27 de fevereiro de 2012

'MASSA CRÍTICA NÃO SURGIU PARA PROTESTAR', APONTA O IDEALIZADOR DO GRUPO - Jessica Gustafson


Chris Carlsson acredita na necessidade de uma remodelação das cidades - Foto: Antonio Paz/JC
Teve início nesta quinta-feira o Fórum Mundial da Bicicleta na Usina do Gasômetro, em Porto Alegre. O evento acontece um ano depois do atropelamento coletivo de um grupo de ciclistas na Cidade Baixa. As atividades, que contam com oficinas e passeios, vão até domingo. O norte-americano Chris Carlsson, um dos idealizadores do grupo Massa Crítica, que começou a atuar em 1992, em San Francisco, ministrará dois painéis. Em entrevista ao Jornal do Comércio, Carlsson conta como o movimento foi criado e qual a motivação que leva os ciclistas a se reunir. Ele também comenta o acidente com os ciclistas na Capital. 

Jornal do Comércio - Como foi o surgimento do Massa Crítica?

Chris Carlsson - Nesta época muitas pessoas começaram a andar de bicicleta em razão dos movimentos contra os carros e contra a poluição. No início era um movimento ecológico em San Francisco. Após algumas conversas, o grupo pensou que isso poderia ser um estilo de vida; para mostrar para as pessoas que a bicicleta pode fazer as mesmas coisas que um carro. Neste momento, as pessoas começaram a se reunir no meu escritório, para beber cerveja e conversar sobre política e estilo de vida. Muitos vinham de bicicleta e decidiram voltar para casa juntos. Nesta ida para casa, como tinha bastante gente, chegaram a trancar as ruas. Ainda não existia um nome para o grupo. A partir daí esse movimento começou a acontecer mensalmente, e se deu o nome de Massa Crítica. 

JC - Como era a receptividade que as pessoas tinham com o Massa Crítica no seu surgimento e como é hoje? 

Carlsson - No início, as pessoas achavam muito diferente. Alguns se perguntavam: “o que esses caras estão fazendo?” Mas hoje, nos Estados Unidos, a receptividade depende muito de um local para o outro. Cerca de 60% a 80% das pessoas que estão ao redor quando o grupo passa comemoram e apoiam o uso das bicicletas. Existe um número muito pequeno, eu diria uns 5%, que fica muito zangado, porque não entende o movimento e também nos considera uns desempregados e que deveríamos estar fazendo outras coisas. Mas a aceitação está crescendo.

JC - No Brasil o movimento é bem recente. Como é possível fazer essa motivação durar, como acontece nos EUA nestes 20 anos?

Carlsson - O principal é ter prazer no que se está fazendo. Aproveitar que está andando de bicicleta e chamar os amigos. Não se pode pensar que o movimento é feito para protestar, mas sim trazer as pessoas para se conhecerem, para realizar uma atividade que te proporcione prazer. Hoje o que se vê muito é a falta de comunicação, você não conhece o seu vizinho e as pessoas em geral. Esse pode ser o espaço para essa conversa. Quando a gente vê que mais pessoas estão aderindo, é mais uma etapa que está se vencendo. 

JC - Quais mudanças uma cidade precisaria fazer para que as pessoas passassem a utilizar cada vez mais a bicicleta como meio de transporte? 

Carlsson - Reconstruí-la. Hoje em dia, boa parte das cidades tem as ruas projetadas para a utilização de carros. O ideal seria ter uma boa parte das faixas voltadas para pedestre e outra para quem anda de bicicleta, que é um meio mais saudável e mais correto. Também uma pequena parte para os carros e tentar reduzir ao máximo os espaços para o estacionamento de automóveis. Isso forçaria as pessoas a ir a pé, ou de bicicleta, ou outro meio que não fossem os carros. Em cidades em que existe um planejamento, as pessoas passaram a fazer mais uso da bicicleta. 

JC - Qual a sua reação quando soube do atropelamento dos ciclistas, integrantes do Massa Crítica, que aconteceu há um ano em Porto Alegre? Existiram outros casos semelhantes nos países onde o movimento acontece?

Carlsson - Eu achei surreal. O pessoal que participa do Massa Crítica em diversos países, como o Peru, a Colômbia, os Estados Unidos, teve conhecimento. Foram trocados muitos e-mails e artigos foram publicados em blogs. Foram feitos cartazes como forma de protesto contra o atropelamento. Houve muita discussão sobre o fato, porque nunca havia acontecido uma coisa semelhante nesses 20 anos. Acontecem pequenos acidentes no mundo com os integrantes do grupo, muitas vezes ocasionados por policiais, que em alguns locais são muito repressivos. Entretanto, em vez de diminuir a atuação do movimento, eles fortalecem. Esse acidente de Porto Alegre foi o pior que já aconteceu com o Massa Crítica.



Evento promove passeios ciclísticos

No final da tarde desta quinta-feira, o Fórum Mundial da Bicicleta promoveu um passeio com cerca de 150 ciclistas, com o objetivo de fazer as pessoas conhecerem a cidade utilizando bicicletas. O grupo, que saiu da Usina do Gasômetro, passou por alguns pontos históricos do Centro, como o Cais Mauá, o Parque da Redenção e o Mercado Público.

Nesta sexta, o evento contará com diversas oficinas e painéis, como Bicicletas em Pauta - Mobilidade e Cicloativismo nos Grandes Meios de Comunicação; Porto Alegre e a Bicicleta – Problemas e Soluções; e Nowtopia: A Utopia do Agora – Como Programadores Piratas, Ciclistas Fora-da-lei e Jardineiros de Terrenos Baldios Estão Inventando o Futuro hoje!, com Chris Carlsson, no Parque da Redenção. Todas as atividades são gratuitas e não há necessidade de inscrição. 

Ainda nesta sexta, o Massa Crítica realiza, às 18h30min, a sua pedalada mensal. No sábado, o fórum irá promover outro passeio pela cidade, desta vez ao Morro do Osso, na zona Sul. O grupo sairá às 8h. 
Mais informações no site http://forummundialdabici.com.


Massa Crítica Porto Alegre 24/02/12 - Fórum Mundial da Bicicleta

Reportagem extraída do sítio do Jornal do Comércio 

APÓS 16 ANOS DE SUA MORTE, CAIO FERNANDO ABREU GANHA PÁGINA

“Depois de todas as tempestades e naufrágios, o que fica de mim em mim é cada vez mais o essencial e verdadeiro.” Esta foi a frase escolhida para a placa a ser colocada na casa onde Caio Fernando Abreu passou seus últimos dias, em Porto Alegre. A ideia, frustrada, era transformar a casa em espaço cultural, para lembrar o escritor e jornalista gaúcho, que morreu em 1996, aos 47 anos. 

Lançamento será em Brasília, com “leituras, homenagens e girassóis”
Como o local foi vendido, a escritora Andréa Beheregaray, vizinha de Caio, teve a ideia da placa e organizou uma votação em seu blog pessoal. Neste sábado (25), quando se completam 16 anos de sua morte, será erguida a “casa virtual” de Caio, com a inauguração do site oficial do escritor, que, como se dizia, fez a cabeça de grande parte da geração dos anos 1980, na longa trip entre o autoritarismo militar do período e as descobertas interiores. A sua obra mais conhecida, o livro de contos “Morangos Mofados”, completa 30 anos em 2012. 

O lançamento do site (http://www.caiofernandoabreu.com/) está marcado para as 17h em um bar de Brasília, com “leituras, homenagens e girassóis”, como diz o convite. “Girassóis eram as flores preferidas dele. É como se fosse um presente”, diz a jornalista Liana Farias, criadora da Associação Amigos do Caio Fernando Abreu (AACF), em 2010. Ela e muitos outros lançaram uma campanha pela internet para arrecadar fundos que permitisse lançar e manter o site.

A ideia é que o site reúna manuscritos originais, fotos, textos publicados em jornais e revistas, trabalhos acadêmicos e “mostras de obras” de Caio Fernando Abreu. Publicar trechos de cada um dos livros foi o acerto feito com as editoras, explica Liana, que começou a “ler o Caio” dez anos atrás e escreveu uma monografia para sua conclusão do curso de Jornalismo sobre a abordagem do escritor em relação à aids em suas crônicas no jornal O Estado de S. Paulo. “Não que ele tenha levantado a bandeira, mas ele quis quebrar preconceitos”, observa.

Para ela, que tinha dificuldade de achar algumas obras de Caio nas livrarias, as redes sociais ajudaram nos últimos anos a aumentar o conhecimento sobre a obra e a vida do escritor. A conta no Twitter, por exemplo, tem 100 mil seguidores. “Se ele estivesse vivo, com certeza estaria acompanhando tudo isso. Ele teve dificuldades com o computador, mas todo mundo teve na época. Ele sempre foi muito moderno, antenado”, comenta Liana, para quem Caio também poderia considerar “exageradamente repetitivo” o volume de informações que circula na rede.

Aos 20 anos, em 1968, se refugiou da ditadura no sítio da escritora Hilda Hilst, em Campinas, interior paulista. Andou pela Europa (Espanha, Suécia, Holanda, Inglaterra, França) nos anos 1970, década em que teve publicados “Inventário do Irremediável” (contos, 1970, sua primeira obra), “Limite Branco” (romance, 1971), “O Ovo Apunhalado” (contos, 1975) e “Pedras de Calcutá” (contos, 1977). Viveu em vários lugares e de várias maneiras, mas a um amigo afirmou: “O caminho é in, não off. Você não vai encontrá-lo em Deus nem na maconha, nem mudando para Nova York”. 

Sobre o escrever, sugeriu: “Zézim (José Márcio Penido), remexa na memória, na infância, nos sonhos, nas tesões, nos fracassos, nas mágoas, nos delírios mais alucinados, nas esperanças mais descabidas, na fantasia mais desgalopada, nas vontades mais homicidas, no mais aparentemente inconfessável, nas culpas mais terríveis, nos lirismos mais idiotas, na confusão mais generalizada, no fundo do poço sem fundo do inconsciente: é lá que está o seu texto”.


Extraído do sítio do Portal Vermelho

VIDA NÃO ESTÁ FÁCIL PARA NINGUÉM... - Benjamim-Béchet

Pooh Pedreiro
Minie Empregada Doméstica
Pateta Vendedor de Rua
Hulk Músico de Metrô
Branca de Neve Prostituta
Donald Vendedor de Flores
Hello Kitty Doméstica
Homem-Aranha Limpador de Vidros
Batman Frentista
Extraído do sítio de Benjamin Béchet

O CENTENÁRIO DE "CONTOS GAUCHESCOS", DE SIMÕES LOPES NETO - Milton Ribeiro

Não é à toa que Contos Gauchescos faz parte da lista de leituras obrigatórias para o vestibular da UFRGS nos últimos anos. Ele ali está na justa companhia de José Saramago (História do Cerco de Lisboa), Guimarães Rosa (Manuelzão e Miguilim) e de outros. E de outros menores, deveria dizer. Claro, a lista da UFRGS não é garantia de qualidade — por exemplo, lá não estão Erico nem Dyonélio –, mas serve como comprovação de que o pequeno volume de 19 contos narrados por Blau Nunes está bem vivo.


Contos Gauchescos (1912) é o segundo livro de João Simões Lopes Neto (1865-1916), que também escreveu Cancioneiro Guasca (1910), Lendas do Sul (1913) e Casos do Romualdo (1914). O autor viveu 51 anos e publicou apenas quatro livros. Talvez sejam muitos, se considerarmos a colorida vida do autor.

Casa onde residiu Simões Lopes
Neto em Pelotas. Hoje abriga o
 Instituto João Simões Lopes Neto
 (Rua Dom Pedro II, 810)
Simões Lopes Neto nasceu em Pelotas, na estância da Graça, filho de uma tradicional família da região, proprietária de muitas terras. Aos treze anos, foi para o Rio de Janeiro a fim de estudar no famoso Colégio Abílio. Retornando ao Rio Grande do Sul, fixou-se para sempre em Pelotas, então uma cidade rica para os padrões gaúchos. Cerca de cinquenta charqueadas formavam a base de sua economia. Porém, engana-se quem pensa que Simões andava de bombacha. Seus hábitos eram urbanos e as histórias contadas nos Contos Gauchescos eram baseadas em reminiscências, histórias de infância e, bem, a verdade ficcional as indica como de autoria de Blau Nunes, não? A epígrafe da obra deixa isto muito claro: À memória de pai. Saudade. Mas voltemos ao autor.

Sua vida em Pelotas não foi nada monótona. Abriu primeiro uma fábrica de vidro e uma destilaria. Não deram certo. Depois criou a Diabo, uma fábrica de cigarros cujo nome gerou protestos da igreja local. Seu empreendedorismo levou-o ainda a montar uma empresa para torrar e moer café e a desenvolver uma fórmula à base de tabaco para combater sarna e carrapatos. Fundou também uma mineradora. Nada deu muito certo para o sonhador e inventivo João, que foi também professor e tabelião, mas ao fim e ao cabo apenas sobreviveria como jornalista em Pelotas, conseguindo com dificuldades publicar seus livros e folhetins, assim como montar suas peças teatrais e operetas. Este faz-tudo faleceu em total pobreza.

A primeira edição de Contos Gauchescos foi publicada em 1912. Se o ano é este, a data exata da publicação parece ter sido perdida. Na primeira página do volume é feita a apresentação do vaqueano Blau Nunes, que o autor afirma ter sido seu guia numa longa viagem pelo interior do Rio Grande do Sul.

PATRÍCIO, apresento-te Blau, o vaqueano. Eu tenho cruzado o nosso Estado em caprichoso ziguezague. Já senti a ardentia das areias desoladas do litoral; já me recreei nas encantadoras ilhas da lagoa Mirim; fatiguei-me na extensão da coxilha de Santana, molhei as mãos no soberbo Uruguai, tive o estremecimento do medo nas ásperas penedias do Caverá; já colhi malmequeres nas planícies do Saicã, oscilei entre as águas grandes do Ibicuí; palmilhei os quatro ângulos da derrocada fortaleza de Santa Tecla, pousei em São Gabriel, a forja rebrilhante que tantas espadas valorosas temperou, e, arrastado no turbilhão das máquinas possantes, corri pelas paragens magníficas de Tupanciretã, o nome doce, que no lábio ingênuo dos caboclos quer dizer os campos onde repousou a mãe de Deus…

(…)

Genuíno tipo – crioulo – rio-grandense (hoje tão modificado), era Blau o guasca sadio, a um tempo leal e ingênuo, impulsivo na alegria e na temeridade, precavido, perspicaz, sóbrio e infatigável; e dotado de uma memória de rara nitidez brilhando através de imaginosa e encantadora loquacidade servida e floreada pelo vivo e pitoresco dialeto gauchesco.

(…)

Querido digno velho!
Saudoso Blau!

Patrício, escuta-o.

Capa da edição
pocket da
L&PM
Após esta apresentação — de pouco mais de duas páginas na edição pocket da L&PM — , está pronto o cenário para os 19 contos (ou “causos”) que o narrador Blau Nunes contará a seu patrício. Blau é o protagonista de algumas histórias, em outras é um assistente interessado que banha os fatos de intensa subjetividade. E aqui chegamos ao que o livro apresenta de mais original: o trabalho de linguagem de Simões Lopes Neto. Os contos são “falados”, são “causos” contados por Blau e a linguagem acaba por ser uma representação da fala popular misturada a uma inflexão erudita — certamente a de Simões — , transformando-se numa terceira forma de expressão. Numa belíssima terceira forma de expressão. Sabemos que o leitor do Sul21 já está pensando em Guimarães Rosa e tem toda a razão. Rosa confessou que seu texto tinha muito da influência de Simões. O gaúcho abriu as portas para as grandes criações do autor de Grande Sertão: Veredas e esta afirmativa não é a do ufanismo vazio que procura gaúchos em navios adernados, mas uma manifestação de consistente orgulho.

E, assim como nos livros de Rosa, a linguagem de Simões Lopes Neto talvez soe estranha à princípio, apesar de que o estranhamento é muito menor do que aquele com que se depara o leitor do mineiro. Se lá Rosa cria palavras utilizando seu enciclopédico conhecimento etimológico, se lá utiliza-se até de línguas eslavas; aqui Simões transforma o sotaque da região onde nasceu. Há os adágios populares, há os muitos gauchismos do campo e da cidade e há as expressões típicas da fronteira, recheadas de espanholismos. A memória de Blau Nunes é a memória geral do pampa narrando os acontecimentos principais de sua história que, em mosaico, formam uma visão subjetiva da região e de sua gente. Era 1912, não havia regionalismo, estávamos a 10 anos da Semana de Arte Moderna e 4 anos após o falecimento e Machado de Assis. Estamos, pois, falando da literatura de um pioneiro.

Ilustração de uma edição de Contos Gauchescos
Mas Simões Lopes Neto não trabalha apenas a linguagem, é um escritor que sabe criar constante subtexto. Ou seja, há as palavras, mas há um grande contador de histórias trabalhando-as, jogando informações subjacentes que reforçam ou contradizem o que está sendo contado. Isto pode ser sentido no pequeno conto O negro Bonifácio e no tristíssimo No Manantial — segundo e terceiro contos da coleção. A propósito, no CD Ramilonga, Vitor Ramil fez uma homenagem a No Manantial. A frase que é dita no início da canção é a primeira do conto e a que a encerra — Vancê está vendo bem, agora? — está próxima ao final do conto. É uma justa homenagem. Talvez No Manantial seja o melhor conto escrito por autor gaúcho até o surgimento de Sergio Faraco. Apenas em 1937, com a publicação de Sem rumo e Porteira fechada (1944), de Cyro Martins, e de O Continente (Erico Verissimo, 1949), a literatura do RS produziria outras grandes figuras ficcionais gaúchas. Dizia Tolstói: Se queres ser universal começa por pintar a tua aldeia. E Blau Nunes, na condição de narrador e protagonista dos Contos Gauchescos, é um gaúcho de qualquer latitude.


Marcelo Spalding, em excelente artigo análogo a este, finaliza citando a definição de Italo Calvino para o que seria um clássico. De seu artigo, roubamos duas frases de Calvino que, a nosso ver, cabem tão adequadamente a Contos Gauchescos que não há razão para não citá-las. Segundo Calvino, um clássico é uma obra que provoca incessantemente uma nuvem de discursos críticos sobre si, mas continuamente as repele para longe. Mais: clássicos seriam livros que, quando mais pensamos conhecer por ouvir dizer, quando são lidos se revelam novos, inesperados, inéditos. E, avançando no perigoso terreno do tradicionalismo gaúcho, arriscamos dizer que a ligação com o, em sua maioria, tosco movimento, acaba por prejudicar o autor de Contos Gauchescos. O fato de haver inclusive uma Medalha Simões Lopes Neto faz com que muitos leitores do RS o associem ao MTG e deixem de entrar em contato um autor muito sofisticado. Pois o homem que desejava livrar-nos da sarna e dos carrapatos produziu grande literatura.

Extraído do sítio do Sul21

A CONTABILIDADE DESTRÓI A MORAL - Rita Silva Freire



Troika e cultura, mercados financeiros e romances, agências de rating e poesia. Conceitos tão dispares foram sistematicamente postos lado a lado, nos mesmos parágrafos, pelos vários escritores que passaram pelas sete mesas que fizeram a 13.ª edição do festival literário Correntes d'Escritas, que acabou no ontem, no Póvoa de Varzim. Ao longo de três dias foram propostos temas aos autores para debate, todos eles, de algo forma, conjugando a actual situação financeira e respectivo léxico com a literatura nas suas diferentes formas.

A última mesa não foi excepção e Eugénio Lisboa, Gonçalo M. Tavares, Helena Vasconcelos, João de Melo, Luís Sepúlveda e Onésimo Teotónio Almeida viram-se a braços com o tema 'As ideias são fundos que nunca darão juros nas mãos do talento'. Gonçalo M. Tavares, cuja escrita é tantas vezes referida como 'analítica' ou 'matemática', fez jus ao epíteto e dedicou-se a fazer a contabilidade à literatura.

Quando vinha no comboio para o Norte, o autor de Jerusalém pôs-se a pensar na frase tantas vezes repetida 'estou a contar contigo'. E logo notou que, embora seja dita habitualmente com um sentido afectivo, está presente nela o seu ponto de vista contabilístico. «Há uma origem monetária na frase» disse, lembrando o significado do verbo contar, tantas vezes usado nas somas. «Mas está também ligada à literatura. Estou a contar uma história contigo remete para uma verdade da narrativa. Significa que estamos a contar a mesma história, com os mesmos factos, que não me desmentirás. E uma riqueza muito grande, confio afectivamente no outro». Mas entre o contar uma história e o contar matemático, de enunciar o um, o dois, e o três, lembrou o escritor, há também uma ligação. Tal como há uma sequência nos números que se contam, há também uma sequência na história que se narra. Ou seja, «há uma contabilidade simples na sequência narrativa».

Em seguida, Gonçalo M. Tavares lembrou que a contabilidade nasceu com os armazenistas, que contabilizavam os produtos armazenados. «Isto significa que só começamos a contar quando guardamos», disse. «O ser humano só começou a contar quando sentiu a necessidade de guardar a memória. As narrativas são uma espécie de armazém mundial».

À medida que a viagem de comboio prosseguia rumo ao Porto, Gonçalo M. Tavares lembrou-se do oposto de contar: descontar. E ficou contente. «É contar ao contrário, inverter a ordem normal da contagem. Podia haver outra categoria literária, os descontos». «As Memórias Póstumas de Brás Cubas seriam um desconto».

Mas nem tudo é poesia. «O problema da contabilidade é que é potencialmente perigosa e violenta», advertiu o escritor, que aproveitou para ler parte de um discurso de Hitler, em que este lembrava que os alunos com problemas mentais ou cegueira custam muito mais ao Estado do que um aluno dito normal. «O perigo da contabilidade é esse: quando há pouco dinheiro a contabilidade é aquilo que vai potencialmente eliminar os danos morais». «A pena de morte sai mais barata que a prisão» disse, lembrando que um preso tem custos para o Estado relacionados com a alimentação, a alimentação, a electricidade. «Se entrarmos num mundo contabilístico, os valores morais vão desaparecer». Gonçalo M. Tavares deixou, ainda, um último aviso: «Ninguém nos vai cortar a cabeça já hoje. É degrau a degrau que o mundo contabilístico vai destruir a moral. E aquilo que considerávamos direitos humanos inalienáveis, passados dez anos, vão passar a ser prescindíveis. A moral sai muito mais cara».

rita.s.freire@sol.pt

Extraído do sítio da Sol

19 de fevereiro de 2012

VULGÍVAGA - Manuel Bandeira



Não posso crer que se conceba
Do amor senão o gozo físico!
O meu amante morreu bêbado,
E meu marido morreu tísico!

Não sei entre que astutos dedos
Deixei a rosa da inocência.
Antes da minha pubescência
Sabia todos os segredos...

Fui de um... Fui de outro... Este era médico...
Um, poeta... Outro, nem sei mais!
Tive em meu leito enciclopédico
Todas as artes liberais.

Aos velhos dou o meu engulho.
Aos férvidos, o que os esfrie.
A artistas, a coquetterie
Que inspira... E aos tímidos — o orgulho.

Estes, caço-os e depeno-os:
A canga fez-se para o boi...
Meu claro ventre nunca foi
De sonhadores e de ingênuos!

E todavia se o primeiro
Que encontro, fere toda a lira,
Amanso. Tudo se me tira.
Dou tudo. E mesmo... dou dinheiro...

Se bate, então como estremeço!
Oh, a volúpia da pancada!
Dar-me entre lágrimas, quebrada
Do seu colérico arremesso...

E o cio atroz se me não leva
A valhacoutos de canalhas,
É porque temo pela treva
O fio fino das navalhas...

Não posso crer que se conceba
Do amor senão o gozo físico!
O meu amante morreu bêbado,
E meu marido morreu tísico!


de Manuel Bandeira - Estrela da Vida Inteira (José Olympio, 6a. ed, Rio de Janeiro, 1976)

Extraído do sítio Alguma Poesia