2 de junho de 2012

TEXTOS DE CELSO FURTADO ILUMINAM PAPEL NUCLEAR DA CULTURA DO DESENVOLVIMENTO - Diogo Viana



São Paulo - Quando sucedeu a seu amigo Darcy Ribeiro como ocupante da cadeira número 11 na Academia Brasileira de Letras, em 1997, Celso Furtado declarou que nunca pôde compreender a existência de um problema estritamente econômico. Para Furtado, toda questão econômica é também humana, ou seja, histórica, social e cultural.

O economista, que foi ministro do Planejamento durante o governo de João Goulart (a partir de 1962), também ocupou o Ministério da Cultura sob José Sarney (de 1986 a 1988). Nascido em Pombal (PB) em 1920 e formado em direito pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (então Universidade do Brasil), Furtado foi um dos primeiros estudiosos a investigar o vínculo entre o desenvolvimento econômico e as manifestações culturais.

Mas seria um erro descrever Furtado como um economista que se interessou pelo problema da cultura. O mais correto seria afirmar o contrário: Furtado chegou à teoria econômica por meio de suas reflexões sobre cultura e história. “Celso sempre foi muito pluridisciplinar”, diz Rosa Freire d’Aguiar Furtado, viúva do economista e diretora do Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento. “Ele nunca separou a economia das outras disciplinas. Graças a isso, foi o descobridor da dimensão cultural do desenvolvimento econômico e do subdesenvolvimento.”

A evolução do pensamento de Furtado sobre economia e cultura, da década de 1970 até sua morte, em 2004, é explicitada no livro Ensaios sobre Cultura e o Ministério da Cultura, editado por Rosa. O livro acompanha sua trajetória desde o exílio parisiense, passando pelo cargo no governo Sarney e a participação na Comissão Mundial de Cultura e Desenvolvimento da ONU (Organização das Nações Unidas), em 1994. Esse é o quinto volume de arquivos do economista lançado pela editora Contraponto, em parceria com o Centro Celso Furtado.

Expressões correntes como “economia da cultura” e “economia criativa” eram embrionárias, se tanto, quando Celso Furtado começou a aplicá-las, no livro Criatividade e Dependência na Civilização Industrial (1978), para entender o aspecto cultural do desenvolvimento econômico, no período que se seguiu à experiência na Sudene (Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste, em 1960), ao período no governo Jango e, enfim, à cassação pelo regime militar. “Essas expressões eram importantes para expressar o que havia de criativo na atividade econômica”, diz Rosa. “Ele queria ressaltar que a economia nada mais é do que o uso das forças criativas do ser humano. Não é a mesma coisa que fazer da economia criativa simplesmente um ramo da teoria econômica.”

“Comecei a perceber que, de três ou quatro anos para cá, as pessoas vinham procurar o arquivo para pesquisas de estudos culturais. Isso não existia no Brasil até muito recentemente. Foi por isso que resolvi fazer esse volume nesse momento”, explica Rosa. “Curiosamente, as pessoas me procuravam atrás de assuntos da cultura, e não da economia. Vai introduzir um bom material teórico para fomentar as investigações sobre a cultura no interior do desenvolvimento social e econômico.”

O papel das iniciativas culturais no funcionamento da economia se tornou uma questão ainda mais viva no período posterior à morte de Furtado. As discussões sobre a reforma da Lei Rouanet e a instauração do Procultura (Programa Nacional de Fomento à Cultura) puseram em questão os mesmos temas que Celso Furtado debateu ao longo de sua carreira. “É muito pertinente que o livro esteja saindo justamente agora, no meio de tanto debate”, afirma Rosa.

Durante a gestão de Furtado à frente da pasta da Cultura, elaborou-se a primeira lei de incentivo a essa área no Brasil, a chamada Lei Sarney. O então ministro apresentava a lei como uma inovação na política cultural brasileira, incentivando a participação da iniciativa privada no financiamento da produção cultural. “O objetivo último de uma política cultural deve ser liberar todas as formas criativas da sociedade”, disse o economista, explicitando a dificuldade de equilibrar o fomento à produção cultural que visa ao lucro (a chamada indústria cultural) e o fortalecimento da produção mais espontânea da população. Conciliar as duas vertentes era difícil e Furtado tinha consciência do desafio. “A nossa é uma difícil área de ação, pois tudo o que façamos sempre será insuficiente e objeto de crítica”, escreveu. “Mas nenhuma cultura se renova senão pela crítica.”

A Lei Sarney acabou revogada no breve governo de Fernando Collor (1990-1992), em que o Ministério da Cultura foi reduzido também a uma secretaria. O Brasil voltaria a ter uma lei sistemática para o fomento à cultura sob Sergio Paulo Rouanet, em 1991. “A Lei Sarney deve ter sido derrubada, em parte, por causa do nome. Em minha opinião, ela era até mais completa do que a atual, porque apelava muito mais para a própria sociedade. Era muito mais descentralizada”, afirma Rosa. Ela afirma que o próprio Ministério da Cultura não possui cópia de grande parte dos arquivos da passagem de Furtado, porque a extinção da pasta resultou em redução do espaço disponível.

O economista foi apenas a terceira pessoa a ocupar o Ministério da Cultura no Brasil, dois anos depois da publicação de seu livro Cultura e Desenvolvimento em Época de Crise. O primeiro titular da pasta foi o político mineiro José Aparecido de Oliveira, nomeado por Tancredo Neves, mas Sarney, ao assumir, preferiu deslocá-lo para o governo do Distrito Federal. O substituto foi Aluísio Pimenta, que só assumiu a pasta por poucos meses. Furtado era o único nome considerado capaz de resgatar um ministério ainda nascente, mas cuja existência a imprensa já questionava. Um abaixo-assinado subscrito por 176 pessoas, entre artistas, intelectuais e economistas, sacramentou sua indicação.

Segundo Rosa, a reflexão de Furtado sobre a cultura veio em quatro ondas. Nos anos 1970, o economista passou a sentir que o quadro da reflexão em economia estava muito pequeno. O resultado foi a redação de um curto texto que recebeu o título Que somos?, incluindo as “sete teses sobre a cultura brasileira”. “Naquele momento, ele nem de longe pensava que viria a ser ministro da Cultura”, conta Rosa. Nas teses, o economista situa a economia brasileira no contexto da expansão política econômica e, naturalmente, cultural da Europa no Renascimento, prossegue pela Revolução Industrial, a independência e as tentativas de desenvolvimento e industrialização do século 20.

Ao final, propõe políticas culturais que levem em conta essa inscrição da cultura brasileira. E pergunta: “Como preservar o gênio da nossa cultura, em face da necessidade de assimilar técnicas que, se aumentam nossa capacidade de ação, nossa eficácia, também são vetores de valores que com frequência mutilam nossa identidade cultural?”

O segundo momento em que textos sobre cultura aparecem em profusão foi o período do Ministério da Cultura. “Foi um momento muito entusiasmante, porque voltávamos ao Brasil no momento da redemocratização e de tentativas de estabilização financeira. O país estava trocando de pele”, diz Rosa. Além de assumir um ministério recém-criado, o economista também participou ativamente da elaboração da Constituição de 1988, em particular os capítulos que tratam de educação e cultura. “Todo o papel da sociedade estava sendo repensado”, lembra Rosa, “incluindo sua mobilização e sua cultura”.

O terceiro momento foi a Comissão Mundial de Cultura e Desenvolvimento, convocada pela ONU em um momento muito particular: no início da década de 1990, todos os princípios do desenvolvimentismo em economia, dos quais Furtado era um dos principais expoentes desde o tempo em que dirigiu a Cepal (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe, entre 1949 e 1957), estavam sendo postos em questão. Em seu lugar, vinha a onda liberalizante que ficou conhecida como Consenso de Washington. Furtado foi o único participante brasileiro da comissão, cujo relatório final sublinhava o valor da diversidade criativa, contrapondo-se aos primórdios da globalização.

A particularidade do momento histórico está expressa em sugestões do próprio Furtado ao relatório final: as tensões entre as tendências históricas da globalização e a fragmentação das subjetividades culturais ou políticas; a agravação das desigualdades econômicas; o custo ecológico do processo de investimento e da inovação tecnológica e seus efeitos no plano internacional. As três sugestões foram aceitas pelos demais membros.

A última onda de textos corresponde à sua eleição para a Academia Brasileira de Letras, em 1997. Furtado frequentava os encontros de quinta-feira religiosamente, a não ser quando passava períodos na França. Era muito próximo de outros imortais, como Cândido Mendes e Evandro Lins e Silva. “Ele era chamado sempre que precisavam de alguém que escrevesse sobre autores de ciências humanas”, relata Rosa.

Embora não fosse ele mesmo um literato, segundo Rosa, Furtado chegou a afirmar que seu primeiro desejo era ser romancista. “Quando penso uma realidade, penso primeiro pela imaginação, depois pela análise”, disse. Comparando o estudo da história a uma obra de arte, capaz de inventar o próprio homem que estuda. “A lógica chega finalmente a ter unidade, sentido, através da própria invenção humana. E isso quem faz, admiravelmente, são os romancistas”, afirmou o imortal.

Os primeiros quatro volumes da coleção, lançados a partir de 2008, foram dedicados, respectivamente, à Venezuela, à economia do desenvolvimento, ao Nordeste e ao período em que Furtado ocupou o Ministério do Planejamento. “É difícil saber quantos volumes ainda vão sair na coleção”, diz Rosa. “Mas ainda tem uma barbaridade de papéis no arquivo. O próximo deverá tratar dos anos de formação, antes de Celso se tornar economista.”


Extraído do sítio Agência Brasil

1 de junho de 2012

O LIVRO DE PELÉ - José Inácio Werneck


Bristol (EUA) – Volta e meia recebo, através de outros órgãos de imprensa onde trabalho, consultas sobre o livro “Pelé – The Official Biography”, que escrevi para uma editora inglesa chamada Gloria Books que é, por sua vez, uma subsidiária de uma imensa e famosa editora internacional, a Simon & Schuster.

A história deste livro é, para mim, uma pequena lição das complexidades do mundo editorial. Minhas experiências no mesmo tem deixado algo a desejar, para usarmos de uma linguagem educada.

Tudo começou quando recebi um telefonema de um velho amigo meu, o jornalista escocês radicado na Inglaterra, Hugh McIlvanney. Diga-se de passagem, excelente e premiadíssimo jornalista.

Ele me falou em nome dos editores. Seria um livro praticamente a quatro mãos, eu e ele, com a colaboração de alguns outros jornalistas internacionais, entre os quais meu velho amigo João Máximo.

Conversei com os editores (editores no caso são os publishers, isto é, quem publica o livro), acertei quanto iam me pagar e mandei a minha parte, em inglês, relembrando velhas histórias de Pelé, como no dia em que o vi estrear pela Seleção Brasileira, no Maracanã, ao entrar no segundo tempo de uma partida contra a Argentina, como substituto de Del Vecchio. Também, entre outras, a do dia em que João Saldanha me deixou entrar escondido na concentração do Retiro dos Padres, em 1970, na manhã de um jogo (por coincidência, também contra a Argentina) para servir de intérprete em uma entrevista do já citado Hugh McIlvanney com Pelé, que naqueles tempos não falava uma única e escassa palavra de inglês.

Feita a minha parte, verti do português para o inglês a colaboração de João Máximo e fiquei à espera. Os editores, todos com complicados nomes indianos que no momento não recordo, me informaram, comunicando-se por e-mails ou telefonemas, que seria uma edição “de luxo”, de circulação “reduzida”, a ser lançada durante a Copa do Mundo de 2006, na Alemanha.

Antes, creio que um ano antes, eu estava em Londres e fui convidado pelos tais editores a conhecê-los, em um almoço, onde estaria também Hugh McIlvanney. Saí da casa de amigos meus, onde estava hospedado, num dia em que fazia um calor de derreter os untos (sim, acontece até em Londres), fui de carro à estação de metro mais próxima (para eles, “underground” ou “tube”) e, quando afinal achei um lugar para estacionar, já estava suando em bicas, metido em meu terno e gravata, todo emperequetado.

Almoçamos, num restaurante “trendy” (isto é, da moda), perto da Bond Street. Só aí descobrimos, Hugh e eu, que nossos amigos editores eram todos muçulmanos. O regabofe transcorria lubrificado apenas por água, até que Hugh perdeu a cerimônia e tomou a iniciativa de mandar descer um bom vinho das prateleiras.

De volta aos Estados Unidos, recebo um calhamaço pelo correio. Eram as provas do livro. Não entendo de dimensões de livros, mas eram imensas. Algo assim de um metro de comprimento por uns 80 de largura. As fotos, belíssimas. Quanto ao texto, havia a colaboração de diversos outros jornalistas estrangeiros e alguns brasileiros. Entre os nomes de que me recordo, Juca Kfouri.

A mim cumpria, me informaram, fazer a revisão de tudo aquilo. Fiz e enviei o calhamaço de volta. Depois de infindáveis trocas de mensagens e esclarecimentos quanto a “routing numbers”, consegui afinal receber, por meios eletrônicos, o que me era devido. Àquela altura, já me considerava mais do que insuficientemente pago, pois a labuta tinha sido imensa.

Não sei se as demais pessoas que trabalharam no livro foram pagas ou não. Mas quanto à tal “Official Biography”, nunca vi. Não soube de nenhuma noite de autógrafos, nenhum lançamento, nenhuma solenidade, nada. Se houve, não me avisaram nem me convidaram.

O livro existe? Não sei. Se existe, é em edição tão limitada que chega a ser secreta.O que a Simon & Schuster disse a respeito? Nada. Quanto aos simpáticos indianos muçulmanos, nunca mais ouvi falar, nem sei se estão vivos e se ainda trabalham na Inglaterra.


Extraído do sítio Direto da Redação

O ALEMÃO QUE RASGOU A CORTINA - Viktor Litóvkin

Após percorrer 850 quilômetros e atravessar a impenetrável defesa antiaérea soviética, o aviador Mathias Rust aterrissou na Praça Vermelha, em Moscou, no dia 28 de maio de 1987. Destaque em diversos veículos ocidentais, a notícia correu o mundo e causou grande choque na liderança da União Soviética.

Há exatamente 25 anos um aviador partindo de Hamburgo furou a defesa antiaérea soviética e aterrissou em plena Praça Vermelha

Era uma noite quente de primavera e a URSS celebrava o Dia do Guarda de Fronteira. Foi então que um avião monomotor Cessna-172R, comandado pelo aviador alemão Mathias Rust, aterrissou em pleno centro de Moscou sem tocar os cabos elétricos das redes de trólei. 

Quando a aeronave pousou suavemente, o rapaz, com um macacão vermelho e sorriso amigável, desceu do avião e começou a dar autógrafos aos moscovitas curiosos para ver o que estava acontecendo. Quinze minutos depois a polícia chegou e Rust foi levado para um local desconhecido, onde ficou preso por quatro anos. 

Já era tarde demais. “Um alemão atravessou a Cortina de Ferro”, anunciavam as manchetes da imprensa ocidental, causando grande choque na liderança soviética. 

Embora naquela época a URSS ainda não enfrentasse ameaças terroristas, o potencial perigo de tais ataques se tornou evidente. O sistema de defesa antiaérea soviético possuía brechas e podia ser atravessado por pequenos aviões que, se necessário, seriam capazes de levar a bordo munição nuclear ou bombas com substâncias tóxicas. 

Também ficou claro que os enormes recursos financeiros – oficialmente, 15 %, mas, na realidade, quase o dobro do orçamento estatal – aplicados pelo país para reforçar sua segurança eram mal utilizados. 

Demissão em massa

Na sequência, uma reunião extraordinária do Conselho Político do Comitê Central do Partido Comunista da União Soviética foi convocada. Três marechais e cerca de 300 generais e coronéis responsáveis pela defesa antiaérea foram demitidos, entre eles o então ministro da Defesa, Serguêi Sokolov, e o comandante da Defesa Antiaérea, Aleksandr Koldunov. 

Segundo alguns meios de comunicação ocidentais, essa foi a maior campanha de expurgação no alto comando militar da URSS desde a repressão estalinista de 1937.

O chefe do Estado Maior, Ígor Máltsev, só não teve o mesmo fim pois, no dia do voo de Rust, estava em Tallinn participando de trabalhos no parlamento da Estônia, uma das ex-repúblicas soviéticas. “Não acreditei”, disse Máltsev. “Fomos ao posto de comando de defesa antiaérea nos subúrbios de Tallinn e soubemos que Rust havia cruzado a fronteira na Estônia.” 

“A defesa antiaérea soviética tinha sido concebida para combater ataques aéreos maciços contra alvos no território soviético, e não para lutar contra aeronaves esportivas. Éramos realmente a mais eficaz do mundo naquela época”, justificou o general. 

Muitos especialistas são da opinião de que o então líder do Partido Comunista e da URSS, Mikhail Gorbatchov, teria aproveitado o voo de Rust para se livrar dos altos oficiais contrários a suas reformas voltadas para a democratização e abertura informativa da sociedade soviética. 

Considera-se que, a partir desse momento, teria começado o processo de degradação das Forças Armadas e desagregação da URSS. Entretanto, cabe lembrar que os novos generais e marechais nomeados seguiam a mesma cartilha de seu antecessores e a degradação das instituições soviéticas era um processo que vinha acontecendo muito antes do famoso voo de Rust.

Outras desculpas

Além do motivo citado por Máltsev, outra razão para explicar o ocorrido se deve à adesão soviética ao protocolo da Convenção de Aviação Civil Internacional, que proibia derrubar aviões civis onde quer que sobrevoassem. 

O documento foi assinado após o caso do jumbo sul-coreano derrubado pela defesa antiaérea soviética no Extremo Oriente, em 1983, por ter violado o espaço aéreo da URSS.

O ministro da Defesa também emitiu na época um despacho proibindo abrir fogo contra aviões de passageiros, carga e aeronaves leves. “Por razões desconhecidas, esse fato foi omitido naquela época e continua omitido ainda hoje”, disse. 

Por último, os radares monitoravam todas as aeronaves, podendo, contudo, identificar somente aquelas equipadas com sistemas de identificação “amigo-inimigo”. 



As aeronaves de pequeno porte, assim como aviões agrícolas e esportivos não possuíam esses dispositivos e eram detectadas aos montes por um setor específico da defesa antiaérea. O avião de Rust não diferenciava em nada dos outros aviões desse tipo, razão pela qual não foi identificado como violador de fronteira, mas como infrator do regulamento de voos.


Voo minuto-a-minuto

14h10 - Aeronave identificada perto da cidade estoniana de Loksa, ou seja, já no espaço aéreo soviético

14h18 - Relato de que nessa zona não havia aviões civis soviéticos; a aeronave de Rust foi considerada violadora de fronteira e dois caças foram enviados para escoltar o avião estrangeiro

14h30 - Radares perderam contato com o avião infrator. Acredita-se que tenha entrado em uma das numerosas zonas mortas ou lacunas dos radares situadas após a linha de fronteira

15h30 - Sem conseguir reencontrar o avião de Rust, o comandante do 60º Exército de Defesa Antiaérea informou o comando em Moscou de que o alvo se tratava de um denso bando de pássaros

18h30 - Aeronave foi detectada novamente quando já sobrevoava Khodínskoe Pole, um bairro moscovita



18h55 - Rust aterrissou na Praça Vermelha.


Extraído do sítio Gazeta Russa

Ler também:
Obvious: Mathias Rust - a queda de um anjo

POEMAS DEL SILENCIO (I) - Aurelio Arturo



Siento crecer el silencio en la estancia
y es cual si fueran cayendo, en mi torno,
invisibles ladrillos, idénticos.
Construcción que fantástica sube
cada instante y se hace más sólida.

De improviso mi voz salta y caen
derruídos los muros... mas, luego
la construcción nuevamente comienza.
El obrero no siente fatiga. 
Y los muros caídos de un golpe
nuevamente se alzan, me cercan.

Al fin un día se harán tan espesos
que para siempre estaré emparedado
entre muros de insomne silencio.

Sobre los prisioneros del cementerio, la muerte
amontona silencio; los muros
que los tienen tan lejos dei ruído
de la vida, se van ensanchando.
Son eternos, los muros monstruosos, 
muros de años, de lustros, de siglos.

Tradução de Antonio Miranda: POEMAS DO SILÊNCIO (I) // Sinto o silencio crescer na morada / e é como se fosse caindo, em meu redor, / invisíveis ladrilhos, idênticos. Construção que fantástica sobe / a cada instante e se torna mais sólida. // De improviso salta minha voz e caem / desmoronados os muros... mas, logo / a construção começa uma vez mais. / O pedreiro não sente fatiga. / E os muros caídos de repente / novamente se alçam, me cercam. // Afinal um dia se tornarão tão espessos / que para sempre estarei emparedado / entre muros de insone silêncio. // Sobre os prisioneiros do cemitério, a morte / empilha silêncio; os muros / que os mantém tão longe do ruído / da vida, vão-se ampliando. / São eternos, os muros monstruosos, / muros de anos, de lustros, de séculos.

Aurelio Arturo: Poeta colombiano nascido em La Unión, Nariño, em 1906. Doutor em Direito pelo Externato de Colômbia, publicou, em 1928, quando ainda era estudante, seus primeiros poemas na Revista Universidad, dirigida pelo intelectual Germán Arciniegas. Dedicado por inteiro ao exercício profissional, exerceu alguns cargos públicos, como Secretário-geral do Ministério do Trabalho e funcionário do Ministério de Defesa. Praticou a poesia e as traduções em seus tempos livres, mas de maneira constante. Em 1963, editou seu único livro, "Morada al Sur", que obteve o Prêmio Nacional De Poesia Guillermo Valencia. Meses depois de sua morte, recebeu o doutorado Honoris Causa em Filosofia e Letras pela Universidade de Nariño. Faleceu em Bogotá, em 1974.

Extraído do sítio Antonio Miranda

BEA LANÇA ENCONTRO "LITERATURA BRASILEIRA ENCONTRA NEW YORK" - Leonardo Ferreira

Capa do livro “The Almagest: Animic Tales”, da escritora Adriana Kortlandt

A reunião de escritores é mais uma iniciativa de enaltecer a literatura brasileira e apresentá-la à comunidade nova-iorquina

O Brazilian Endowment for The Arts – BEA, em parceria com a Editora Thesaurus, promove o evento Literatura Brasileira Encontra Nova York, em 6 de junho, às 7:00 pm, na 240 East 52nd St., em Manhattan (NY). O encontro de escritores é mais uma iniciativa de enaltecer a literatura brasileira e apresentá-la à comunidade nova-iorquina. O evento reunirá 11 autores brasileiros representados pela editora Thesaurus de Brasília, os escritores lançarão seus livros mais recentes e irão autografá-los para os participantes. Será uma oportunidade ímpar de familiarizar o público de língua inglesa com a literatura brasileira através de novos títulos e ao mesmo tempo estreitar os laços com a comunidade residente no exterior.

São os autores e respectivas obras, nos mais diversos gêneros, entre eles, contos, biografia, jornalismo policial, administração, romance, religião, dicionário e autoajuda:

• Adriana Kortlandt – The Almagest: Animic Tales
• Marcos Vinicius Bucar Nunes – Zico a Lesson of Living
• Clotilde Chaparro – Duzinda e Nightmares: Dreams and Tales
• Marcos Linhares – Crime in the Heart of Brazil
• Altair Maia – Tribute to Jonathan Makeba
• Claudio Navarro – Salvation
• Rosmarie Navarro – With Jesus on The Divan
• Homero Reis - Ontological Coaching and the Art of Decision Making
• Edna e Levy Santanta – Pratical Dictionary of False Cognates
• Tizuka Prado - Far Beyond the Flowers
• Judivan J. Vieira - The Manager,Tthe Politician and The Thief
• Cristovan Buarque - Astricia : Or The Man Who Dribbled Time
• Domício Coutinho – The Dog Priest

A Thesaurus Editora, com os 11 autores brasileiros, participa também da Book Expo America em New York, que será realizada de 4 a 7 de junho no Javits Center, maior feira do mundo de língua inglesa. A Editora Thesaurus é a única representante do Brasil e da cidade de Brasília (DF) na feira e o foco da exposição é o mundo editorial, concentrando distribuidores, livreiros, editoras e agentes literários todos em um lugar só.

“É um ato de cidadania e difusão cultural, garantindo a presença brasileira e promovendo nossa literatura e cultura. Unimo-nos, editora e autores, de forma cooperativada para mostrar que a cidade de Brasília, apesar de nova, produz literatura profícua e de qualidade”, afirma o diretor da Thesaurus, Victor Tagore.

A noite de autógrafos em 6 de junho é organizada pela BEA, que tem como presidente o escritor Domício Coutinho, curadoria e produção de Alcinda Saphira, Gustavo Braga, Carol Mendes, Fernanda Pereira e assessoria de imprensa Beatriz de Ruiz. Informações: (212) 371-1556. Devido ao limite de espaço, é necessária a confirmação de presença: bibliobrnyc@gmail.com.

Extraído do sítio Brasilian Voice

MADONNA SIXTINA FAZ 500 ANOS. LENDAS E PROPAGANDA À VOLTA DA OBRA-PRIMA DE RAFAEL - Armen Apresian

foto: EPA 
Este ano a Madonna Sixtina cumpre cinco séculos e, para comemorar seu o quinto centenário, em Dresden foi inaugurada uma exposição única que conta a história da obra-prima de Rafael Santi.

Os objetos em exposição incluem documentos, reproduções, obras de arte representando momentos da história desse quadro que foi recheada de acontecimentos, por vezes dramáticos. A Madonna Sixtina foi encomendada ao pintor em 1512 como imagem de altar para a capela do mosteiro de São Sixto na cidade italiana de Placência, onde permaneceu mais de duzentos anos até que, em 1754, o príncipe-eleitor da Saxônia Augusto III por uma quantia exorbitante para a época – 25 mil escudos.

Contam que, apesar da importância paga, as autoridades locais impediram a saída do quadro da Itália e só a intervenção do Papa, que tinha aprovado o negócio, permitiu a saída da Madonna para Dresden. A exposição apresenta um pastel de Adolph von Menzel que representa a entrega da obra de Rafael na residência do príncipe. Conta a lenda que Augusto III não só saiu para receber esse quadro famoso, como afastou pessoalmente o trono com as palavras “Dêem espaço ao grande Rafael!”.

Durante a Segunda Guerra Mundial, os nazis levaram da galeria a Madonna Sixtina, juntamente com muitas outras obras de arte de importância mundial, que colocaram num esconderijo nos arredores de Dresden. A história das buscas e recuperação da Madonna Sixtina é retratada no livro “Os Sete Dias” de Leonid Volynskiy que foi bastante popular nos tempos soviéticos e foi várias vezes reeditado. Mas poucos sabiam que Volynskiy era o pseudónimo do artista Leonid Rabinovitch. Em Maio de 1945, sendo na altura oficial do Exército Soviético, ele chefiou um dos grupos que procuravam a coleção da galeria de arte de Dresden. Foi ele que, após investigação muito complexas, tendo recolhido declarações de dezenas de testemunhas, encontrou primeiro as esculturas provenientes da galeria, depois um mapa cifrado que levou o grupo de busca a uma pedreira abandonada, onde estavam escondido o tesouro constituido por pinturas. A Madonna Sixtina estava aconcionada num caixote, já os restantes quadros (de Rubens, Giorgione, Veronese e muitos outros) estavam abandonados no chão, encostados uns aos outros ou às paredes da mina. Tudo isso foi descrito por Volynskiy no seu livro.

Os tesouros descobertos, mais de 1240 quadros, foram enviados para Moscou para restauro, o qual foi dirigido pelo mestre de renome Pavel Korin. Em Dresden está igualmente exposto um quadro de Mikhail Kornetsky “A Salvação de Madonna Sixtina ” (1984), que representa o trabalho dos mestres de restauro. Na nota adjacente, os organizadores da exposição referem que não se trata senão de uma das lendas criadas pela “propaganda soviética”.

O “Salvamento dos Quadros da Galeria de Dresden” é o tema da pintura do artista russo Mikhail Volodin, participante nessa operação. Ele é igualmente o autor de uma série de desenhos que representam cenas das buscas e do salvamento da galeria. O mesmo artista participou, em 1945, na busca dos tesouros do palácio Zwinger. Depois da guerra, Volodin recordava que o marechal Ivan Konev e o general de exército Ivan Petrov, respetivamente comandante e chefe do estado-maior da 1ª Frente da Ucrânia, que libertou Dresden, controlavam pessoalmente a operação de localização e garantia da integridade das pinturas. Eles deram as instruções necessárias para que os quadros não fossem manipulados até à chegada dos técnicos de restauro, estando muitos deles, segundo os soviéticos que participaram nesses acontecimentos, seriamente danificados.

A exposição apresenta documentos que, de acordo com os organizadores, desmontam uma falsificação histórica: o plano de engenharia alemão de aquecimento e ventilação do espaço, onde se encontrava o quadro, e o passaporte que acompanhou o quadro na sua devolução a Dresden em 1955, emitido pelos funcionários do museu soviético. O passaporte refere que a Madonna se encontra “em bom estado”, o que, do ponto de vista dos historiadores alemães, comprova que toda a história da salvação da pintura é uma invenção. Trata-se de uma estranha lógica, pois foi o trabalho dos restauradores que permitiu a conservação dessa obra-prima.

Já há vários séculos que a Madonna Sixtina é considerado o quadro mais famoso da coleção de Dresden, sendo há muitos anos admirada por poetas e pintores. Goethe escreveu, sob impressão do quadro, sobre Rafael: “Ele criava sempre aquilo que os outros apenhas sonhavam criar.”

“Um exemplar puríssimo de uma puríssima maravilha ...”, escrevia Alexander Pushkin sobre a Madonna. Sabe-se que Leão Tolstoi e Fyodor Dostoievski tinham reproduções do quadro nos seus gabinetes de trabalho. Em 1869, a esposa de Dostoievski, Anna, escreveu: “Fedor Mikhailovich considerava as obras de Rafael superiores a tudo na pintura e reconhecia a Madonna Sixtina como a sua obra suprema”.

Ao mesmo tempo, um dos pintures russos mais famosos, Ivan Shishkin, escreveu no seu diário a 22 de Maio de 1862: “A famosa Madonna não me causou qualquer impressão, gostei muito do Salvador e da Nossa Senhora, mas esse padre e a Bárbara extasiada em baixo estão aqui completamente a mais. Estivemos sentados à sua frente quase meia hora, esforçámo-nos por enxergar, mas helas! A nossa alma não vibrou! ...É verdade que a Madonna é uma coisa realmente séria e sentem-se nela qualidades que, talvez, nós não compreendamos.”

Há muitas lendas à volta desse quadro de Rafael, hoje é difícil separar a verdade da ficção, mas há uma coisa que se pode dizer como verdade absoluta: ainda muitas gerações de admiradores agradecidos irão apreciar a Madonna Sixtina, sobre a qual o pintor e arquiteto italiano Carlo Maratti (ou Maratta, 1625-1713), afirmou: “Se me mostrassem um quadro de Rafael, e eu não soubesse nada sobre quem ele era, e se nessa ocasião me dissessem que é a criação de um anjo, eu iria acreditar.”


Extraído do sítio Voz da Rússia