER - O comitê do PROLER em Caxias, coordenado por Luiza Motta, promove junto à programação da Feira, o 19º Encontro Estadual de Leitura nos dias 04, 05 e 06 de outubro. As 10 oficinas ministradas por escritores e especialistas na área da literatura fazem do PROLER um importante momento de formação que atrai mais de 300 pessoas. A abertura do Encontro será no dia 04, às 20h, no Teatro Pedro Parenti – Casa da Cultura, com palestra de Carlos Brandão (RJ), - Mestre em Antropologia Social pela Universidade de Brasília, Doutor em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo e livre-docente pela Universidade Estadual de Campinas. Atualmente trabalha no Doutorado em Ambiente e Sociedade na Unicamp, no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Goiás. No dia 05 as oficinas acontecem no Bloco J da UCS. O encerramento será no dia 06 no Auditório da Feira, com mediação da homenageada da Feira, Domingas Colombo Giacomin e participação de Flávia Melice Vergani.

PASSAPORTE - Outro projeto do PPEL, já tradicional na Feira do Livro, é o Passaporte da Leitura, que promove o encontro entre escritores e escolas da rede municipal e estadual de ensino. As escolas desenvolveram durante o ano estudo das obras dos seguintes autores: Adriana Antunes, César Obeid, Christina Dias, Daniela E. Teixeira, Georgina Martins, Lenice Gomes, Luciana Savaget, Luís Dill, Odilon Moraes, Regina Rennó, Rosinha Campos, Sandra Pina e Tiago Melo de Andrade.

Horários da Feira: Quartas, sextas, sábados, domingos e feriados - 10h às 20h - Segundas, terças e quintas - 12h às 20h - Setor infantil – todos os dias das 12h às 20h.

19 de junho de 2012

PARA AGUALUSA, O BRASIL ESTÁ MAIS PERTO DA ÁFRICA

Autor angolano esteve em Fortaleza e falou sobre o diálogo cultural entre Brasil e África. Para ele, o País tem a responsabilidade de líder entre os países de língua portuguesa. Em entrevista publicada na edição desta segunda-feira no jornal O Povo, Agualusa falou sobre a aproximação entre os países, literatura e língua portuguesa. Leia a íntegra da entrevista:



José Eduardo Agualusa, 51, nasceu em Angola, já morou no Brasil e atualmente reside em Lisboa. É um dos escritores que mais promovem o intercâmbio entre os países da comunidade de língua portuguesa, inclusive tematizando esses diálogos culturais em suas obras ficcionais. Em passagem por Fortaleza no final do mês passado, ele falou sobre a maior proximidade nos últimos anos entre Brasil e África e como sua literatura atravessa essas fronteiras.

O Povo - Como você avalia o atual momento do diálogo entre Brasil e África?

José Eduardo Agualusa - Acho que esse diálogo está se intensificando e que vai muito além da aproximação entre Estados, da aproximação oficial, vamos dizer. É uma aproximação entre as sociedades civis de todos esses países, ou seja, a mim parece que nunca houve realmente tanto trânsito entre África e Brasil como agora, não só de pessoas – porque há um número muito grande de brasileiros hoje vivendo em Angola, por exemplo, e de angolanos e africanos estudantes a viver no Brasil –, mas, sobretudo, há um trânsito de ideias, de palavras, que se faz através das novas tecnologias, da Internet. Então a mim parece que estamos mesmo no limiar de um tempo novo.

A literatura é um caso particular nessa história?

A literatura ajuda um pouco, é uma arte que não atinge a maioria das pessoas, tanto no Brasil, quanto em África. Em nossos países infelizmente ainda são poucas as pessoas que leem e, sobretudo, que leem literatura. Mas, de qualquer maneira, a literatura tem um papel importante sim. Seja como for, a literatura é lida por um conjunto de pessoas, muitas das quais com capacidade para tomar decisões importantes. Agora é evidente que talvez você sinta esse diálogo mais na música. Ou não sei. Se a gente pensar que eu vivi no Brasil há 12 anos, quando se entrava numa livraria brasileira e não havia um único autor africano, não havia mesmo, e hoje qualquer boa livraria tem autores africanos, não apenas de língua portuguesa, e que eles estão presentes inclusive nos muitos festivais literários que hoje existem no Brasil. Isso mostra que há um interesse do Brasil por África. Eu estava falando da música, mas provavelmente nesse caso estou enganado, provavelmente há mais presença da literatura africana do que da música africana aqui. Normalmente não é assim, a música chega sempre antes. No caso da Europa, a música africana está mais presente do que a literatura. Mas no caso do Brasil acho que não é assim.

O alto nível em que estão os escritores africanos de língua portuguesa é um dos fatores que explicam esse fato?

John Mazwell Coetzee
Há várias razões que possam explicar isso. Uma delas é que o Brasil é um grande produtor de música, o Brasil tem hoje talvez a melhor música do mundo, uma música muito diversificada. De qualquer forma, me parece importante que o Brasil retome sua ligação com África e tome conhecimento da música que se faz hoje. Isso pode ajudar muitos brasileiros a criarem novos ritmos. Quanto ao caso da literatura, há realmente um número de escritores interessantes no espaço da língua portuguesa e para além desse espaço. A África tem quatro prêmios Nobel. Um deles, o John Coetzee, é relativamente bem conhecido no Brasil; os outros não tanto. No caso dos escritores de língua portuguesa, há um pequeno grupo de escritores com qualidade que também têm presença no Brasil hoje. Estou a pensar, sobretudo, no Mia Couto, que hoje tem muitos leitores aqui, mais leitores que a maioria dos escritores brasileiros tem, mesmo daqueles escritores mais conhecidos. O Mia realmente tem um público muito grande. Em Portugal também tem, foi um dos poucos escritores que não sofreu com a crise, não deixou de vender por causa desta crise que está a afetar a maior parte dos países europeus. Depois temos autores mais novos como Ondjaki, que já conseguiu criar um público próprio também; Pepetela também tem um público. E eu creio que exista depois um público especial nas universidades, creio que estes autores africanos, Luandino Vieira, Ana Paula Tavares, têm uma presença grande nas universidades.

Destes escritores africanos, dois dos mais lidos e divulgados no Brasil nos últimos anos são Valter Hugo Mãe e Gonçalo Tavares. Ambos nascidos em Angola, mas considerados escritores portugueses. 

Vitor Hugo Mãe
É curioso porque há uma série de escritores hoje em Portugal que tem origem angolana, são vários, não são apenas esses. O Gonçalo é um grande escritor. Eu acho que o Gonçalo é hoje no universo da língua portuguesa talvez a figura mais interessante. Das vozes mais novas evidentemente. Temos escritores mais velhos como o Lobo Antunes, que tem uma presença no mundo. Mas o Gonçalo é extremamente traduzido hoje e realmente é uma figura surpreendente. Então temos o Gonçalo, que é de Luanda; o Valter Hugo, que creio nasceu no norte da Angola; temos uma outra escritora, a Filipa Melo, que é também de origem angolana; e há mais ainda. Eu uma vez fiz uma lista e são muitos. Agora são pessoas que foram muito jovens para Portugal e que de uma maneira geral não têm uma relação muito forte com Angola. O Valter tem alguma. O Gonçalo menos. 

Você se mudou de Angola para Portugal pela primeira vez no final da década de 1970. Foi estudar agronomia e silvicultura em Lisboa. Já havia o interesse em paralelo pela literatura nessa época?

Não. Quando começou o interesse pela agronomia, eu não pensava em ser escritor. Em Lisboa havia uma comunidade muito grande de estudantes e fazíamos uma vida muito juntos, estávamos naquela situação, longe do país, trocávamos livros e começamos a escrever. Com um grupo de estudantes, eu criei uma revista literária, porque nós não nos sentíamos muito representados por aquela poesia que era feita naquela altura em Angola, em plena revolução. A literatura que se fazia em Angola na época era uma literatura muito dirigida, revolucionária evidentemente, mas muito dirigida, não havia espaço para nada que não fosse exaltar a revolução. A verdade é que nós não nos sentíamos muito representados por aquela literatura e criamos aquele jornal pra tentar explorar outras formas, outras vertentes e foi assim que eu comecei a escrever. Nós éramos poucos e, para parecermos muitos, escrevíamos com vários heterônimos.

E daí ao primeiro livro?

A Conjura
Então comecei a escrever e em determinada altura, ainda estudante, tropecei um pouco por acaso numa coleção de jornais angolanos do século XIX na Biblioteca Nacional em Lisboa e fiquei absolutamente fascinado por aquele universo. Me dei conta que tinha ali um romance pronto, os personagens estavam todos lá, só faltava inventar o enredo e comecei a escrever o meu primeiro romance, A Conjura. Eu lembro que entreguei o original desse romance ao Pepetela numa das vezes que eles foi a Lisboa. Ele levou o original para Luanda e colocou num concurso, que era o mais importante na altura, o Prêmio Sonangol de Literatura. Sonangol é uma empresa de petróleo, a maior empresa angolana, e tinha esse prêmio, não sei se ainda tem. Então eu ganhei esse prêmio, que implicava uma edição em Portugal também. Ou seja, pra mim não foi muito difícil o começo porque o livro teve críticas boas. 

Pelo que eu entendi, sua literatura começa muito ligada à política. Como você encara esse elemento político em sua escrita?

A literatura está ligada a vida naturalmente e a mim não seria possível alijar-me da questão política, toda a literatura pra mim é politica também. Eu sempre estive ligado a movimentos pacifistas, que lutavam pela paz em Angola. Eu nasci com guerra, sempre vi guerra ao longo da minha vida toda. Sempre guerra, sempre guerra. Então sempre tive ligado a movimentos pacifistas e pró-democracia. A minha luta daquela época é a mesma luta de hoje, é uma luta pela democratização do país. Hoje não mais pela paz, felizmente, a paz é um dado adquirido, não vai voltar a guerra, mas Angola ainda não é uma democracia. Eu acho que mesmo a justiça social só fica assegurada ou só verdadeiramente assegurada através do regime democrático, acho que é impossível falar em uma melhor distribuição de riqueza etc sem ser no contexto da democracia.

Você é um angolano branco. Essas diferenças raciais são muito marcadas dentro do país? 

Vamos tratar como angolano de origem portuguesa. Eu vivi numa cidade que era uma cidade bastante particular. Huambo era uma cidade do interior da Angola, nova, muito nova, com uma presença colonial mais forte do que em outras cidades. Se você for à Benguela, por exemplo, é uma cidade bastante mais integrada do que Huambo, mas mesmo em Huambo havia alguma integração. Angola não era a África do Sul, sempre tive colegas de todas as origens. Eu era muito jovem quando aconteceu o 25 de abril em Portugal (Revolução dos Cravos), depois a Independência da Angola. Eu tinha 15 anos. Foi uma época em que todos nós crescemos, amadurecemos muito rapidamente, e aquela época foi também uma época de grande euforia, uma época em que as clivagens raciais desapareceram, foi uma época de grande fé coletiva. Não era uma questão que fosse premente na época, não quer dizer que não existisse, mas não era premente. Em Angola você tem uma situação que é: tem pessoas com diferentes origens em termos de língua materna. Eu talvez me defina mais facilmente como um angolano de língua materna portuguesa. Nesse grupo você tem pessoas de todas as origens raciais, é mais uma questão de cultura, de pertença cultural. Nunca penso em mim como sendo mais claro ou mais escuro, penso em mim como um angolano de língua materna portuguesa. Uma coisa que eu sinto em Angola também.

Recentemente entrevistei o Valter Hugo Mãe e perguntei se o passado colonial ainda mobilizava a sociedade portuguesa. Ele respondeu que cada vez menos. No caso de Angola, isso acontece?

Pros angolanos talvez menos que para os portugueses. Angola teve essa guerra civil que foi muito mais violenta do que a guerra colonial e também Angola é um país muito jovem, a esmagadora maioria dos angolanos tem menos de 30 anos, a maioria dos angolanos nem sequer viveu a época colonial, ouve falar, mas nem sequer viveu, então é uma dimensão diferente. Eu acho que a guerra colonial - no caso a guerra de libertação - em Angola hoje não tem a mesma presença do que a guerra colonial tem na sociedade portuguesa.

Luanda é um personagem específico da sua obra. Você pode falar sobre a cidade?

Luanda, Angola
Luanda é uma cidade muito forte, uma cidade muito perturbadora, não é uma cidade fácil, não é uma cidade aberta, não é uma cidade, vamos dizer, como o Rio de Janeiro, que a gente chega e não é possível não gostar. Luanda não é assim, Luanda é uma cidade difícil, é uma cidade muito ruidosa, onde não é agradável estar. Mas ao mesmo tempo é uma cidade absolutamente fascinante para um escritor, porque está cheia de história. Primeiro porque há angolanos que chegam todos os dias a Luanda vindos do país inteiro, trazendo com eles uma mitologia própria, uma maneira diferente de olhar a vida. Por outro lado, porque também chegam a Angola aventureiros vindos do mundo inteiro. Luanda é uma cidade que atrai aventureiros, porque é uma cidade que tem essa mitologia que é fácil de ganhar dinheiro. É uma espécie de faroeste, um dos últimos faroestes do planeta hoje (risos). Isso é muito interessante do ponto de vista literário, você tem um manancial de histórias que nunca se esgota. A gente sai pra rua, começa a conversar com pessoas e facilmente se descobrem histórias, umas atrás das outras. O difícil é saber o que que se vai trabalhar. Eu sinto falta.

Quais questões estão postas para sua literatura hoje? Ou cada livro tem um motivo diferente?

Eu acho que não dá pra forçar, sobretudo no romance não dá pra forçar. No romance, você tem que estar muito apaixonado por uma ideia, o romance pra mim parte de uma ideia. N’O Vendedor de Passados, o cara que vende passados para os novos ricos. Nação Crioula: a história de uma senhora que, sido escrava, se torna escravocrata. Isso é a ideia. O romance exige um envolvimento muito grande, uma paixão. Em Milagrário Pessoal houve uma paixão até física, uma história muito louca. Eu conheci num jantar uma linguista portuguesa muito bonita. Ela tinha um programa no computador que recolhia palavras novas surgidas na imprensa de língua portuguesa e depois o trabalho dela era ver se aquelas palavras eram neologismos ou não para serem dicionarizadas. Eu saí daquele jantar completamente apaixonado por ela e pela ideia de alguém que recolhe neologismos e inventei uma história: uma linguista que faz isso e de repente começa a descobrir dezenas, depois centenas de neologismos tão perfeitos, tão necessários, que as pessoas se apropriam deles sem darem conta sequer que são palavras novas. E comecei a escrever o livro, comecei a namorar com ela. O livro levou nove meses. Nove meses que eu fui contando a história pra ela, tipo Sherazade, e quando livro terminou, terminou o romance. Ela me trocou por outro cara (risos). De onde se pode concluir que a literatura também serve pra isso, para seduzir.

Você acredita em uma espécie de dívida histórica do Brasil com a África por conta da escravidão?

A vitimização não é uma solução para enfrentar os problemas. A África não pode continuar a colocar-se no papel de vítima, a África tem que se colocar no papel de atuante. Foi o caso da África do Sul, que resolveu muito bem a transição do Apartheid para um regime democrático, verdadeiro, autêntico, sem nenhuma intervenção externa. A questão da vitimização não resolve nada. O que acontece hoje é que nós temos vários países que têm uma matriz comum. Angola, Guiné Bissau, Cabo Verde podem tentar explorar o fato do Brasil ser um país irmão e ser um país que resultou dessa construção africana. Isso sim. Acho que o Brasil tem uma responsabilidade para com os países de língua portuguesa? Acho. Por ser um país com uma dimensão enorme, um país que tem uma presença no mundo muito grande e a presença do Brasil no mundo passa também por sua afirmação identitária, uma afirmação através da língua portuguesa. O Brasil tem essa responsabilidade de saber liderar esse conjunto de países de língua portuguesa, porque é o maior país. Isso o Brasil não tem feito ainda e isso eu acho que nós devemos exigir ao Brasil, que cumpra suas obrigações enquanto gigante. 


Extraído do sítio Portal Vermelho