3 de abril de 2012

A LITERATURA EXIGENTE: OS LIVROS QUE NÃO DÃO MOLEZA AO LEITOR - Leila Perrone Moysés


Entre as várias correntes da prosa brasileira atual, existe uma bem consolidada, que poderíamos chamar de literatura exigente. São obras de gênero inclassificável, misto de ficção, diário, ensaio, crônica e poesia.

São livros que não dão moleza ao leitor; exigem leitura atenta, releitura, reflexão e uma bagagem razoável de cultura, alta e pop, para partilhar as referências explícitas e implícitas. A linhagem literária reivindicada por esses autores é constituída dos mais complexos escritores da alta modernidade: Joyce, Kafka, Beckett, Blanchot, Borges, Thomas Bernhard, Clarice Lispector, Pessoa...

Os autores dessas novas obras nasceram quase todos por volta de 1960, a maioria passou por ou está na universidade, como pós-graduando ou professor, o que lhes fornece boa bagagem de leituras e de teoria literária; alguns são também artistas plásticos, o que acentua o caráter transgenérico dessa produção. E diga-se, desde já, que, se para alguns leitores, entre os quais me incluo, são excelentes escritores, para muitos outros são aborrecidos e incompreensíveis.

Tratarei aqui de apenas alguns deles, não porque sejam os únicos, mas porque ilustram, de modo exemplar, essa tendência. Alguns traços gerais os irmanam. O principal deles é a desconfiança.

Desconfiam do sujeito como "eu", do narrador, da narrativa, das personagens, da verdade e das possibilidades da linguagem de dizer a realidade. Pertencem ainda e cada vez mais àquele tempo que Stendhal chamou, já no século 19, de "era da suspeita" e que Nathalie Sarraute consagrou ao caracterizar o romance experimental do século 20.

Nossa época, escreve ela em 1956, "revela no autor e no leitor um estado de espírito particularmente sofisticado. Não apenas eles desconfiam da personagem de romance mas, através dela, desconfiam um do outro". Para ela, autores e leitores estariam cansados dos "sentimentos de confecção", das "emoções convencionais" e das "reminiscências literárias".

Mais de meio século depois dessas considerações de Sarraute, a maioria dos escritores atuais parece não sofrer com tais suspeitas. Mas esses a que me refiro são todos desconfiados.

Um exemplo entre muitos: "Escrevo sendo filmado e esquadrinhado pela medida opressiva de duzentos olhares e duzentas vozes, então um frio horror se aloja no meu peito. É o terror da falsidade. A desconfiança permanente por ocupar um lugar tão frágil, pois o que pode uma nascente no meio do asfalto?" (Juliano Garcia Pessanha, "Instabilidade Perpétua", Ateliê, 2009, pág. 36).

Desconfiam do "eu": "Não procurem nada atrás de meus escritos, 'eu' se existir, está todo neles, bem à tona. Sim, o eu é uma das nossas mais caras ficções - carecemos dela apaixonadamente"; "o eu é incrivelmente diviso, um tanto suspenso de si, eu sou quem não sou, mesmo e outro" (Evando Nascimento, Retrato desnatural, Record, 2008, págs. 138 e 167).

Desconfiam do narrador: "O narrador está calado. Até quando não sabemos. [...] E então, de que se faria a palavra sem corpo do narrador? De que se faria, ou ao que se daria esta palavra? [...] À memória desmaterializada dos homens e das gentes que circulam no mercado de ações?" (André Queiroz, "Outros Nomes, Sopro", 7Letras, 2004, pág. 35).

O narrador pode ser apenas uma língua sem corpo: "Esta pessoa denegada, quase toda ausente, que depende da gramática para se manter, manifestando-se pela língua crescida e projetada que só o sufocamento pode produzir" (Carlos de Brito e Mello, "A Passagem Tensa dos Corpos", Companhia das Letras, 2009, pág. 137).

Desconfiam das histórias: "Não há mais história para se contar, Não há mais memória de guardados em restos de fazenda e de tecidos de terceira linha. Desfiados, os tecidos. Desmoronados, os resíduos e as partes deste si" (André Queiroz, pág. 38).

Ou: "Não, gente demais já morreu e histórias demais, de quem mais ninguém se lembra, enchem o vento agora, feito um marulho sem mar" (Nuno Ramos, "Ó", Iluminuras, 2008, pág. 168). Ou: "Existe uma história, se toda metáfora e toda memória são insatisfatórias?" (Julián Fuks, "Procura do Romance", Record, 2011, pág. 77).

Desconfiam da literatura como instituição e repetição de fórmulas: "A tagarelice da literatura, esse nomear segundo - menos preciso e carregado de vaidade, [...] esta literatice" (André Queiroz, pág. 48). "Podemos agora renomear o mundo, isso outrora se designava como literatura" (Evando Nascimento, pág. 274).

Desconfiam da escrita como representação: "Toda a interminável noite da escrita está no fim. [...] Ó cão, os signos são todos perecíveis! E as palavras não passam de cascas de coisas que eram que foram que vieram se esfarelando na ladeira das eras até se tornarem o que são -esta fala: gargarejo, cacareco" (Alberto Martins, "A História dos Ossos", Editora 34, 2005, págs. 23-4).

Os exemplos poderiam multiplicar-se, mas passemos a outro traço comum. São textos que, em vez de descrever grandes paisagens, concentram-se frequentemente em coisas minúsculas: restos, resíduos, cantos, cacos, lixo. Darei apenas dois exemplos:

"No grosso era areia batida que se cobria aos sábados e domingos de milhares de saquinhos de polvilho, copos de plástico, garrafas de cerveja, brinquedos destocados, restos de jornal, vidros de loção, chaves, isqueiros, cortadores de unha, alianças e mais um sem número de objetos que aproveitavam o fim de semana para mudar de dono" (Alberto Martins, pág. 45).

Ou: "Sem conseguir escolher se a vida é bênção ou matéria estúpida, examinar então, pacientemente, algumas pedras, organismos secos, passas, catarros, pegadas de animais antigos, desenhos que vejo nas nuvens [...] olhando a um só tempo do alto e de dentro para o enorme palco, como quem quer escolher e não consegue: matéria ou linguagem?" (Nuno Ramos, pág. 18).

Não por acaso, os mais sensíveis ao apelo sensorial desses detritos são os escritores também artistas plásticos, como os dois últimos citados. Num mundo excessivamente carregado de coisas pretensamente úteis e funcionais, podemos cultivar "um desejo de desperdício e falta de função", diz Nuno Ramos: "O interessante é que não sejam ruínas mas pequenas células de inutilidade ou de utilidade incompreensível, em meio à avalanche de propósitos, à avareza minuciosa incrustada na fração circular de cada dia" (pág. 170).

Perpassam, nessas enumerações de restos e detritos, tanto a preocupação ecológica quanto a memória de tantas ruínas históricas e culturais sobrevoadas pelo anjo de Klee (via Benjamin), familiar a todos esses escritores. Mas as preocupações apenas perpassam, porque eles também não acreditam na literatura de mensagem, na literatura engajada. Apenas registram, com lucidez e desgosto, o estado lamentável de nossa "civilização".

Atentando para seus restos, eles rejeitam o excesso de informação, de consumo, de imagens: a "face regressiva da tecnologia" como instru mento de guerra, a "fantasmagoria ininterrupta" da televisão, nosso "eterno presente aflito" (Nuno Ramos).

Às vezes, é possível arrancar desses restos "o pequeno infinito da epifania, dessa minúcia preciosa que nada poderá reproduzir (textura da cortina, mancha de mofo, borda da manteiga, beijo plissado, luz às três da tarde, samba, sandália), porque a memória depende de treino, de atenção ao que parece único, e encontra nisso sua função mais elevada: frear a multiplicação desordenada do que acontece simultaneamente" (idem, págs. 172-3).

E o resultado dessa atenção é poesia: "Ah língua da infância, muda de lembranças -por toda parte só areia, imensas e monótonas dunas de areia. Aqui a vida desistiu de existir e o tempo se reduz a um prolongamento do nada. Uma luz impenetrável incide sobre lagartos e pedras. Delas é que mais me aproximo. De dia entalam no calor do sol. À noite estalam sob rajadas de areia fria. Areia no vento é lixa -lâmina que penetra nas frinchas, incha, rabisca, Depois o vento sopra e seca áspero as feridas" (Alberto Martins, pág. 28).


A reflexão implícita nas obras desses escritores é complexa, mas seus textos são despojados, sem pirotecnias verbais como as dos modernistas.

O trabalho da linguagem é de outro tipo. É a procura de dizer o que ainda não foi dito, com vocabulário e sintaxe conhecidas. Em geral, eles preferem dizer menos do que mais, pressupondo que tanto já foi dito e redito que o leitor entende por meias palavras.

Do mesmo modo, quando narram, evitam explicar as implicações psicológicas dos fatos para não cair em clichês, coisa que eles temem mais do que tudo. Os fatos e sentimentos são dados a partir de índices. Assim, em Nuno Ramos, na narrativa da venda da casa paterna, depois de acontecimentos só rapidamente referidos como "terríveis", todo o afeto, o luto, a perda, a dor e a revolta estão contidos na pergunta irada: "Esta casa? Esta casa aqui?" (pág. 268).

Ao contrário da "angústia da página branca" de que se queixavam os antigos escritores à espera da inspiração, os escritores de hoje lutam com o excesso de informação que nos oprime: "Quando se começa, nunca se está diante da folha ou da tela em branco, no papel, pano ou cristal líquido, a folha lívida e lisa já está cheia de clichês, montoeira de inutilidades que é preciso limpar para iniciar o trabalho, e o principal clichê foi o que acabei de mencionar" (Evando Nascimento, pág. 213).

Vivemos em "um universo inteiro hipernomeado de sentido, hipersaturado de narrações (Juliano Garcia Pessanha, pág. 30).

Apesar das desconfianças na narração e na descrição, esses escritores por vezes narram e descrevem cenas lembradas ou imaginadas. Em muitos deles, as cenas ocorrem em hospitais, cemitérios ou campos de batalha.

A morte é um tema constante em suas obras, não apenas porque ela é o tema humano por excelência, tratado em toda a história da literatura, mas porque, em nosso tempo, ela está onipresente nos noticiários, nas imagens e até mesmo na recusa em aceitá-la. Nesses escritores, o sentimento de que talvez estejamos numa época terminal da humanidade se mistura à reflexão sobre a morte individual.

Entre os mortos e ausentes evocados nessas narrativas, avulta a figura do pai. "O pai sumido" de Nuno Ramos, os ossos do pai em Alberto Martins, a agonia do pai em André Queiroz, a "passagem tensa" do corpo paterno em Carlos de Brito e Mello, o pai protetor da infância em Julián Fuks. A morte do pai, experimentada na existência ou ficcionalizada, é um "leitmotiv" de nossa época.

A geração a que pertencem esses escritores é composta de órfãos: órfãos dos grandes modelos literários e artísticos, órfãos da proteção do Estado, órfãos de ideologias e, já há muito tempo, órfãos de Deus. A carta ao pai, de Kafka, às vezes referida nesses textos, é o atestado de nascimento dessa tribo de órfãos. Encontramo-la igualmente em obras de outra feitura, como o belo "Ribamar" de José Castello (Bertrand Brasil, 2010).

Ao tentar captar alguns traços comuns, espero não ter dado a impressão de que esses escritores "difíceis" são indistintos. Pelo contrário, cada um deles tem uma forte marca autoral. Carlos de Brito e Mello narra uma história fantástica, num romance de enredo e estrutura surpreendentes.

Evando Nascimento é o mais ensaístico de todos; fala de arte, de política, contém sua própria teoria e sua própria crítica, restando muito pouco a dizer ao "amável crítico" que ele interpela ironicamente. André Queiroz ainda está às voltas com aquilo que se chamou, na França dos anos 70, de "écriture". Escreve (e bem) sob a égide de Beckett e Blanchot.

Julián Fuks, na procura de seu impossível romance, parece recuperar algumas das preocupações do "nouveau roman": a desconfiança em todos os elementos da narração, a desconstrução sistemática do enredo, a descrição minuciosa das coisas e dos próprios passos da personagem, como um autodetetive em busca de indícios que avivem a memória pouco confiável.

Alberto Martins justapõe dois relatos aparentemente muito diversos, o primeiro loquaz e delirante, o segundo, seco como os ossos, a areia e as pedras. Nuno Ramos sabe passar da reflexão grave e trágica a um "elogio do bode", até concluir com um conto engraçadíssimo, "No espelho".

Esses escritores, tão conscientes da triste situação do mundo atual e das dificuldades de seu ofício, em geral não são muito chegados ao humor. Mas há um humor negro em Carlos de Brito e Mello, e muita ironia nos outros. E não se julgue que, por sua temática catastrófica, eles sejam apocalípticos e desesperançados.

"Quem retorna à casa arruinada por um furacão ou uma bomba tem a vida que não viveu a seus pés, talvez melhor e mais autêntica do que a antiga. Toda catástrofe abre os seres, tornando-os essencialmente relacionais. [...] E em meio às lágrimas recolhemos a madeira de nossa nova casa, abrimos os braços ao consolo de um novo amor e sabemos do céu e dos homens o que não sabíamos antes" (Nuno Ramos, pág. 117).

Maurice Blanchot dizia que estamos hoje escrevendo e lendo "sob a vigilância do desastre", mas afinal "o desastre já ultrapassou o perigo" ("L'Écriture du Désastre", 1980). O próprio ato de escrever é um ato vital, um gesto de amor à vida e um voto de confiança nos outros homens, os possíveis leitores. 

E para quem escrevem esses escritores exigentes? Certamente para um número restrito de leitores, tão inteligentes e refinados quanto eles, leitores que só podem aparecer numa parcela educada da população. Eles sabem que não entrarão nas listas dos mais vendidos, como aqueles que satisfazem os anseios de entretenimento dos leitores de romances, esses mesmos tão poucos num país iletrado como o nosso. 
Mas sabem que encontrarão aqueles poucos que lhes interessam, que merecerão alguma resenha (o espaço jornalístico é pouco), algum artigo em revista especializada e até mesmo algum prêmio, já que os júris dos prêmios são compostos por leitores qualificados.

Enquanto muitos ainda se aproveitam das técnicas narrativas do século 19, esses escritores assimilaram as vanguardas do século 20 e desejam, agora, sair da modernidade para encontrar maneiras de dizer mais apropriadas para o século 21.

"Como no século 21 criar algo de novo, se o século 20 tudo inventou? ou ainda: como fazer algo distinto da modernidade sem romper com ela? se rompo com a modernidade, permaneço moderno ou modernista, pois a sua grande linhagem, desde pelo menos os românticos se fundou em gestos de ruptura [...] como criar sem romper nem se alinhar? A única solução talvez seja simplesmente diferir" (Evando Nascimento, pág. 255).

Qual o futuro desse tipo de literatura? Acredito que, aos poucos, encontrará mais leitores que a apreciem, porque leitura é questão de treino. Os leitores que hoje ainda gostam de romances que contam histórias com peripécias e surpresas, vividas por personagens "de carne e osso", foram treinados há muito tempo por escritores que, em sua época, inovavam no modo de narrar: Cervantes, Sterne, Diderot, Edgar Poe, Dickens, Balzac e outros. As convenções por eles introduzidas foram aos poucos naturalizadas.

Não me compete especular sobre o futuro dessa literatura, pois ela será (ou será outra coisa que não se chamará mais literatura) feita pelos escritores presentes e futuros. Ao crítico, cabe acompanhar, tentar compreender, e não vaticinar. Assim, apenas registro, com satisfação, que a literatura brasileira se enriquece com esses escritores exigentes.

Há mais de 20 anos, o cultíssimo poeta-crítico José Paulo Paes advogava "por uma literatura brasileira de entretenimento": "Numa cultura de literatos como a nossa, todos sonham ser Gustave Flaubert ou James Joyce, ninguém se contentaria em ser Alexandre Dumas ou Agatha Christie. Trata-se obviamente de um erro de perspectiva: da massa de leitores destes últimos autores é que surge a elite dos leitores daqueles, e nenhuma cultura integrada pode se dispensar de ter, ao lado de uma vigorosa literatura de proposta, uma não menos vigorosa literatura de entretenimento" ("A Aventura Literária", Companhia das Letras, 1988, pág. 37). Agora que já temos suficiente literatura de entretenimento, nacional e importada, é muito bom que tenhamos, ainda e também, uma literatura de proposta. 

São livros que não dão moleza ao leitor; exigem leitura atenta, releitura, reflexão e uma bagagem razoável de cultura, alta e pop, para partilhar as referências explícitas e implícitas.

Perpassam, nessas enumerações de restos e detritos, tanto a preocupação ecológica quanto a memória de tantas ruínas históricas e culturais sobrevoadas pelo anjo de Klee.

A reflexão implícita nas obras desses escritores é complexa, mas seus textos são despojados, sem pirotecnias verbais como as dos modernistas.

Enquanto muitos ainda se aproveitam das técnicas narrativas do século 19, esses escritores assimilaram as vanguardas do século 20 e desejam, agora, sair da modernidade.

Extraído do sítio da UBE - Seção Goiás

UMA VELA PARA DARIO - Dalton Trevisan

Ilustração: Omar Grassetti
Dario vem apressado, guarda-chuva no braço esquerdo. Assim que dobra a esquina, diminui o passo até parar, encosta-se a uma parede. Por ela escorrega, senta-se na calçada, ainda úmida de chuva. Descansa na pedra o cachimbo. 

Dois ou três passantes à sua volta indagam se não está bem. Dario abre a boca, move os lábios, não se ouve resposta. O senhor gordo, de branco, diz que deve sofrer de ataque. 

Ele reclina-se mais um pouco, estendido na calçada, e o cachimbo apagou. O rapaz de bigode pede aos outros se afastem e o deixem respirar. Abre-lhe o paletó, o colarinho, a gravata e a cinta. Quando lhe tiram os sapatos, Dario rouqueja feio, bolhas de espuma surgem no canto da boca. 

Cada pessoa que chega ergue-se na ponta dos pés, não o pode ver. Os moradores da rua conversam de uma porta a outra, as crianças de pijama acodem à janela. O senhor gordo repete que Dario sentou-se na calçada, soprando a fumaça do cachimbo, encostava o guardachuva na parede. Ma não se vê guarda-chuva ou cachimbo a seu lado. 

A velhinha de cabeça grisalha grita que ele está morrendo. Um grupo o arrasta para o táxi da esquina. Já no carro a metade do corpo, protesta o motorista: quem pagará a corrida? Concordam chamar a ambulância. Dario conduzido de volta e recostado à parede - não tem os sapatos nem o alfinete de pérola na gravata. 

Alguém informa da farmácia na outra rua. Não carregam Dario além da esquina; a farmácia no fim do quarteirão e, além do mais, muito peso. É largado na porta de uma peixaria. Enxame de moscas lhe cobrem o rosto, sem que façam um gesto para espantá-las. 

Ocupado o café próximo pelas pessoas que apreciam o incidente e, agora, comendo e bebendo, gozam as delícias da noite. Dario em sossego e torto no degrau da peixaria, sem o relógio de pulso. 

Um terceiro sugere lhe examinem os papéis, retirados - com vários objetos - de seus bolsos e alinhados sobre a camisa branca. Ficam sabendo do nome, idade, sinal de nascença. O endereço na carteira é de outra cidade. 

Registra-se correria de uns duzentos curiosos que, a essa hora, ocupam toda a rua e as calçadas: é a polícia. O carro negro investe a multidão. Várias pessoas tropeçam no corpo de Dario, pisoteado dezessete vezes. 

O guarda aproxima-se do cadáver, não pode identificá-lo - os bolsos vazios. Resta na mão esquerda a aliança de ouro, que ele próprio - quando vivo - só destacava molhando no sabonete. A polícia decide chamar o rabecão. 

A última boca repete - Ele morreu, ele morreu. A gente começa a se dispersar. Dario levou duas horas para morrer, ninguém acreditava estivesse no fim. Agora, aos que alcançam vê-lo, todo o ar de um defunto. 

Um senhor piedoso dobra o paletó de Dario para lhe apoiar a cabeça. Cruza as mãos no peito. Não consegue fechar olho nem boca, onde a espuma sumiu. Apenas um homem morto e a multidão se espalha, as mesas do café ficam vazias. Na janela alguns moradores com almofadas para descansar os cotovelos. 

Um menino de cor e descalço vem com uma vela, que acende ao lado do cadáver. Parece morto há muitos anos, quase o retrato de um morto desbotado pela chuva. 

Fecham-se uma a uma as janelas. Três horas depois, lá está Dario à espera do rabecão. A cabeça agora na pedra, sem o paletó. E o dedo sem a aliança. O toco de vela apaga-se às primeiras gotas da chuva, que volta a cair.

Conto publicado no livro 33 Contos Escolhidos, Ed. Record.

Extraído do sítio da Revista Escola

2 de abril de 2012

SINAL DOS TEMPOS: TRADIÇÃO DO 1º DE ABRIL ESTÁ SUMINDO NA SOCIEDADE - Ralf Gödde

Há varias suposições sobre a origem do 1° de abril. O fato é que cada vez menos as pessoas estão fazendo brincadeiras umas com as outras. Praticamente só a mídia está mantendo a tradição do Dia da Mentira.

Sociedade tem menos tempo para brincadeiras
Ainda não se sabe ao certo quem contou a primeira mentira na história do 1° de abril. A brincadeira anual poderia remontar à época dos antigos romanos, que comemoravam na data uma grande festa em homenagem à deusa Vênus. Orgias e diversos tipos de brincadeiras faziam parte da celebração.

Segundo outra explicação, a decisão de 1530 da cidade alemã de Augsburg de unificar a moeda estatal teria exercido um papel importante para o dia da mentira. A data escolhida para a unificação da moeda foi o dia 1° de abril.

No entanto, isso não aconteceu nessa data e muitos especuladores perderam dinheiro e foram acolhidos com gozação e deboche.

Reforma do calendário

Porém, a explicação mais plausível é que o rei francês Carlos 9° tenha iniciado a brincadeira do dia 1° de abril. Com a reforma do calendário gregoriano, ele estabeleceu em 1564 que o Ano Novo, até então comemorado em 1° de abril, passasse a ser comemorado em 1° de janeiro, o que não chegou aos ouvidos de muitas pessoas da época. No 1° de abril, os que sabiam zombavam daqueles que comemoravam o Ano Novo na data errada.

No início, as brincadeiras eram totalmente diferentes, sendo alteradas no decorrer da história. Nos séculos 17 e 18, as regras sociais tinham cada vez mais importância para orientar as travessuras. Dessa forma, os adultos podiam zombar das crianças, mas o contrário não era possível.

Mídias que criam histórias

Camponesa colhe espaguete em Tessino
Assim como muitos costumes, as piadas de abril também se transformaram ao longo do tempo. "Nossa noção de humor foi em grande parte formada pelas mídias. Nós assistimos piadas na televisão ou damos risadas de brincadeiras de rádio e temos aí uma elite funcional que, no plano midiático, está sempre recriando as piadas de abril", disse o etnólogo Gunther Hirschfelder.

E assim, nós somos enganados quase que apenas pela mídia, com notícias inventadas e histórias falsas. As mentiras da BBC são legendárias.

Em 1° de abril de 1957, a emissora britânica informou sobre a colheita de espaguete no cantão suíço de Tessino. Nos seus televisores, os espectadores assistiram pasmados aos camponeses suíços colherem das árvores longos espaguetes.

Piadas clássicas tornam-se raridades

No dia a dia, as piadas tornaram-se raras. Para Gunther Hirschfelder, a culpa é do aumento da pressão de trabalho sobre as pessoas. Para brincadeiras, não sobra tempo. Hoje, simplesmente não há mais espaço para brincadeiras, e isso não poderia ser diferente no dia da mentira.

"Atualmente, em nossa sociedade, grande parte dos contatos são realizados em um espaço virtual, através da internet ou do telefone, e as piadas de abril quase não são mais possíveis, pois dependem do contato direto. Isso requer uma situação real e não digital", explicou Hirschfelder.

Apesar do embaraço, alguns até podem sentir falta das brincadeiras e desejar reviver os costumes do dia da mentira. Afinal, quando alguém faz uma piada conosco, quer também dizer que nos dá atenção. 

Extraído do sítio Deutsche Welle

1 de abril de 2012

PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DAS FLORES - Geraldo Vandré


Caminhando e cantando e seguindo a canção
Somos todos iguais braços dados ou não
Nas escolas nas ruas, campos, construções
Caminhando e cantando e seguindo a canção

Vem, vamos embora, que esperar não é saber,
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer

Vem, vamos embora, que esperar não é saber,
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer

Pelos campos há fome em grandes plantações
Pelas ruas marchando indecisos cordões
Ainda fazem da flor seu mais forte refrão
E acreditam nas flores vencendo o canhão

Vem, vamos embora, que esperar não é saber,
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.

Há soldados armados, amados ou não
Quase todos perdidos de armas na mão
Nos quartéis lhes ensinam uma antiga lição
De morrer pela pátria e viver sem razão

Vem, vamos embora, que esperar não é saber,
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.

Vem, vamos embora, que esperar não é saber,
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.

Nas escolas, nas ruas, campos, construções
Somos todos soldados, armados ou não
Caminhando e cantando e seguindo a canção
Somos todos iguais braços dados ou não
Os amores na mente, as flores no chão
A certeza na frente, a história na mão
Caminhando e cantando e seguindo a canção
Aprendendo e ensinando uma nova lição

Vem, vamos embora, que esperar não é saber,
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.

Vem, vamos embora, que esperar não é saber,
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.



Extraído do YouTube

NÃO HÁ RESPOSTAS, APENAS ENCANTAMENTO - Nei Duclós

A literatura voltada para si mesma, um escritor personagem embutido em um narrador, o tempo perdido resgatado pela transparência da relação entre autor e leitor: eis Shosha, muito além de uma história passada em Varsóvia no princípio dos anos 1930. É o Prêmio Nobel de Literatura de 1978, Isaac Bashevis Singer, no esplendor da sua arte.


Todo romance é sobre literatura. Todos os que contam, pelo menos, como nos lembra “Sho­sha”, de Isaac Bashevis Singer, lançado originalmente em 1978, o mesmo ano em que o autor ganhou o Prêmio Nobel. A linhagem é conhecida. “O Qui­xote” que se debruça sobre si mesmo na segunda parte do texto de Cervantes é o exemplo canônico da ficção com autoconsciência. O jogo não tem fim e chegou ao auge com as experiências do século 20, de James Joyce a Guimarães Rosa.

Mas, longe de ameaçar a sobrevivência da arte, monumentos da conflagração literária como “Ulisses” e “Grande Sertão” be­beram na fonte dos clássicos, sinal de que a criação literária, há tempos, alimenta-se da reflexão sobre o que se escreve e dela faz sua principal trama. Nas “Mil e Uma Noi­tes”, o núcleo do drama não são as histórias contadas por Sherazade, mas sim o fato de contá-las, o que representava a anulação da pena de morte decretada pelo rei. Em Rosa, o livro é o confronto entre o contador e o ouvinte fictício. O objetivo é nobre. A arquitetura da narração, por mirar-se no espelho, torna-se real, só para contaminar os personagens. Riobaldo e Diadorim tornam-se de carne e osso, enquanto acontece o reverso no projeto, pois não existe nada mais inventado do que o doutor que chega de longe para escutar o velho jagunço. Esse é o segredo do romance, que jamais se entrega ao que quer contar, antes denuncia a sua impossibilidade. Ao desistir (sem se entregar) ele consegue atingir a essência da produção de um escritor de verdade.

Não há disfarce maior do que o romancista confessar que é apenas um contador de histórias. A crítica costuma embarcar nessa canoa, achando que o inventor deixou para os outros o principal da obra. Não é preciso ler um ensaio para conhecer as intenções de um romancista e a certeza que ele tem de não conseguir enganar ninguém com seus truques. A não ser que desvie a atenção do leitor para as paragens do mural que constrói, até levá-lo pela mão para ver o que existe atrás da parede pintada (quando acontece, então, a revelação). Quem conta uma história diz como e por que conta, pois todo escritor aspira à eternidade, e não há alma imortal na literatura que se enrede na própria teia. O escritor sabe: quando o livro acabar e a vítima acordar de seu devaneio, e tardiamente descobrir a cama-de-gato preparada, voltará as costas para a obra (essa é a origem dos livros datados e esquecidos). Mas se o próprio livro disser do que se trata, então a fidelidade é absoluta. Amor ou amizade precisam da verdade, e a verdade são letras sobre papel. À parte isso, “Moby Dick” nos espera para nos engolir.

As ciências da linguagem fizeram uma abordagem dúbia sobre essa vocação, pois descobrir o truque implicava, muitas vezes, dissecar a cobaia. O romance seguiu em frente graças à insistência do gênio de autores como Jorge Luis Borges, que reinstaurou a magia do livro dentro do livro, do autor fictício, do narrador que terceiriza a autoria para deflagrar o eterno retorno do maior dos encantamentos, o da leitura. No fundo, os livros inventados dentro dos livros reais são o que pensam ser a literatura, enquanto a própria vai sendo desenrolada, como um novelo de surpresas, enquanto avançamos nas páginas.

Singer, em “Shosha”, tem a seu favor um tempo específico, a Varsóvia dos anos 1930, antes da invasão de Hitler. Uma cultura que se presta a todos os equívocos, a dos judeus, e que em “Shosha” revela toda a grandeza da sua universalidade, já que nada escapa ao olho clínico e crítico dos próprios judeus, não só sobre Deus, o mundo e o universo, mas sobre os limites da vivência inspirada nos textos sagrados. Com esses instrumentos, Singer nos brinda com o pesadelo do escritor que tentou viver de seu ofício enquanto o mundo desmoronava.

O umbigo desse mundo é a Rua Kro­chmalna, onde o narrador, inventado, passou a infância. A metáfora dessa época é a pequena Shosha, o espírito infantil que se recusou a crescer e a amadurecer e que funciona como um ímã para o escritor, que tenta escapar da ética (que num tempo de chacais é a maior das maldições, mas a única que leva à grandeza). A obra inverossímil, que sustenta as aspirações do escritor-personagem, é uma peça iídiche, encomendada por um milionário americano, casado com uma artista judia e desencantada. Não são as intenções do autor que fazem fracassar o projeto, é o seu destino. O embate entre o que está escrito e o livre-arbítrio é a linha que costura o livro. Conseguirá o escritor o sucesso para escapar da ameaça de invasão de Hitler? Poderá mentir e fazer concessões o suficiente para tornar-se um profissional do ramo? Ou terá que arrostar seu pecado original (a vocação legítima) como um fardo, como quem carrega uma criança doente nos braços, com a qual assume núpcias criticadas por todos?

Singer tenta nos seduzir com seu jogo de infinitas possibilidades para o jovem escritor que tem estrela e pode sair rico da empreitada. Mas nos carrega de volta para a rua da infância, onde tudo está condenado, não apenas os mortos que assombram os sótãos, mas os vivos que aguardam o Holocausto. A mes­tria do autor, o verdadeiro, constrói não só uma rua, inesquecível, mas uma cidade, impressionante pela diversidade, e um mundo, em colapso evidente. Deveríamos já conhecer essa história, mas é como se fosse contada pela primeira vez. O escritor fictício derrama-se em literatura verdadeira enquanto tenta compor a peça ditada pelos interesses financeiros. Um outro romance irreal entra pelas frestas da sua escrivaninha como um fantasma que se desdobra em mistérios.

Poderia ser uma história sem surpresas, mas essa é a parte principal da leitura. O morto que continuou dando comida aos pobres, a irmã defunta que visita a casa materna, a neve seca iluminada em meio ao ermo de uma viagem de trem convivem com seus opostos: os prazeres com muitas mulheres, os restaurantes de mesas fartas. As limitações religiosas chocam-se com o deboche, a modernidade penetra as escrituras, o mal rola na cama com a inocência.

Ao assumir suas origens, o escritor que quase caiu na tentação do dólar recompõe a humanidade que perdeu, mas descobre que a vida são páginas de um livro que jamais voltam para trás. As cenas continuam lá, escritas, mas não podem ser revisitadas. O universo simultâneo cerca Singer com suas garras de ferro e só há um jeito de escapar de tantas fronteiras: o deixar-se levar pelo inevitável e assim descobrir que não há respostas quando a consciência está desperta.

O que fica não são as perguntas, mas um livro que abraçamos porque não mente. E que deveria ser sobre uma cidade ainda viva onde podemos aportar. Mas sabemos que jamais chegaremos à Varsóvia re­criada por Singer. Ele nos diz com todas as palavras que isso é impossível. A única coisa que nos resta é entender o poder da literatura, a que serve a refeição depois de nos mostrar a feira. E que acende a vela sem chama suficiente para resistir ao sopro misterioso do divino.

* Nei Duclós é escritor e jornalista.

Trecho do livro Shosha, de Isaac Bashevis Singer

Fui criado em três línguas mortas — hebraico, aramaico e iídiche (alguns não consideram esta última uma língua, absolutamente) — e numa cultura que se desenvolveu na Babilônia: o Talmude. Acheder em que eu estudava era uma sala na qual o professor comia e dormia e sua mulher cozinhava. Ali não estudei nada de aritmética, geografia, física, química ou história, mas sim as leis que regem o ovo botado num feriado e os sacrifícios em um templo destruído há dois mil anos. Embora meus ancestrais tenham se estabelecido na Polônia uns seiscentos ou setecentos anos antes de eu nascer, só aprendi algumas palavras da língua polonesa. Vivíamos em Varsóvia, na rua Krochmalna, que bem podia ser chamada de gueto. Na verdade, os judeus da Polônia ocupada pelos russos eram livres para viver onde quisessem. Eu era um anacronismo em todos os sentidos, mas não sabia disso, assim como não sabia que minha amizade com Shosha, a filha de nossa vizinha Bashele e seu marido, Zelig, tivesse qualquer coisa a ver com amor. Romances aconteciam entre rapazes mundanos que raspavam a barba e fumavam cigarros no shabat e garotas que usavam blusas de mangas curtas e vestidos decotados. Essas loucuras não tocavam um menino de cheder de sete ou oito anos, pertencente a uma casa hassídica.

Mesmo assim, sentia atração por Shosha e sempre que podia passava pelo escuro corredor que havia entre o nosso apartamento e o de Bashele. Shosha tinha mais ou menos a minha idade, mas enquanto eu era considerado um prodígio, sabia várias páginas do Gemara e capítulos do Mishná de cor, era capaz de escrever em iídiche assim como em hebraico e já havia começado a ponderar sobre Deus, a providência, tem­po, espaço e infinito, Sho­sha era considerada um pouco boba em nosso edifício, o nú­mero 10. Aos nove anos, ela falava como uma criança de seis. Ficou dois anos para trás na escola pública onde seus pais a matricularam. Shosha tinha cabelo loiro que caía até os ombros quando ela soltava as tranças. Seus olhos eram azuis, o nariz reto, o pescoço longo. Ela puxou à mãe, conhecida pela beleza na juventude. A irmã dela, Yppe, dois anos mais nova que Shosha, era mo­rena, como o pai. Usava um aparelho na perna esquerda e mancava. Teibele, a mais nova, ainda era bebê quando comecei a visitar a casa de Bashele. Ti­nha acabado de ser desmamada e dormia em um berço.

Um dia, Shosha voltou da escola chorando — havia sido dis­pensada pelo professor, com uma carta dizendo que lá não havia lugar para ela. Trouxe dois livros para casa — um em russo, um em polonês —, além de cadernos de exercícios e uma caixa com canetas e lápis. Não tinha aprendido nada de russo, mas conseguia ler polonês bem devagar. O livro polonês tinha as figuras de uma vaca, um galo, um gato, um cachorro, uma le­bre e uma cegonha dando de comer aos filhotes recém-nascidos em seu ninho. Shosha sabia de cor alguns poemas do livro.

O pai dela, Zelig, trabalhava em uma casa de couros. Saía de casa de manhã cedo e voltava tarde da noite. A barba preta de­le era sempre curta e redonda e os hassidistas do nosso prédio diziam que ele aparava a barba — uma violação à prática hassídica. Usava uma capa curta, colarinho duro, gravata e sapatos de pelica com arremate de borracha. Aos sábados, ia à sinagoga frequentada por comerciantes e trabalhadores.

Embora Bashele usasse uma peruca, não raspava a cabeça como minha mãe, esposa do rabino Menahem Mendl Greidinger. Mamãe sempre me dizia que era errado um filho de rabino, estudante do Gemara, ser companheiro de uma menina, e além disso frequentar uma casa comum como aquela. Ela me alertava para nunca comer nada lá, uma vez que Bashele podia preparar carne que não fosse estritamente kosher. Os Grei­dinger vinham de gerações de rabinos, autores de livros sagrados, enquanto o pai de Bashele era um peleteiro e o marido dela havia servido no Exército russo antes de se casarem. As crianças de nossa casa imitavam a fala de Shosha. Ela cometia erros bobos no iídiche; começava uma frase e raramente terminava. Quando era mandada ao armazém para comprar comida, perdia o dinheiro. Os vizinhos de Bashele diziam que ela devia levar Shosha ao médico porque o cérebro da menina parecia não estar se desenvolvendo, mas Bashele não tinha nem tempo, nem dinheiro para médicos. E como poderiam eles ajudar? A própria Bashele era tão ingênua como uma criança. Michael, o sapateiro, dizia que era possível fazê-la acreditar que estava grávida de um gatinho e que uma vaca havia voado por cima do telhado e botado ovos dourados.

Como o apartamento de Bashele era diferente do nosso! Não tínhamos quase nenhuma mobília. As paredes eram forradas de livros do chão ao teto. Meu irmão, Moishe, e eu não tínhamos brinquedos. Brin­cávamos com os volumes de meu pai, com uma caneta quebrada, um frasco de tinta vazio, pedaços de papel. Nossa sala de estar não tinha sofá, nem poltronas estofadas, nem arca de gavetas — apenas uma arca com os rolos, uma mesa comprida e bancos. As pessoas rezavam ali, no shabat. Meu pai passava o dia inteiro na bancada de leitura e consultava livros grandes que ficavam abertos em uma grande pilha. Ele escrevia comentários, tentando responder às contradições que um comentador encontrava na obra de outro. Ele era baixo, tinha a barba vermelha e os olhos azuis, fumava um ca­chimbo comprido. Desde que me lembro, sempre o ouvi repetir a frase “É proibido”. Tudo que eu queria fazer era transgressão. Não podia desenhar nem pintar uma pessoa — isso violava o Segundo Mandamento. Não podia dizer uma palavra contra outro menino — era calúnia. Não podia rir de ninguém — era caçoada. Não podia inventar uma história — isso representava uma mentira.

Nos shabats, não podíamos nem tocar em uma vela, uma moeda, nenhuma das coisas com que nos divertíssemos. Papai nos lembrava constantemente de que este mundo era um corredor no qual era preciso estudar a Torá e realizar feitos virtuosos, de forma que, quando se fosse para o palácio que era o outro mun­do, houvesse recompensas à espera de serem colhidas. Ele costumava dizer: “Quanto tempo se vive, afinal? Você mal se vira e tudo acabou. Quando uma pessoa peca, seus pecados se transformam em diabos, demônios, diabretes. Depois da morte, eles perseguem o corpo e o arrastam por florestas e desertos esquecidos onde as pessoas não vão e nem o gado pisa”.

Mamãe às vezes se zangava com papai por nos falar coisas tão deprimentes, mas ela própria era moralizadora. Era magra, com rosto encovado, queixo pontudo e grandes olhos cinzentos que expressavam, ao mesmo tempo, dureza e melancolia. Meus pais haviam perdido três filhos antes de eu nascer.

Extraído do sítio do Jornal Opção

UMA GALINHA - Clarice Lispector

Ilustração: Ana Raquel

Era uma galinha de domingo. Ainda viva porque não passava de nove horas da manhã. 

Parecia calma. Desde sábado encolhera-se num canto da cozinha. Não olhava para ninguém, ninguém olhava para ela. Mesmo quando a escolheram, apalpando sua intimidade com indiferença, não souberam dizer se era gorda ou magra. Nunca se adivinharia nela um anseio. 

Foi pois uma surpresa quando a viram abrir as asas de curto vôo, inchar o peito e, em dois ou três lances, alcançar a murada do terraço. Um instante ainda vacilou - o tempo da cozinheira dar um grito - e em breve estava no terraço do vizinho, de onde, em outro vôo desajeitado, alcançou um telhado. Lá ficou em adorno deslocado, hesitando ora num, ora noutro pé. A família foi chamada com urgência e consternada viu o almoço junto de uma chaminé. O dono da casa, lembrando-se da dupla necessidade de fazer esporadicamente algum esporte e de almoçar, vestiu radiante um calção de banho e resolveu seguir o itinerário da galinha: em pulos cautelosos alcançou o telhado onde esta, hesitante e trêmula, escolhia com urgência outro rumo. A perseguição tornou-se mais intensa. De telhado a telhado foi percorrido mais de um quarteirão da rua. Pouco afeita a uma luta mais selvagem pela vida, a galinha tinha que decidir por si mesma os caminhos a tomar, sem nenhum auxílio de sua raça. O rapaz, porém, era um caçador adormecido. E por mais ínfima que fosse a presa o grito de conquista havia soado. 

Sozinha no mundo, sem pai nem mãe, ela corria, arfava, muda, concentrada. Às vezes, na fuga, pairava ofegante num beiral de telhado e enquanto o rapaz galgava outros com dificuldade tinha tempo de se refazer por um momento. E então parecia tão livre. 

Estúpida, tímida e livre. Não vitoriosa como seria um galo em fuga. Que é que havia nas suas vísceras que fazia dela um ser? A galinha é um ser. É verdade que não se poderia contar com ela para nada. Nem ela própria contava consigo, como o galo crê na sua crista. Sua única vantagem é que havia tantas galinhas que morrendo uma surgiria no mesmo instante outra tão igual como se fora a mesma. 

Afinal, numa das vezes em que parou para gozar sua fuga, o rapaz alcançou-a. Entre gritos e penas, ela foi presa. Em seguida carregada em triunfo por uma asa através das telhas e pousada no chão da cozinha com certa violência. Ainda tonta, sacudiu-se um pouco, em cacarejos roucos e indecisos. Foi então que aconteceu. De pura afobação a galinha pôs um ovo. Surpreendida, exausta. Talvez fosse prematuro. Mas logo depois, nascida que fora para a maternidade, parecia uma velha mãe habituada. Sentou-se sobre o ovo e assim ficou, respirando, abotoando e desabotoando os olhos. Seu coração, tão pequeno num prato, solevava e abaixava as penas, enchendo de tepidez aquilo que nunca passaria de um ovo. Só a menina estava perto e assistiu a tudo estarrecida. Mal porém conseguiu desvencilhar-se do acontecimento, despregou-se do chão e saiu aos gritos: 

- Mamãe, mamãe, não mate mais a galinha, ela pôs um ovo! ela quer o nosso bem! 

Todos correram de novo à cozinha e rodearam mudos a jovem parturiente. Esquentando seu filho, esta não era nem suave nem arisca, nem alegre, nem triste, não era nada, era uma galinha. O que não sugeria nenhum sentimento especial. O pai, a mãe e a filha olhavam já há algum tempo, sem propriamente um pensamento qualquer. Nunca ninguém acariciou uma cabeça de galinha. O pai afinal decidiu-se com certa brusquidão: 

- Se você mandar matar esta galinha nunca mais comerei galinha na minha vida! 

- Eu também! - jurou a menina com ardor. A mãe, cansada, deu de ombros. 

Inconsciente da vida que lhe fora entregue, a galinha passou a morar com a família. A menina, de volta do colégio, jogava a pasta longe sem interromper a corrida para a cozinha. O pai de vez em quando ainda se lembrava: "E dizer que a obriguei a correr naquele estado!" A galinha tornara-se a rainha da casa. Todos, menos ela, o sabiam. Continuou entre a cozinha e o terraço dos fundos, usando suas duas capacidades: a de apatia e a do sobressalto. 

Mas, quando todos estavam quietos na casa e pareciam tê-la esquecido, enchia-se de uma pequena coragem, resquícios da grande fuga - e circulava pelo ladrilho, o corpo avançando atrás da cabeça, pausado como num campo, embora a pequena cabeça a traísse: mexendo-se rápida e vibrátil, com o velho susto de sua espécie já mecanizado. 

Uma vez ou outra, sempre mais raramente, lembrava de novo a galinha que se recortara contra o ar à beira do telhado, prestes a anunciar. Nesses momentos enchia os pulmões com o ar impuro da cozinha e, se fosse dado às fêmeas cantar, ela não cantaria mas ficaria muito mais contente. Embora nem nesses instantes a expressão de sua vazia cabeça se alterasse. Na fuga, no descanso, quando deu à luz ou bicando milho - era uma cabeça de galinha, a mesma que fora desenhada no começo dos séculos. 

Até que um dia mataram-na, comeram-na e passaram-se anos.

Conto publicado no livro Laços de Família, Ed. Rocco.

Extraído do sítio Revista Escola