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11 de junho de 2013

O MUNDO RURAL NA LITERATURA BRASILEIRA


A palavra escrita nasce da palavra falada. E toda a literatura – da forma como a conhecemos hoje – teve sua origem na oralidade do homem do campo. Com o passar do tempo, essa riquíssima cultura narrativa começou a ser registrada por escritores urbanos, com o objetivo de estabelecer, a partir de bases sólidas, a construção de uma autêntica identidade nacional.


No Brasil, esse processo teve início no século 19, com a obra de José de Alencar. A fim de desvendar a essência de nossa nacionalidade, Alencar construiu um grande painel do mundo rural brasileiro, escrevendo romances como O Sertanejo, de 1875.

Assim, José de Alencar foi o primeiro autor a retratar a riqueza da cultura rural do País, tornando-se o criador da narrativa de temática rural, um gênero que encontraria muitos seguidores no século 20.

Rapidamente, em 1902, surge uma obra revolucionária que iria romper com a antiga maneira idealizada de falar sobre o homem do campo: Os Sertões, de Euclides da Cunha – um relato dramático da Guerra de Canudos, que aconteceu no interior da Bahia, entre os anos 1896 e 1897.


Embora bastante ultrapassada do ponto de vista sociológico (com sua tese que depreciava a mestiçagem racial), a obra de Euclides da Cunha consegue ilustrar com cores bastante vivas a trágica epopeia da vida sertaneja, numa luta diária contra a aridez da paisagem e a opressão das elites governamentais.


Já no sul do Brasil, o grande representante do mundo rural na literatura é João Simões Lopes Neto. Sua obra principal, Contos Gauchescos, de 1912, é um marco para a cultura do Rio Grande do Sul. Com um estilo repleto de expressões regionais típicas do homem do pampa, Simões Lopes Neto consegue retratar, de forma bastante sofisticada e sem preconceitos linguísticos, toda a sabedoria iletrada do gaúcho brasileiro – extremamente influenciado pela literatura do Rio da Prata, sobretudo a obra Martín Fierro, do argentino José Hernández.

Dando prosseguimento ao nosso passeio pelo campo das letras, chegamos, já em meados da década de 10, ao fenômeno literário chamado Monteiro Lobato – o escritor mais representativo do universo rural no contexto da narrativa pré-modernista brasileira.


Em seu trabalho, praticamente tudo gira em torno da cultura do campo, desde o seu primeiro livro, o amargo Urupês, de 1918, passando pelas célebres histórias infanto-juvenis do Sítio do Pica-Pau Amarelo, nos anos 20, até a construção do estereótipo que sintetizou a figura do "caipira" brasileiro – o Jeca Tatu, de 1924.


Por outro lado, nesta mesma época, o Brasil assistia ao surgimento da Vanguarda Modernista, em São Paulo, que chegava para criticar satiricamente a ideia de construção de uma identidade nacional. E Mário de Andrade, um dos líderes do movimento, acabou atuando como o arauto da tradição folclórica dentro do Modernismo. Sua obra Macunaíma, de 1928, faz uma grande salada de mitos e lendas oriundos das mais diversas regiões do Brasil, apresentando a cultura interiorana de uma forma revigorada, crítica e, ao mesmo tempo, com profundo embasamento etnográfico. 

Na esteira do experimentalismo modernista, surge, na década de 50, a mais importante obra literária produzida no País em todos os tempos: Grande Sertão Veredas, de João Guimarães Rosa, lançada em 1956.


Reconhecido internacionalmente pela originalidade de seu estilo, este livro apresenta um longo e misterioso diálogo entre o velho jagunço Riobaldo e um jovem doutor recém chegado a suas terras. Neste texto primoroso, cheio de invenções linguísticas e metáforas poéticas, Guimarães Rosa funde com precisão os elementos vanguardistas do modernismo à temática regionalista, criando uma obra-prima única e inovadora.


E para finalizarmos o nosso maravilhoso tour pelo mundo da literatura relacionada à temática rural, não podemos esquecer de Morte e Vida Severina, do poeta João Cabral de Melo Neto: uma espécie de "poema-peça" que relata a dura trajetória de um retirante nordestino em busca das promessas de prosperidade na cidade grande.

Certamente, um enredo bastante significativo, tendo em vista a constante ameaça de diluição que assombra a figura simbólica do homem rural em nossas sociedades urbanas e tecnológicas.

Afinal, como escreveu o próprio Euclides da Cunha: "Estamos condenados à civilização. Ou progredimos, ou desaparecemos". Mas não é bem assim. E por isso é que existe a literatura – para que a herança inestimável da sabedoria do homem rural não permita que nós, homens urbanos, sejamos definitivamente diluídos e ressecados pela nossa própria falta de raízes essenciais.

Extraído do blog Feiratur

26 de março de 2013

EXPOSIÇÃO EM SÃO PAULO MOSTRA FOTOS FEITAS POR MÁRIO DE ANDRADE - Flávia Albuquerque


São Paulo – Uma mostra com 60 fotografias feitas por Mário de Andrade durante uma viagem ao Pará e ao Peru em 1927 foi aberta pela Caixa Cultural São Paulo. A exposição Mário de Andrade: Etnógrafo-Fotógrafo-Poeta é um recorte do acervo do Instituto de Estudos Brasileiros da USP (IEB) e mostra as fotos em preto e branco de pessoas durante o trabalho.

Na viagem, chamada por Mário de Andrade de Viagem pelo Amazonas até o Peru, pelo Madeira até a Bolívia e pelo Marajó até dizer chega, ele fotografou e escreveu sobre a paisagem, o homem e a cultura da região. De acordo com a curadora da exposição, Adrienne Firmo, as fotos originais variam de 3,1 centímetros (cm) por 3,7cm a 12cm por 17cm e foram digitalizadas e ampliadas especialmente para a exposição. “Algumas já estão amareladas, são de cor sépia, por isso ampliamos para 20cm por 30cm para uniformizá-las”.

Adrienne ressaltou a importância etnográfica das fotografias como um dos atrativos da mostra. “Estes são os primeiros documentos fotográficos do interior do país e feitos por um intelectual da envergadura de Mário de Andrade, que é um dos responsáveis pela concepção da identidade brasileira do período do modernismo”. Segundo ela, os retratos são uma forma de reconhecimento do Brasil e a constituição do modernismo no país, que identificava o que é ser brasileiro e, ao mesmo tempo, pautar o que é ser brasileiro.


“Outro aspecto interessante são as resoluções plásticas a que Mário chega nestas fotos. Ele era extremo conhecedor das artes visuais e conhecia a estética fotográfica que estava sendo feita na Europa por meio das revistas de fotografia e cinema que assinava. Há um interesse etnográfico e histórico, mas também há um destaque plástico muito importante, porque é o trabalho de um escritor que usa uma máquina simples e consegue extrair ótimo resultado”.

As fotos registram o trabalho no campo com a cana, o café e o gado; o de populações ribeirinhas no transporte de madeira e alimentos; os mercados dos grupos urbanos; as trocas entre citadinos e indígenas; além de referências aos trabalhos femininos como a lavagem de roupas. A exposição é gratuita e fica em cartaz até o dia 5 de maio.

Extraído do sítio Agência Brasil

9 de novembro de 2012

UMA CIDADE DE ESCRITORES - Luiz Ruffato


Há uma cidade na região da Zona da Mata de Minas chamada Cataguases, com cerca de 70 mil habitantes, que nos desconcerta pela quantidade de escritores que produz. Fundada em 1877, já possuía em 1908 energia elétrica e fábricas de tecido, base, até hoje, da economia local. No fim da década de 1920, um grupo de adolescentes, capitaneado por um engenheiro mais velho, poeta parnasiano e pai de família contaminado por ideias extravagantes, chamado Henrique de Resende (depois, ele abandonaria o “h” e o “de”), inventou de fundar uma revista modernista, a Verde. Paralelamente, por um desses estranhos desígnios, na mesma cidade, mas independentemente, um eletricista e jogador de futebol, Humberto Mauro, dava os primeiros passos para a criação do cinema brasileiro.

Em 1927, Verde era a única revista de divulgação do novo ideário em circulação no país, o que carreou para suas páginas textos dos mais importantes escritores modernistas em ação naquele momento. Se Mário de Andrade e Alcântara Machado a recomendavam com entusiasmo aos colegas espalhados pelo Brasil, Oswald de Andrade levou sua admiração ao extremo: tomou um trem e desceu, pantagruélico, na estação da cidadezinha acanhada só para conhecer os meninos mal saídos dos cueiros. No correio, chegavam pacotes e pacotes de livros, revistas e jornais, inclusive do exterior, consumidos com avidez pelo grupo. Cataguases, de uma hora para outra, ganhava espaço entre a intelectualidade brasileira.

Dos que assinaram o Manifesto Verde, um precioso documento de ingênua rebeldia que acompanhou o terceiro número da revista, alguns inscreveram seus nomes em definitivo na história da literatura nacional: o poeta Ascânio Lopes, morto prematuramente, com menos de 21 anos; o contista Camilo Soares, que ainda aguarda que alguém lhe reúna a obra dispersa; o poeta, romancista, historiador e crítico literário Guilhermino César (que a partir da década de 1930 adotou o Rio Grande do Sul como pátria); o romancista Rosário Fusco, autor dos cultuados O Agressor e Carta à Noiva; e o contista Francisco Inácio Peixoto, filho de industriais, ele mesmo industrial, responsável pela introdução da arquitetura modernista que marca e diferencia Cataguases como patrimônio cultural brasileiro – onde Oscar Niemeyer e discípulos desenharam uma espécie de rascunho do que seria mais tarde Brasília.

Poetas marginais, jornais mimeografados

De lá para cá, a cidade tem se esmerado em manter a tradição literária. No fim da década de 1930, o solitário Henrique da Silveira publicou seus textos em jornais locais – seu livro, Poemas Desta Guerra, só seria editado na década de 1970. No fim da década de 1940, acompanhando a tendência de reação aos excessos do modernismo, Cataguases viu nascer a revista Meia-Pataca, revelando os poetas Francisco Marcelo Cabral e Lina Tâmega, que iriam desenvolver suas carreiras no Rio, o primeiro, em Brasília, a segunda. Pouco depois, surgem duas poetas, de igual sensibilidade e importância no cenário nacional, Celina Ferreira e Maria do Carmo Ferreira.

Na década de 1960, inicialmente influenciados pelo movimento concretista, os irmãos Branco (Joaquim e Aquiles e P.J. Ribeiro) e Ronaldo Werneck fundam um suplemento literário, “SDL”, mais tarde desdobrado no jornal Totem, que se tornou um dos mais importantes órgãos de divulgação da poesia de vanguarda brasileira, ampliando seus interesses para além do concretismo. Ao longo de toda década de 1970, por suas páginas de diagramação vertiginosa desfilaram autores brasileiros e estrangeiros comprometidos com as mais radicais tendências da experimentação da linguagem poética, como o poema-processo, e do suporte material, como a arte-postal. Do núcleo inicial, além dos já citados poetas Joaquim Branco, Aquiles Branco e Ronaldo Werneck e o contista P.J. Ribeiro, sobressaíram a poeta e ficcionista Marcia Carrano e o poeta Fernando Abritta.

Cataguases sempre espelhou os movimentos que ocorriam em nível nacional: modernismo, neoparnasianismo, vanguarda. Na década de 1970, ao lado da experimentação formal do grupo ligado ao Totem, apareceram os poetas marginais com seus jornais mimeografados, com destaque para dois títulos principais, Lodo e Nexo, que serviram de laboratório para a geração seguinte, curiosamente dedicada, em contraposição às anteriores, mais à prosa de ficção que à poesia.

A tradição da cidade

Assim, temos os romancistas Fernando Cesário (Os Olhos Vesgos de Maquiavel) e Marcos Vinicius Ferreira de Oliveira (E Se Estivesse Escuro?), os contistas Ronaldo Cagiano (O Sol nas Feridas) e Eltania André (Manhãs Adiadas), e o mais conhecido de todos, Marcos Bagno, que, além de ser uma das maiores autoridades em linguística do Brasil – seu Preconceito Linguístico alcança a inacreditável marca de 55 edições em pouco mais de dez anos – e consagrado autor de livros infantis e juvenis, é também poeta, contista e romancista – seu livro As Memórias de Eugênia foi finalista neste ano do Prêmio São Paulo de Literatura na categoria estreante. Cabe aqui lembrar ainda os nomes de José Santos e Tadeu Costa, que se dedicam à literatura infantil e juvenil, e do poeta Marcelo Benini.

Bom, também eu nasci em Cataguases. Filho de um pipoqueiro e de uma lavadeira, passei a infância brincando de pique em torno de uma pracinha, que ostenta um painel de Portinari e uma escultura de Bruno Giorgi. Carregava trouxas de roupa lavada e passada, equilibrando-as na garupeira de uma bicicleta, para casas de arquitetura modernista das avenidas Humberto Mauro e Astolfo Dutra. Acompanhava minha mãe às missas na Igreja de Santa Rita com seu painel de Djanira, passeava na praça Rui Barbosa com o coreto projetado por Francisco Bolonha, frequentava as matinês do Cine-Teatro Edgar, projeto de Carlos Leão e Aldary Toledo, visitava meus amigos no Bairro-Jardim, conjunto de casas operárias desenhadas por Francisco Bolonha (na minha época, estranhamente, o lugar era conhecido como Favela...).

Eu não sabia de nada disso, evidentemente. Para mim eram casas, pinturas, árvores... Nem sabia também que o suplemento que vinha encartado no jornal oficial da cidade era o Totem e que eu, ignorante, começava consumindo a literatura de vanguarda sem ter visitado nenhuma outra anteriormente... Exponho tudo isso para me inserir no quadro da tradição de Cataguases... Exponho tudo isso, na verdade, para confessar uma enorme frustração. Se eu tivesse nascido alguns quilômetros depois, ou antes, de Cataguases, digamos, em Ubá ou Laranjal, talvez hoje pudesse me orgulhar de ser o escritor mais conhecido de minha cidade – e, por falta de concorrência, quem sabe, até o melhor. Nascido em Cataguases, só me resta lamentar e me enfileirar atrás dos grandes. Mas, pensando bem, se não houvesse nascido em Cataguases, muito provavelmente eu nem seria escritor...

Luiz Ruffato é escritor. Autor de Eles Eram Muitos Cavalos, Estive em Lisboa e Lembrei de Você e do projeto Inferno Provisório. Foi traduzido em países como Itália, França, Portugal, Argentina, Colômbia, México e Alemanha.

** Reproduzido do suplemento “Eu&Fim de Semana” do Valor Econômico, 1/11/2012.

Extraído do sítio Observatório da Imprensa

14 de agosto de 2012

DOSSIÊ MODERNISMO - SEMANA SEM JUÍZO - Marcos Antonio de Moraes

“Irritante, prematura e desorganizada”, a Semana de 22 é apresentada criticamente por Mário de Andrade.

"Dançarina", escultura
modernista em bronze de
Victor Brecheret, 1925.
“Como tive coragem para participar daquela batalha!”, admira-se Mário de Andrade na conferência “O movimento modernista”, em abril de 1942, no Rio de Janeiro. Transcorridos 20 anos da Semana de Arte Moderna, no Teatro Municipal de São Paulo, entre 13 e 18 de fevereiro de 1922, o escritor traz à memória eventos, personagens e ideários da vanguarda. No palco, sob vaias, ao lado de Oswald de Andrade (1890-1954), Menotti Del Picchia (1892-1988), Guilherme de Almeida (1898-1966) e outros modernistas, lê poemas de Pauliceia desvairada, ainda inédita em livro. Enfrenta caçoadas e ofensas na escadaria do teatro, quando discorre sobre as linhas de força estéticas que orientavam as principais obras expostas no saguão.

Avaliando a própria atuação no festival, Mário admite que teria fraquejado sem o entusiasmo do grupo. Entretanto, seguro de seus interesses artísticos, julga que permaneceria na rota traçada desde a exposição da pintora Anita Malfatti (1889-1964), em 1917, sintonizada com a vertente expressionista. “Com ou sem” a Semana, afirma, “minha vida intelectual seria o que tem sido”. Determina, então, o comprometimento com as ações culturais que favorecessem a liberdade de criação. Para ele, a Semana apenas marcava uma data, a passagem do momento heroico que a preparou para o período destruidor que viria depois, cumprindo a transformação do pensamento estético brasileiro.

A conferência, absorvendo as tensões políticas da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e do Estado Novo – período ditatorial do governo de Getúlio Vargas, de 1937 a 1945 –, apura melancolicamente o legado da geração vanguardista que, apesar de ter avançado no terreno da arte, não conseguiu o “amelhoramento político-social do homem”. O discurso memorialístico transmite o desencanto de quem acreditava que os modernistas não deveriam “servir de exemplo a ninguém”, mas sim “de lição”, ou seja, caberia à nova geração recusar o abstencionismo diante de uma “fase integralmente política da humanidade”.

Em cartas e artigos, Mário de Andrade fixou outras considerações sobre a Semana de Arte Moderna. Nesses textos esparsos, julgou-a com distanciamento crítico, evitando idealizá-la ou menosprezá-la. Se hoje a Semana se apresenta supervalorizada no imaginário brasileiro, isto se deve, em grande medida, a estratégias bem-sucedidas de seus participantes. O evento também esteve a serviço de interesses pessoais de inserção no campo da cultura e de ideologias políticas. Em 1932, por exemplo, aparece vinculada à Revolução Constitucionalista, o movimento armado paulista que pretendeu derrubar o governo Vargas e promulgar uma nova Constituição.

Logo depois da Semana, em 23 de fevereiro de 1922, o cronista Hélios – pseudônimo de Menotti Del Picchia – divulga em sua coluna no Correio Paulistano a carta “muito particular” que Mário de Andrade lhe endereçara dias antes, aludindo ao “Carnaval da Semana de Arte Moderna”. Na mensagem, o remetente contabiliza os lucros do escândalo que os tornaria “celebérrimos”, com os “nomes eternizados nos jornais e na História da Arte Brasileira”. O expediente nada ingênuo de que se utilizam para ganhar projeção, por meio da polêmica, encontra equivalência nas “molecagens” do grupo. Suspeitou-se que Oswald de Andrade tivesse orquestrado, na sombra, a reação animosa da plateia do Municipal, ou ainda que ataques contra os modernistas na imprensa teriam sido divulgados anonimamente por eles mesmos, como desvela Rubens Borba de Moraes (1899-1986) em Testemunha ocular, livro publicado em 2011.

Poeta consagrado Mário de
Andrade não teve uma trajetória
isenta de conflitos. Acima,
retrato do poeta por Anita Malfatti.
Na crônica de arte “Os jacarés inofensivos”, publicada na Revista do Brasil em abril de 1923, Mário se refere à luta acesa entre “arte moderna e a tradicional”, evocando, de passagem, a “deliciosa e mais que interessante Semana de Arte Moderna”. Em abril do ano seguinte, na sétima das “Crônicas de Malazarte”, na carioca América Brasileira, faz um primeiro balanço do movimento, com ênfase no “inesquecível” espetáculo, no qual “passaram-se em revista as forças de orientação” da vanguarda: “Oh! Semana sem juízo. Desorganizada, prematura. Irritante. Ninguém se entendia. Cada qual pregava uma coisa... Os discursos não esclareciam coisa nenhuma... Noções vagas; entusiasmo sincero; ilusão engraçada, ingênua, moça, mas duma ridiculez formidável... A Semana de Arte Moderna não representa nenhum triunfo, como também não quer dizer nenhuma derrota. Foi uma demonstração que não foi. Realizou-se. Cada um seguiu para seu lado, depois. Precipitada. Divertida. Inútil.” A edição do conjunto das dez Crônicas de Malazarte, em preparo por Telê Ancona Lopez, fornece o grau de consciência daquele que, desejando incitar o debate cultural, faz o prognóstico, em bases polêmicas: “A fantasia dos acasos fez [da Semana] uma data que, creio, não poderá mais ser esquecida na história das artes nacionais. A culpa é do idealismo brasileiro, que mais uma vez manifestou a sua falta de espírito prático. Maior defeito da alma nacional”.

Mário de Andrade, em 4 de dezembro de 1924, escreve a Prudente de Moraes, neto (1904-1977), que editava, com Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982), a revista Estética no Rio de Janeiro. Temendo que o periódico sofresse ingerências, relembra 1922: “Doce em que toda a gente mexe sai porcaria. Sai Semana de Arte Moderna onde até o impressionismo camuflado da Zina Aita andava de braço dado com o expressionismo da Anita”. O assunto volta à baila dias depois, em 16 de dezembro, quando partilha com o amigo seu parecer negativo dos ensaios de Ronald de Carvalho (1893-1935), reunidos em Estudos Brasileiros. No capítulo dedicado às artes plásticas, detecta a importância maior dada a Zina em uma listagem de pintores representativos do modernismo, gerando o comentário: “Na nossa Semana de Arte Moderna que tinha bluffs fantásticos que só a ignorância brasileira dessas coisas podia engolir”, pois o pontilhismo e o “talento decorativo” da artista não acusava “tendência moderna nenhuma”.

Se as apreciações de Mário sobre a Semana, entre 1922 e 1924, acusam blefes e a improvisação do grupo modernista, procurando discernir gestos fecundos e cabotinismos, em 11 de julho de 1941, em carta à poeta Henriqueta Lisboa (1901-1985), recorda-se da repercussão do certame em sua vida pessoal. Perdera “todos os alunos, tinha dias inteiros vazios sem que fazer”. Assim, encontrara tempo para conviver mais cotidianamente com Anita Malfatti, que o retratava em telas. Ficava sem os alunos particulares de piano, mas, por sorte, não o despediram do posto de professor de História da Música, cuja cátedra vitalícia no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo tinha conquistado no final de janeiro de 1922.

Do maestro João Gomes de Araújo (1846-1943), um dos fundadores da tradicional instituição de ensino, veio, aliás, a azeda carta reprovando o jovem colega em sua “fúria do entusiasmo pelo futurismo das artes”. Em 13 de fevereiro de 1922, o criador da ópera “Carmosina” acusa Mário de Andrade de pregar ideias avançadas entre os estudantes e de desrespeitar o programa de piano, fazendo tocar peças de autores que, segundo ele, eram desconhecidos e inaceitáveis. Reprova-o, ainda, por convidar as alunas a assistirem à “festa das artes”, ou seja, à Semana de Arte Moderna, que, em sua equivocada previsão, marcaria uma triste época na nossa História.

Fechando a mensagem, indica, com ironia, a melhor solução para se preservar o nome do Conservatório: “Não seria melhor que o Sr. Mário renunciasse a sua Cadeira (...) e estabelecesse com os seus colegas da propaganda, um Instituto de Futurismo das Artes? Me parece isso mais lógico do que o amigo estar no meio de colegas atrasados, fazendo parte em um estabelecimento, que não proceder de forma diferente do que o faz, respeitando as tradições antigas.” Mário fez ouvidos moucos e continuou admirando o “intransigente” mestre, referindo-se a ele, no Diário de S. Paulo, em 2 de novembro de 1933, como “uma das figuras mais salientes da nossa música”. Guardou a carta do compositor e outras desse tumultuado período, como as que lhe foram dirigidas pelo escultor alemão Wilhelm Haarberg (1891-1986), participante da exposição modernista. Hoje esses artigos e cartas estão no acervo do escritor no Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo, e ajudam a iluminar os bastidores da Semana.

* Marcos Antonio de Moraes é professor da Universidade de São Paulo e autor de Orgulho de jamais aconselhar: a epistolografia de Mário de Andrade (Edusp/Fapesp,2007).

Saiba Mais - Bibliografia

ANDRADE, Mário de. “O movimento modernista”. Aspectos da literatura brasileira. São Paulo: Livraria Martins/INL, 1972.

ANDRADE, Mário de. Cartas de Mário de Andrade a Prudente de Moraes, neto – 1924/36. Org. Georgina Koifman. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.

CAMARGOS, Márcia. Semana de 22. São Paulo: Boitempo, 2002.

LOPEZ, Telê Ancona; SANTOS, Tatiana M. L.; MORAES, Marcos Antonio de. Catálogo da série Correspondência de Mário de Andrade. Edição eletrônica. São Paulo: IEB-USP/Vitae, 2003. Disponível em www.ieb.usp.br

Extraído do sítio Revista de História

18 de abril de 2012

LOBATO E MODERNISTAS: UMA HISTÓRIA MAL-CONTADA - Gian Danton

Este ano comemora-se 90 anos da semana de arte moderna. A data tem gerado comemorações e muitos estudos sobre o evento. Entretanto, um grande equívoco ainda resiste: a suposta briga entre Lobato e os modernistas. Já existem várias obras que reavaliam essa relação, em especial o ótimo Furacão no Botocúndia (SENAC, 1998), biografia de Carmem Lúcia de Azevedo, Márcia Camargos e Vladmir Sachetta, mas infelizmente a versão de que Lobato era inimigo da Semana ainda continua sendo transmitida, inclusive em sala de aula. 

Na verdade, Lobato fez uma crítica severa a uma das grandes artistas modernistas, Anita Mafalti, quando de sua primeira exposição, em 1917 (muito antes da Semana de 1922), mas são poucos os que se preocuparam em ler o seu texto "Paranoia e mistificação". Nele, Lobato elogia a artista, a chama de original e inventiva. A crítica de Lobato é direcionada ao fato dela se deixar seduzir pela arte europeia. O autor do Sítio não era contra inovações, mas acreditava que Anita deveria procurar na cultura brasileira elementos para sua arte, evitando o macaquismo que sempre nos caracterizou. 

Para Lobato, procurar nas vanguardas europeias um norte para a arte brasileira impediria a criação de um ideal estético nacional, colocando-nos sempre como imitadores dos povos colonialistas. 

Prova de que Lobato não era contrário à estética modernista é o entusiasmo com que ele recebeu o trabalho do escultor Vítor Brecheret, um dos decanos da semana de arte moderna: "Paremos juntos, e juntos admiremos tão soberba manifestação da grande arte. Admiremos sem reserva, que isso é arte de verdade, da boa, da grande, da que põe o espectador sério, e, se sensível, comovido.".

Outro fator importante é a personalidade independente de Lobato que não admitia reduzir a arte às regras de uma escola artística. Lobato chegou a ser convidado por Oswald para se padrinho do movimento, mas recusou. O grupo então procurou o escritor Graça Aranha, que conseguiu patrocínio com a aristocracia agrária paulista (exatamente o grupo conservador que era mais criticado pelos modernistas) e fez o discurso de abertura da semana, muito criticado por defender ideias novas usando uma retórica antiga, rebuscada e parnasiana. 

Lobato fez graça com a situação: ¨Se eu tivesse participado da Semana, talvez me tivessem contaminado com a inteligência nela manifestada. Preferi ficar na minha burrice¨, escreveu ele, dispondo-se a participar de uma segunda Semana, aumentada, na qual ficaria com o cargo de papa, logo abaixo do Papão Oswald de Andrade. 


Aliás, a relação entre Lobato e Oswald sempre foi das mais amistosas. Ambos tinham espírito independente e um grande senso de humor. Oswald chamava Lobato de ¨O Gandhi do modernismo¨ e dizia que o autor do Jeca só não participou da Semana por causa do nacionalismo: ¨sua luta significava a repulsa ao estrangeirismo afobado de Graça Aranha, às decadências lustrais da Europa podre, ao esnobismo social que abria seus salões à Semana¨. 

Lobato, dono de editora, publicava alguns dos principais escritores modernistas e teve papel importante na popularização dos mesmos. Além disso, ele se correspondia regularmente com nomes como Di Cavalcanti, Graça Aranha, Oswald e Mario de Andrade e Sérgio Millet. 

Coerente com sua opinião de que Anita era uma grande artista, Lobato chamou-a para ilustrar a capa dos livros ¨O Homem e a morte¨, de Menotti Del Picchia e ¨Os condenados¨, de Oswald de Andrade, ambos lançados por ele. O livro ¨Idéias de Jeca Tatu¨ teve como capa O Homem Amarelo, quadro de Anita Mafalti (talvez uma compensação pela crítica feita em 1917).

Lobato escreveu sobre a semana, mas não para criticá-la e sim para creditá-la ao grande amigo Oswald de Andrade. No artigo ¨Nosso dualismo¨, publicado no em e reunido no livro ¨Na Antevéspera¨, Lobato diz que ¨O futurismo apareceu em São Paulo como fruto da displicência dum rapaz rico e arejado de cérebro: Oswald de Andade¨. Segundo Lobato, Oswald era um turista integral que, por sua visão cosmopolita tinha capacidade de perceber a cristalização mental da inteligência brasileira. Para tirar o país desse marasmo, ele teria recorrido ao processo da atrapalhação e exemplifica com o caso da peninha. Um sujeito propõe a outro uma adivinhação: ¨Qual é o bicho que tem quatro pernas, come ratos, mia, passeia pelos telhados e tem uma peninha na ponta da cauda?¨. Como ninguém adivinhasse, ele explicou: ¨É o gato!¨. ¨Mas e a peninha?¨. ¨Está aí só para atrapalhar¨. 

Esse processo de atrapalhação teria sido essencial para sacudir a cultura brasileira, mas a coisa desandou quando outros autores resolveram transformar essa atitude em dogma: ¨Oswald sempre repeliu os sectários e sempre refugiu de transformar sua colher de mexer, hoje colher de pau-brasil, em paradigma, em maracá sagrado. E passa a vida a criar cismas dentro do grupo, a renegar sumos pontífices¨. 

Mário de Andrade, provavelmente enciumado por Lobato ter creditado a semana a Oswald e pela crítica quanto aos dogmas, resolveu matar Lobato num texto intitulado ¨Post-scriptum Pachola¨. 

O autor do Jeca, entretanto, não fez caso. Em carta ao jornalista Flávio Campos, Lobato diz que Mário, por seu talento, tem direito a tudo, ¨até de meter o pau em você e em mim. Eu tenho levado pancadinhas dele. Certa feita matou-me e enterrou-me. Em vez de revidar, conformei-me, e sem mudar minha opinião sobre ele. Mário é grande. Tem o direito de nos matar à moda dele¨. 

Durante décadas tem se vendido a imagem de Lobato era um conservador, porta-voz das camadas mais atrasadas da sociedade brasileira. Seria, portanto, a antítese dos modernistas. Nada mais falso. Seu movimento em favor do petróleo e industrialização estão mais próximos do futurismo do que da tradição brasileira, que se contentava em plantar café. Em termos literários, ele foi um inovador, especialmente na literatura infantil, ao introduzir a linguagem coloquial em seus livros. Além disso, suas editoras foram importante veículo de divulgação dos autores modernistas.

Até mesmo Mário de Andrade, o maior responsável pela disseminação da ideia de que Lobato era inimigo dos modernistas admitiu o alinhamento desse autor com os ideais daquele movimento: ¨Quanto a dizer que éramos, os de São Paulo, uns antinacionalistas europeizados, creio ser falta de sutileza crítica. É esquecer todo o movimento regionalista aberto justamente em São Paulo e imediatamente antes, pela Revista do Brasil, é esquecer todo o movimento editorial de Monteiro Lobato¨. 

Espera-se que na, comemoração dos 100 anos da Semana de arte moderna, daqui a 10 anos, a importância de Lobato no modernismo brasileiro tenha sido finalmente redefinida. E tomara que até lá os professores já tenham parado de ensinar inverdades na sala de aula.

Extraído do sítio Digestivo Cultural

28 de março de 2012

TREZE LIVROS E UM DESTINO LEITOR - Wander Lourenço

Estávamos a petiscar queijos e azeitonas no Antigamente, da Rua do Ouvidor, eu, mais os poetas Marco Antônio Saraiva, André Luís Pinto e o jovem sonetista Teixeira dos Santos quando, repentinamente, este último resolvera indagar-me sobre quais seriam os treze romances da literatura brasileira que os leitores não poderiam morrer sem ler, com a condição de não terem o visto literário carimbado por São Pedro e seus querubins de alfândega. Como jamais havia cogitado a hipótese de elencar as obras mais importantes do espólio da ficção nacional, solicitei ao garçom lápis, papel e cerveja, não sem antes objetar que tal seleção adviria da leitura particular de um reles intelectual de botequim.

Desafio aceito, salvo engano coube ao Saraiva explicitar que se ajuizasse a respeito de cada escolha para breve debate e contestação. Logo na votação do primeiro lugar iniciou-se uma polêmica em relação a Memórias póstumas de Brás Cubas, Dom Casmurro e Grande sertão: Veredas. Expliquei-lhes que, se a lista por mim fosse organizada, eu escolheria o livro de Guimarães Rosa, mesmo que considerasse Machado de Assis um ficcionista de maior calibre do que o escritor mineiro.

Não será preciso dizer que fui acusado de prolixo e contraditório pelos engajados interlocutores de boêmia ocasião. Protestei que o Rosa conseguira suplantar o mestre fluminense ao conceber a mais espetacular fabulação pelo viés da inventividade lírica que, a partir de uma proposição inovadora de âmbito narrativo e linguístico, pairaria sobre o espaço limítrofe entre o sublime e o espanto.

Após mordidas e assopros, consegui ponderar que a medalha de prata seria destinada a Dom Casmurro, por razões que irei retratar no próximo artigo. Porém, a decisão foi difícil pelo que tais Memórias Póstumas representariam, no cenário pátrio oitocentista, divisor de águas merecedor de um bronze prateado. O quarto colocado foi Macunaíma, de Mário de Andrade, por sua magnífica releitura das contradições congênitas de uma desvairada nação sem caráter a clamar por macumba e ritos antropófagos. Em quinto lugar ficou Triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto, seguido de muito perto por Viva o povo brasileiro, de João Ubaldo Ribeiro. Neste caso, a justificativa plausível é que ambos os discursos se pautam por implícitos acenos dialógicos com o passado histórico ilustrado pelo antológico refrão de Oswald de Andrade: Tupy or not tupy – that is the question. Aliás, ratifiquei que Memórias sentimentais de João Miramar fora preterido por questões estéticas apesar do ideário vanguardista. 

A sétima colocação foi ocupada por Crônica da casa assassinada, de Lúcio Cardoso, esplendorosa interpretação da alma humana por ferramentas de análise e introspecção, em consonância com a laboração de um estilo fragmentado quiçá a bordar o discurso da pós-modernidade. A obra-prima Fogo morto, de José Lins do Rego, fora escolhida para figurar no oitavo lugar por esboçar um retrato quase que proustiano da herança colonial através da decadência dos engenhos de cana-de-açúcar povoado pelo capitão Vitorino Carneiro da Cunha. O romance A hora da estrela, de Clarice Lispector, abocanhou o nono lugar por sua investida na bifurcação de uma tessitura que se ancora na magnífica verossimilhança do esboço de sua Macabéa.

Para o décimo lugar foi indicado Vidas secas, de Graciliano Ramos, cujas peregrinações dos imigrantes capitaneadas por Fabiano ultrapassam a fronteira da denúncia social. A décima primeira vaga foi ocupada por O cortiço, de Aluísio Azevedo, organicidade social arquitetada pela visão determinista por sobre a saga de João Romão, Bertoleza e Rita Baiana. No décimo segundo posto, Iracema, de José de Alencar, pode servir de parâmetro para se investigar parte do percurso da prosa de ficção, por seu mérito de originalidade forjada pelo projeto de nacionalidade romântico. Para a décima terceira posição optei por Dona flor e seus dois maridos, de Jorge Amado, pela força de imaginação criadora.

Apesar dos protestos de injustiça com uma ou outra obra mal avaliada, para acalmar os ânimos se estabeleceu que cada qual compusesse a sua lista particular, a fim de que, por média, definíssemos o ranking com um mínimo de coerência selada com mais um brinde ao autor brasileiro. Enfim, ao Leitor peço que se sinta convidado ao duelo que o título sugere sobre o destino dos treze livros e publique neste espaço a sua seleção literária. 

* Wander Lourenço de Oliveira, doutor em letras, é professor da Universidade Estácio e autor dos livros ‘Com licença, senhoritas (A prostituição no romance brasileiro do século 19)’ e ‘O enigma Diadorim’. wanderlourenco.

Extraído do sítio do Jornal do Brasil

14 de janeiro de 2012

NENHUM BRASIL EXISTE E MINAS NÃO HÁ MAIS - Marcelo Franco

A arte contemporânea é esse grande pós-nada e, ainda assim, é best seller nas livrarias, lota cinemas e é vendida a preços estratosféricos nas galerias. Nosso tempo é o de vanglória por causa de textos de 140 caracteres.

Dos meus vícios (há tantos!), talvez o menos condenável seja a leitura de cartas. Pois estou com sorte para cultivar minhas manias: a Companhia das Letras acaba de publicar “O Rio É Tão Longe”, coletânea de cartas de Otto Lara Resende para Fernando Sabino (e também relançou “Bom Dia Para Nascer”, agora com 74 crônicas a mais do que na primeira edição). As cartas de Otto podem ser lidas em conjunto com as cartas do próprio Fernando, publicadas pela Record em 2002 (“Cartas na Mesa”). É o que venho fazendo e o que me motivou a pensar nos velhos escritores mineiros — dos quais também há tantos.

(Parênteses imediatos para uma das minhas costumeiras digressões: sou não apenas leitor, mas também escritor constante de cartas. Desde que conheci R., há quase seis anos, enchi-a de cartas. Ah, a propósito e sem propósito: por conta dos meus textos anteriores aqui na “Bula”, recebi várias mensagens nas quais os leitores perguntam quem seria R. Respondo: R. é alfa e ômega.)

Otto, prolífico no que escrevia aos amigos, dizia-se “o último cidadão que ainda se dedica a este gênero obsoleto que é o epistolar”. Já Fernando Sabino, com apenas 22 anos, lamentava a passagem do tempo: “Sim, é verdade que um tempo nosso se encerrou. Somos homens, não somos mais meninos do Trianon, meninos do Viaduto, dos porres, das placas de rua, de cadeados, até mesmo de vitrines de chapelaria. No fundo, se a gente pensar bem, triste tentativa de sentir de novo um tempo que passou, nada mais” (Otto, Fernando e seus amigos trocavam placas de identificação de casas e cadeados de portões). E os dois fofocavam, contavam histórias, lamentavam, riam, choravam, amavam e odiavam nas cartas — essa facúndia escrita lança dúvidas sobre o alegado comedimento mineiro. Sobretudo, eles, tomados de irresistível “cacoethes scribendi” desde a infância, comentavam livros, e é essa compulsão literária que me espanta nos mineiros de então. Por isso, busco-os nas coletâneas de cartas, romances e livros de memórias que deixaram.

Fernando Sabino e Otto Lara Resende faziam parte, por assim dizer, da segunda geração de modernistas mineiros. Antes deles, houve os amigos que frequentavam o Café Estrela e o Bar do Ponto em Belo Horizonte (“solo sagrado”, segundo Pedro Nava), de onde escrutinavam as senhoras, procuravam os cadáveres nos armários dos santarrões da Tradicional Família Mineira e atacavam os passadistas: Drummond, Emílio Moura, Pedro Nava, Milton Campos, Gabriel Passos, Abgar Renault, Gustavo Capanema, João Alphonsus e outros, além dos menos assíduos, como Cyro dos Anjos e Afonso Arinos. De lá saíram as fantásticas memórias de Pedro Nava, a poesia universal de Drummond, a política sensata e honesta de Milton Campos e Afonso Arinos. (Milton Campos, como governador, lamentava não poder falar mal do seu próprio governo — uma arte mineira —, mas permitia que os seus correligionários o fizessem; sem dúvida, um sábio homem. E Cyro dos Anjos, com certeza lembrando-se das farras com os amigos, criou um dos mais famosos inícios de livro da literatura brasileira em “O Amanuense Belmiro”: “Ali pelo oitavo chope, chegamos à conclusão de que todos os problemas eram insolúveis”.)

No “Diário de Minas”, órgão oficial do Partido Republicano Mineiro, vigiados de perto pelo Palácio da Liberdade, eles conseguiam publicar o seu modernismo incipiente. Vale dizer: assim como os aristocráticos barões do café financiaram o modernismo paulista, a elite política mineira ajudou os seus jovens estetas revolucionários — talvez seja preciso um Freud para entender isso. Drummond, muitos anos mais tarde, perguntaria em versos a Emílio Moura (“Poeta Emílio”):

(...)

O Diário de Minas, lembras-te, poeta?
Duas páginas de Brilhantina Meu Coração e Elixir Nogueira,
uma página de: Viva o Governo,
outra — doidinha — de modernismo,
tua cegonha figura escrevendo o cabeço dos “Sociais”,
nós todos na esperança de um vale do Bola — o Eduardinho [gerente...

(...)

(Também no “Diário”, Drummond, redigindo uma notícia sobre um tiroteio iniciado por políticos do governo, aprenderia uma lição de mineiridade: em vez de publicar “O tiroteio em Montes Claros...”, como escrevera, foi aconselhado a corrigir o texto para “Os acontecimentos de Montes Claros...”.)

Esse pessoal publicou “A Revista”, uma tentativa, talvez a primeira, de levar de modo organizado o modernismo a Minas. A “Metal Leve”, dirigida pelo nunca suficientemente louvado José Mindlin, publicou, em 1978, uma edição fac-similar dos seus três números. Nela, pode-se ler no editorial-programa do primeiro número: “Não somos românticos; somos jovens”. Bem, não foram todos que ficaram impressionados com essa juventude. Eduardo Frieiro, por exemplo, em artigo no jornal “Avante”, chamou Drummond de “aquele mocinho esgrouviado, que tem cara de infusório”, atacando-o maldosamente: “Mais da metade da revista escorreu-lhe da pena. Espremeu o cérebro. Espremeu mesmo tudo o que em fermentação lhe escaldava o caco, e que não era muito, apenas a borra das últimas, apressadas leituras de revistas francesas. Agora está aliviado. E os leitores também”. Frieiro, famoso por suas farpas, também chamou os modernistas de Belo Horizonte de “caboclos bovarizados”. A briga deve ter sido boa nos bares, cafés e redações.

Em 1924, os jovens mineiros receberam o apoio de Mário e Oswald de Andrade, que foram conhecê-los liderando a famosa “caravana paulista”, visita que se tornou uma espécie de Semana de Arte Moderna de BH. Mário, a partir daí, iniciaria uma troca de cartas com eles, fundamental para a formação de todo o grupo. E dessa visita também nasceu o longo “Noturno de Belo Horizonte”, no qual o poeta, apesar do incentivo, é um tanto irônico sobre a aventura modernista de Minas:

(...)

Que luta pavorosa entre florestas e casas...
Todas as idades humanas
Macaqueadas por arquiteturas históricas
Torres torreões torrinhas e tolices
Brigam em nome da?
Os mineiros secundam em coro:
— Em nome da civilização!
Minas progride.

(...)

Na Fazenda do Barreiro recebem opulentamente.
Os pratos nativos são índices de nacionalidade.
Mas no Grande Hotel de Belo Horizonte servem à francesa.
Et bien! Je vous demande un toutou!
Venha a batata-doce e o torresmo fondant!

(...)

Pedro Nava, autor da mais surpreendente obra em prosa brasileira depois de “Grande Sertão: Veredas”, deixou-nos vários retratos dos seus amigos e da própria cidade nos seis volumes de suas memórias. Por exemplo, em “Beira-mar”, Nava rememora, com sua escrita inventiva, a sua vida em BH:

“Eu conheci esse pedaço do belo belo Belorizonte, nele padeci, esperei, amei, tive dores-de-corno augustas, discuti e neguei. Conhecia todo mundo. Cada pedra das calçadas, cada tijolo das sarjetas, seus bueiros, os postes, as árvores. Distinguia seus odores e suas cores de todas as horas. Seu sol, sua chuva, seus calores e seu frio. Ali vivi de meus dezessete aos meu vinte e quatro anos. Vinte anos nos anos Vinte. Sete anos que valeram pelos que tinha vivido antes e que viveria depois. Hoje, aqueles sete anos, eles só, existem na minha lembrança. Mas existem como sete ferretes e doendo sete vezes sete quarenta e nove vezes sete trezentos e quarenta e três ferros pungindo em brasa.”

(Outra digressão. Também em “Beira-mar”, Nava, meu companheiro de armas, conta sua desilusão amorosa com certa moça de nome Leopoldina: “Eu vivia um ‘puzzle’. Quando pensava tê-lo composto faltava-me o essencial e ela, Leopoldina, se esfarelava em negativas nos mil e noventa e cinco dias que sualma habitou a minha e a envultou”. É isso aí, seu Nava. Mas deixo essa história para outro texto.)

Depois vieram Fernando Sabino, Hélio Pellegrino (“socialista histórico, eventualmente histérico”), Otto Lara Resende e Paulo Mendes Campos, que “puxavam angústia” nos bancos da Praça da Liberdade e imitavam Drummond subindo nos altos do viaduto de Santa Tereza. Sabino, em “O Encontro Marcado”, é outro que conta a boemia literária sua e dos amigos:

“Frequentavam a missa aos domingos, mas afirmavam, em seus artigos, que não se dobravam ante o clero reacionário (...). Liam Bernanos, Mauriac, Maritain — não chegavam até Santo Tomás, mas se diziam neotomistas. O que uma vez ou outra despejavam no confessionário na manhã de domingo, tornavam a fazer na noite de segunda-feira. Por exemplo: beber chope no bar até saírem bêbados, praticando desmandos pela rua. Pecado por intemperança.”

Pelas ruas de BH, os personagens do romance (ligeiramente à clef) de Sabino recitam versos (a geração seguinte, aliás, também teria o seu romance à clef de formação, “Um Artista Aprendiz”, de Autran Dourado):

“Não ligavam: eram superiores. Juntos, faziam suas descobertas literárias. Que literatura proletária! Verlaine, isso sim; Rimbaud e Valéry. Juntos choraram Baudelaire. Neruda, García Lorca, Fernando Pessoa, soltos pelas ruas:

— Sucede que me canso de ser hombre!
— La luz del entendimiento me hace ser muy comedido.
— O teu silêncio é uma nau com todas as velas pandas...”

E puxam angústia:

“Nada mais a fazer — a cidade dormia e a noite avançava. Cansados, deixaram-se ficar num dos bancos da praça:

— Chegou a hora de puxar angústia.
Puxar angústia era abordar um tema habitual, como el sentimiento trágico de la vida, la recherche du temps perdu, to be or not to be.”

(Lendo esse trecho, só podemos lamentar que a angústia que puxamos nos dias atuais seja curada com psicofármacos e não com livros: livro é elixir paregórico da alma.)

Também da turma de Fernando e Otto, Paulo Mendes Campos (os três e Hélio Pellegrino diziam-se “os quatro cavaleiros de um íntimo apocalipse”), que puxou angústia durante toda a sua vida, lamentou, num belíssimo poema, a perda da adolescência belo-horizontina (“Fragmentos em Prosa”):

(...)

Vem de longe, dos tempos de ginásio, o meu gosto pelo álcool.
Vem de mais longe talvez, de regiões oprimidas da infância,
De um ancestral incompetente, de uma horda de heranças infelizes,
Uma vontade de falar, de cuspir.

Folha morta, déçà, délà, fui arrastado pelas ruas
Na tranquilidade fresca da madrugada de Minas.
Havia um poder suicida em cada coisa:
O vento era uma coisa forte e me estremecia,
O azul era uma coisa forte e me estremecia,
A mulher era uma coisa forte e me estremecia,
A aurora, a tarde arrastando-se no quintal,
Tudo me estremecia e me empurrava para a vida e para a morte.
Em meus versos havia uma força louca de poesia,
Nos pensamentos meus e alheios radiavam deuses violentos,
Em todos os meus gestos, uma grandeza pensada e magnífica.

Ó confusa adolescência! já não entendo teu clamor,
Tuas vigílias, tuas angústias, as armas de teu combate.
Meu rosto está sereno quando penso em ti
Mas bem no íntimo tenho uma vontade de unhar-me,
De esbofetear-me, de morrer. Morreu contigo
O sol denso da tragédia. Morreu contigo
O pássaro rubro amigo de meu ombro. Morreu contigo
Uma palpitação, um frêmito constante. Morreu contigo
Meu inconformismo cruel, minha dignidade na desgraça. Contigo
A parte de mim mais infeliz e fiel.

Meu namoro com a paisagem mineira e minha conversa com os seus escritores vêm de longe. Eu era criança e, antes mesmo de me dar conta de quem seria Drummond, coloquei Pedro Nava no meu panteão de heróis. Via meus pais lendo seus livros e acompanhando as notícias sobre Nava no suplemento “Cultura” do “Estadão”. Sabia, por causa de comentários entreouvidos e antes de ter a capacidade de lê-lo, de seu fascínio, ou mesmo obsessão, pela morte e pela sexualidade. Lia trechos dos seus livros, colocados como totens nas estantes da velha casa de minha família no Setor Sul e, do pouco que entendia, ficava mesmerizado. Dos escritores de Minas, posso dizer que os conheço e amo desde sempre. Hoje sou Promotor de Justiça, lido com crimes e agressões ao meio ambiente, mas há em mim uma pulsão não realizada: cresci querendo ser um escritor mineiro.

Curiosamente, a mineirada acabou cumprindo as profecias feitas por Vinícius de Moraes na sua “Carta Contra os Escritores Mineiros”, de 1944. Nela, Vinícius, por achá-los enclausurados no interior e isolados entre montanhas, conclamava: “Precisais de água, a água do mar”. Assim, como o mundo vivia mudando sem o seu consentimento e era preciso fugir do isolamento, quase todos foram para o Rio — mas levaram Minas na alma (e onde, no início dos anos 80, Otto, perguntado se voltaria a Minas durante uma campanha informal de repatriamento coletivo, respondeu com outra lição de mineiridade: “Meu filho, eu não mereço”).

Tudo isso que foi vivido por eles está nas cartas de Otto Lara Resende e Fernando Sabino e também no fantástico livrinho de Humberto Werneck, “O Desatino da Rapaziada: Jornalistas e Escritores em Minas Gerais” (Companhia das Letras, 1992). Lendo-os, esses livros trouxeram-me aquela BH boêmia e literária e, sadicamente, comparei-a com a minha Goiânia atual e constatei o que outros já perceberam: gastamo-nos diariamente em atividades sem importância, em conversas fúteis no Facebook e coisas do tipo. Fundamentalmente, somos seres cada vez mais passivos (melhor dizendo, não somos na essência da palavra, ou ao menos eu não sou: há em mim um amor que não se cumpriu, um filho que não tive com a mulher que amei, uma profissão que se paralisou por tédio e esgotamento, um livro que minha dispersão me impede de escrever). E como ficamos aqui a reclamar e nunca agimos, transformamo-nos todos em ranzinzas e burocratas da vida cotidiana (se chorar épocas passadas é vício de velho, então sou velho e revelho de muitos anos).

As facilidades da vida moderna (e, contraditoriamente, também as suas agruras) parecem ter tornado a pacata vida burguesa uma paisagem permanente. Se não há mais jovens como os escritores mineiros, não haverá quem queira, como eles — é Nava quem conta —, “a deposição do presidente do Estado, o encarceramento dos seus secretários, um esbordoamento de deputados e uma matança de delegados”. Já a arte contemporânea, em tudo oposição ao que faziam os mineiros, é esse grande pós-nada e, ainda assim, é best seller nas livrarias, lota cinemas e é vendida a preços estratosféricos nas galerias. Nosso tempo é o de vanglória por causa de textos de 140 caracteres.

É com nostalgia, portanto, que leio as cartas dos mineiros. Mas sei que, como o Totônio Rodrigues e a Tomásia do poema de Manuel Bandeira, estão todos mortos: Drummond, Nava, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Otto Lara Resende, todos eles. Com as cartas de Otto Lara Resende, penso naquele Brasil que dava importância a pessoas como eles, naquela época em que a literatura — uma religião, um compromisso para toda a vida, um ritual que se cumpria — era o sinal distintivo da erudição, em que as pessoas cultas tinham os livros e não só o cinema como referência cultural, e lamento o seu desaparecimento (nada contra o cinema, apenas não entendo que ele possa ser a única base cultural de alguém). Esse Brasil, nós o perdemos: ele está dormindo profundamente.

Sim, Drummond: Minas não há mais. E nenhum Brasil existe.

Extraído do sítio da Revista Bula

21 de dezembro de 2011

O PERU DE NATAL - Mário de Andrade


Retrato de Mário de Andrade, por Lasar Segall (1891-1957)

Retrato de Mário de Andrade,
por Lasar Segall (1891-1957)
O nosso primeiro Natal de família, depois da morte de meu pai acontecida cinco meses antes, foi de conseqüências decisivas para a felicidade familiar. Nós sempre fôramos familiarmente felizes, nesse sentido muito abstrato da felicidade: gente honesta, sem crimes, lar sem brigas internas nem graves dificuldades econômicas. Mas, devido principalmente à natureza cinzenta de meu pai, ser desprovido de qualquer lirismo, de uma exemplaridade incapaz, acolchoado no medíocre, sempre nos faltara aquele aproveitamento da vida, aquele gosto pelas felicidades materiais, um vinho bom, uma estação de águas, aquisição de geladeira, coisas assim. Meu pai fora de um bom errado, quase dramático, o puro-sangue dos desmancha-prazeres.

Morreu meu pai, sentimos muito, etc. Quando chegamos nas proximidades do Natal, eu já estava que não podia mais pra afastar aquela memória obstruente do morto, que parecia ter sistematizado pra sempre a obrigação de uma lembrança dolorosa em cada almoço, em cada gesto mínimo da família. Uma vez que eu sugerira à mamãe a idéia dela ir ver uma fita no cinema, o que resultou foram lágrimas. Onde se viu ir ao cinema, de luto pesado! A dor já estava sendo cultivada pelas aparências, e eu, que sempre gostara apenas regularmente de meu pai, mais por instinto de filho que por espontaneidade de amor, me via a ponto de aborrecer o bom do morto.

Foi decerto por isto que me nasceu, esta sim, espontaneamente, a idéia de fazer uma das minhas chamadas "loucuras". Essa fora aliás, e desde muito cedo, a minha esplêndida conquista contra o ambiente familiar. Desde cedinho, desde os tempos de ginásio, em que arranjava regularmente uma reprovação todos os anos; desde o beijo às escondidas, numa prima, aos dez anos, descoberto por Tia Velha, uma detestável de tia; e principalmente desde as lições que dei ou recebi, não sei, de uma criada de parentes: eu consegui no reformatório do lar e na vasta parentagem, a fama conciliatória de "louco". "É doido, coitado!" falavam. Meus pais falavam com certa tristeza condescendente, o resto da parentagem buscando exemplo para os filhos e provavelmente com aquele prazer dos que se convencem de alguma superioridade. Não tinham doidos entre os filhos. Pois foi o que me salvou, essa fama. Fiz tudo o que a vida me apresentou e o meu ser exigia para se realizar com integridade. E me deixaram fazer tudo, porque eu era doido, coitado. Resultou disso uma existência sem complexos, de que não posso me queixar um nada.

Era costume sempre, na família, a ceia de Natal. Ceia reles, já se imagina: ceia tipo meu pai, castanhas, figos, passas, depois da Missa do Galo. Empanturrados de amêndoas e nozes (quanto discutimos os três manos por causa dos quebra-nozes...), empanturrados de castanhas e monotonias, a gente se abraçava e ia pra cama. Foi lembrando isso que arrebentei com uma das minhas "loucuras":

- Bom, no Natal, quero comer peru.

Houve um desses espantos que ninguém não imagina. Logo minha tia solteirona e santa, que morava conosco, advertiu que não podíamos convidar ninguém por causa do luto.

- Mas quem falou de convidar ninguém! essa mania... Quando é que a gente já comeu peru em nossa vida! Peru aqui em casa é prato de festa, vem toda essa parentada do diabo...

- Meu filho, não fale assim...

- Pois falo, pronto!

E descarreguei minha gelada indiferença pela nossa parentagem infinita, diz-que vinda de bandeirantes, que bem me importa! Era mesmo o momento pra desenvolver minha teoria de doido, coitado, não perdi a ocasião. Me deu de sopetão uma ternura imensa por mamãe e titia, minhas duas mães, três com minha irmã, as três mães que sempre me divinizaram a vida. Era sempre aquilo: vinha aniversário de alguém e só então faziam peru naquela casa. Peru era prato de festa: uma imundície de parentes já preparados pela tradição, invadiam a casa por causa do peru, das empadinhas e dos doces. Minhas três mães, três dias antes já não sabiam da vida senão trabalhar, trabalhar no preparo de doces e frios finíssimos de bem feitos, a parentagem devorava tudo e ainda levava embrulhinhos pros que não tinham podido vir. As minhas três mães mal podiam de exaustas. Do peru, só no enterro dos ossos, no dia seguinte, é que mamãe com titia ainda provavam num naco de perna, vago, escuro, perdido no arroz alvo. E isso mesmo era mamãe quem servia, catava tudo pro velho e pros filhos. Na verdade ninguém sabia de fato o que era peru em nossa casa, peru resto de festa.

Não, não se convidava ninguém, era um peru pra nós, cinco pessoas. E havia de ser com duas farofas, a gorda com os miúdos, e a seca, douradinha, com bastante manteiga. Queria o papo recheado só com a farofa gorda, em que havíamos de ajuntar ameixa preta, nozes e um cálice de xerez, como aprendera na casa da Rose, muito minha companheira. Está claro que omiti onde aprendera a receita, mas todos desconfiaram. E ficaram logo naquele ar de incenso assoprado, se não seria tentação do Dianho aproveitar receita tão gostosa. E cerveja bem gelada, eu garantia quase gritando. É certo que com meus "gostos", já bastante afinados fora do lar, pensei primeiro num vinho bom, completamente francês. Mas a ternura por mamãe venceu o doido, mamãe adorava cerveja.

Quando acabei meus projetos, notei bem, todos estavam felicíssimos, num desejo danado de fazer aquela loucura em que eu estourara. Bem que sabiam, era loucura sim, mas todos se faziam imaginar que eu sozinho é que estava desejando muito aquilo e havia jeito fácil de empurrarem pra cima de mim a... culpa de seus desejos enormes. Sorriam se entreolhando, tímidos como pombas desgarradas, até que minha irmã resolveu o consentimento geral:

- É louco mesmo!...

Comprou-se o peru, fez-se o peru, etc. E depois de uma Missa do Galo bem mal rezada, se deu o nosso mais maravilhoso Natal. Fora engraçado:assim que me lembrara de que finalmente ia fazer mamãe comer peru, não fizera outra coisa aqueles dias que pensar nela, sentir ternura por ela, amar minha velhinha adorada. E meus manos também, estavam no mesmo ritmo violento de amor, todos dominados pela felicidade nova que o peru vinha imprimindo na família. De modo que, ainda disfarçando as coisas, deixei muito sossegado que mamãe cortasse todo o peito do peru. Um momento aliás, ela parou, feito fatias um dos lados do peito da ave, não resistindo àquelas leis de economia que sempre a tinham entorpecido numa quase pobreza sem razão.

- Não senhora, corte inteiro! Só eu como tudo isso!

Era mentira. O amor familiar estava por tal forma incandescente em mim, que até era capaz de comer pouco, só-pra que os outros quatro comessem demais. E o diapasão dos outros era o mesmo. Aquele peru comido a sós, redescobria em cada um o que a quotidianidade abafara por completo, amor, paixão de mãe, paixão de filhos. Deus me perdoe mas estou pensando em Jesus... Naquela casa de burgueses bem modestos, estava se realizando um milagre digno do Natal de um Deus. O peito do peru ficou inteiramente reduzido a fatias amplas.

- Eu que sirvo!

"É louco, mesmo" pois por que havia de servir, se sempre mamãe servira naquela casa! Entre risos, os grandes pratos cheios foram passados pra mim e principiei uma distribuição heróica, enquanto mandava meu mano servir a cerveja. Tomei conta logo de um pedaço admirável da "casca", cheio de gordura e pus no prato. E depois vastas fatias brancas. A voz severizada de mamãe cortou o espaço angustiado com que todos aspiravam pela sua parte no peru:

- Se lembre de seus manos, Juca!

Quando que ela havia de imaginar, a pobre! que aquele era o prato dela, da Mãe, da minha amiga maltratada, que sabia da Rose, que sabia meus crimes, a que eu só lembrava de comunicar o que fazia sofrer! O prato ficou sublime.

- Mamãe, este é o da senhora! Não! não passe não!

Foi quando ela não pode mais com tanta comoção e principiou chorando. Minha tia também, logo percebendo que o novo prato sublime seria o dela, entrou no refrão das lágrimas. E minha irmã, que jamais viu lágrima sem abrir a torneirinha também, se esparramou no choro. Então principiei dizendo muitos desaforos pra não chorar também, tinha dezenove anos... Diabo de família besta que via peru e chorava! coisas assim. Todos se esforçavam por sorrir, mas agora é que a alegria se tornara impossível. É que o pranto evocara por associação a imagem indesejável de meu pai morto. Meu pai, com sua figura cinzenta, vinha pra sempre estragar nosso Natal, fiquei danado.

Bom, principiou-se a comer em silêncio, lutuosos, e o peru estava perfeito. A carne mansa, de um tecido muito tênue boiava fagueira entre os sabores das farofas e do presunto, de vez em quando ferida, inquietada e redesejada, pela intervenção mais violenta da ameixa preta e o estorvo petulante dos pedacinhos de noz. Mas papai sentado ali, gigantesco, incompleto, uma censura, uma chaga, uma incapacidade. E o peru, estava tão gostoso, mamãe por fim sabendo que peru era manjar mesmo digno do Jesusinho nascido.

Principiou uma luta baixa entre o peru e o vulto de papai. Imaginei que gabar o peru era fortalecê-lo na luta, e, está claro, eu tomara decididamente o partido do peru. Mas os defuntos têm meios visguentos, muito hipócritas de vencer: nem bem gabei o peru que a imagem de papai cresceu vitoriosa, insuportavelmente obstruidora.

- Só falta seu pai...

Eu nem comia, nem podia mais gostar daquele peru perfeito, tanto que me interessava aquela luta entre os dois mortos. Cheguei a odiar papai. E nem sei que inspiração genial, de repente me tornou hipócrita e político. Naquele instante que hoje me parece decisivo da nossa família, tomei aparentemente o partido de meu pai. Fingi, triste:

- É mesmo... Mas papai, que queria tanto bem a gente, que morreu de tanto trabalhar pra nós, papai lá no céu há de estar contente... (hesitei, mas resolvi não mencionar mais o peru) contente de ver nós todos reunidos em família.

E todos principiaram muito calmos, falando de papai. A imagem dele foi diminuindo, diminuindo e virou uma estrelinha brilhante do céu. Agora todos comiam o peru com sensualidade, porque papai fora muito bom, sempre se sacrificara tanto por nós, fora um santo que "vocês, meus filhos, nunca poderão pagar o que devem a seu pai", um santo. Papai virara santo, uma contemplação agradável, uma inestorvável estrelinha do céu. Não prejudicava mais ninguém, puro objeto de contemplação suave. O único morto ali era o peru, dominador, completamente vitorioso.

Minha mãe, minha tia, nós, todos alagados de felicidade. Ia escrever «felicidade gustativa», mas não era só isso não. Era uma felicidade maiúscula, um amor de todos, um esquecimento de outros parentescos distraidores do grande amor familiar. E foi, sei que foi aquele primeiro peru comido no recesso da família, o início de um amor novo, reacomodado, mais completo, mais rico e inventivo, mais complacente e cuidadoso de si. Nasceu de então uma felicidade familiar pra nós que, não sou exclusivista, alguns a terão assim grande, porém mais intensa que a nossa me é impossível conceber.

Mamãe comeu tanto peru que um momento imaginei, aquilo podia lhe fazer mal. Mas logo pensei: ah, que faça! mesmo que ela morra, mas pelo menos que uma vez na vida coma peru de verdade!

A tamanha falta de egoísmo me transportara o nosso infinito amor... Depois vieram umas uvas leves e uns doces, que lá na minha terra levam o nome de "bem-casados". Mas nem mesmo este nome perigoso se associou à lembrança de meu pai, que o peru já convertera em dignidade, em coisa certa, em culto puro de contemplação.

Levantamos. Eram quase duas horas, todos alegres, bambeados por duas garrafas de cerveja. Todos iam deitar, dormir ou mexer na cama, pouco importa, porque é bom uma insônia feliz. O diabo é que a Rose, católica antes de ser Rose, prometera me esperar com uma champanha. Pra poder sair, menti, falei que ia a uma festa de amigo, beijei mamãe e pisquei pra ela, modo de contar onde é que ia e fazê-la sofrer seu bocado. As outras duas mulheres beijei sem piscar. E agora, Rose!...

Mário de Andrade (1893-1945) nasceu em São Paulo, mostrando desde cedo inclinação pela música e pela literatura. Seu interesse pelas artes levou-o a realizar em São Paulo, em parceria com Oswald de Andrade, a Semana de Arte Moderna, que rasgou novas perspectivas para a cultura brasileira. Sua obra, essencialmente brasileira, reflete um nacionalismo humanista, que nada tem de místico e abstrato. "Macunaíma", baseada em temas folclóricos é, geralmente, considerada a sua obra-prima.

[O texto acima foi extraído do livro "Nós e o Natal", Artes Gráficas Gomes de Souza, Rio de Janeiro, 1964, pág. 23.]

Extraído de: Sítio Releituras.com