25 de setembro de 2012

A HELOÍSA DE ROUSSEAU - Luis Olímpio Ferraz Melo

Ilustração de "Júlia ou A Nova Heloísa" - Imagem em Domínio Público, retirada de Wikimedia.org (blog O Caminhante Solitário)  
Nenhum outro romance provocou tanto furor e inundações de lágrimas nos leitores daquela época como, "A nova Heloísa", de Jean-Jacques Rousseau. Lançado em 1761, "A nova Heloísa", tornou-se o livro mais vendido no século XVIII e projetou Rousseau no cenário literário com esse romance baseado em cartas escritas durante 13 anos, de 1732-45. Rousseau inaugurou um novo estilo de leitura que foi considerado uma revolução na literatura, assim como Montaigne criou um novo gênero literário no século XVI, os Ensaios, Rousseau trouxe o leitor de volta para vivenciar a leitura - Rousseau era obcecado pelo tema "leitura" e em, "Emile", sugeriu que a criança aprendesse a ler tarde: "quando estivesse madura para o aprendizado".

A procura pela "A nova Heloisa" rendeu setenta edições publicadas antes de 1800, mas mesmo assim, os livreiros ainda tinham que alugar livros por dia e até por hora para suprir a demanda da "A nova Heloísa" - em 1880 o livro chegou a 100ª edição. No primeiro prefácio de "A nova Heloisa", Rousseau diz: "Teatros são necessários para as grandes cidades e os romances para os povos corruptos". À primeira vista, foi uma contradição, porém, Rousseau tentou explicar, sem sucesso, nos outros prefácios: "Este romance não é um romance", pois dizia que era uma coleção de cartas entre dois amantes que viviam numa cidadezinha ao sopé dos Alpes e que ele seria apenas o editor. Naquela época, era comum os romances surgirem de forma anônima devido ao puritanismo e ao regime e Rousseau assumiu a autoria de "A nova Heloísa" que foi considerado um texto sentimentalista e pré-romântico. Em suas "Confissões", o brilhante Rousseau reconhece suas falhas morais e tenta explicar o abandono dos seus cinco filhos num orfanato alegando que seriam educados melhores do que se estivessem com ele e a sua esposa, Thérèse Levasseur - afinal, ninguém é perfeito...

Em fevereiro de 1777, Rousseau publicou uma "carta aberta" pedindo socorro financeiro em troca dos direitos autorais de seus manuscritos publicados e inéditos, porém, após a morte de Rousseau, muitos textos anônimos foram lhe atribuído autoria sem que haja prova da autenticidade. Rousseau desejou em, "A nova Heloísa" prestigiar os relacionamentos afetivos verdadeiros dando-lhes corpo e alma...

* Luís Olímpio Ferraz Melo é Psicanalista

Extraído do sítio Diário do Nordeste

ESCRITORES PARAENSES LANÇAM OBRAS NA FEIRA DO LIVRO - Camila Barros

Sessão de autógrafos do autor de “Arrastado pela correnteza”, Roberto Carvalho de Faro.
A XVI Feira Pan-Amazônica do Livro não somente valoriza a literatura internacional, mas também a produção literária do estado. Neste domingo (23), foram lançados dois novos títulos paraenses. São eles: o imperdível romance “Arrastado pela Correnteza”, de autoria de Roberto Carvalho de Faro e “Letícia Coça-coça”, da escritora Heliana Barriga. A iniciativa é da Academia Paraense de Letras (APL) e da Editora Paka-Tatu.

No Estande da Academia Paraense de Letras, o autor de “Arrastado pela correnteza”, Roberto Carvalho de Faro, atendeu o público para autógrafos e comentou sobre a iniciativa da APL. “Ter um espaço da Academia na feira é sempre interessante. Chegar aqui com mais um lançamento é, claro, muito bom, pois mostra a valorização local da literatura produzida pelos escritores paraenses”. No livro de Roberto Carvalho, o leitor se depara com a personagem central, transpirando mistério, surgida num cenário amazônico de tanta nitidez, que somente um hábil desenhista, poderia pintar com tal poder de minúcias.

Outro lançamento que aconteceu na manhã da Feira foi o livro infantil, que acompanha um CD, “Letícia Coça-coça”, de Heliana Barriga. A história em CD que já existia há 16 anos ganhou uma versão literária, com ilustrações de Nairama Barriga, filha da escritora. Heliana tem diversas obras voltadas para o público infantil, e além de “Letícia Coça-coça”, a autora traz para a Feira do Livro vários relançamentos, com destaque para o CD de histórias “Se eu fosse você, eu brincava”, o livro a “A filha do Jabuti” e mais outros sete títulos. “Os CDs são histórias cantadas, envolvendo a literatura com a música”, explica Heliana.

Extraído do sítio Agência Pará de Notícias

ACAMPAMENTO FARROUPILHA FESTEJA A CULTURA GAÚCHA EM PORTO ALEGRE - Cris Gutkoski

O Parque da Harmonia, onde se realiza o Acampamento Farroupilha, ocupa área de cerca de 30 hectares na orla do Guaíba, na região central de Porto Alegre Francielle
A cada setembro, a vida rústica do campo, com seus galpões de madeira e churrasco ao ar livre, ressurge no centro de Porto Alegre, no meio das toneladas de vidro e concreto armado dos prédios públicos. O Acampamento Farroupilha é um dos principais eventos turísticos do Estado e recebe dezenas de milhares de visitantes por dia no Parque da Harmonia, uma área verde na orla do Guaíba onde 375 grupos de acampados (os chamados piquetes) festejam as tradições gaúchas em atividades como o preparo do chimarrão, o encilhamento dos cavalos, as músicas e danças tradicionalistas.

Visitante vestida de prenda circula no Acampamento Farroupilha, uma festa que celebra as tradições gaúchas em Porto Alegre Cris Gutkoski/UOL
A entrada é franca, os portões ficam abertos da manhã à noite, até o dia 20 de setembro. Na pequena cidade montada dentro da capital gaúcha, circulam os moradores dos galpões (desmontados ao final do evento) e as visitas. Cada galpão abriga um piquete, um grupo de amigos, parentes ou colegas de trabalho, que recebe os turistas com chimarrão grátis e atividades programadas durante o dia, em horários específicos. Pode ser uma oficina de culinária campeira, uma palestra sobre flora e fauna locais ou dicas sobre como jogar o truco.

Alguns piquetes têm nomes curiosos: Xiru do Coice, Tropeiros da Lua, Mal Domado, Cuiudos Caborteiros, Bugio Roncador, Os Pá Nelas, Potro Sem Dono, Mangaço, Potro Xucro. À noite, a movimentação aumenta com os bailes no Centro de Eventos e os espetáculos com gaiteiros e dançarinos no palco principal. Como nas milongas de tango em Buenos Aires, os novatos não precisam sair dançando os passos certos do vanerão, do fandango, do xote. Ficar assistindo já tem a sua graça.

A oferta gastronômica é vasta, com bares e restaurantes da praça de alimentação funcionando das 7h à meia-noite. Estão lá os tradicionais churrasco e arroz-de-carreteiro e também especialidades como a carne de costela assada ao longo de 12 horas. O café da manhã campeiro, servido numa padaria, inclui lingüiça, pernil, filé de frango, omelete, suco de uva, bolos e tortas ao final. Um lanche dos mais populares é o Entrevero, com pão de hambúrger e pedaços de cinco ou seis tipos de carne dentro, mais tomate e cebola.

No linguajar regional, “entrevero” significa confusão, choque de forças. O sanduíche Entrevero já tem variações pelo país: nas festas da zona rural em São Paulo, por exemplo, ele ganha queijo. Em Lages, em Santa Catarina, acrescenta-se pinhão e pimentão.

Com este nome, o Acampamento Farroupilha existe na mesma área de Porto Alegre desde 1987, mas a história dos acampados com trajes típicos (botas, bombachas, chapéu e lenço vermelho no pescoço para os homens, vestidos longos de prenda para as mulheres) é anterior. A mobilização antecipa as comemorações da Revolução Farroupilha, cuja data oficial é 20 de setembro. O conflito durou 10 anos, de 1835 a 1845, e foi o mais longo do Brasil Imperial. Neste ano, o desfile temático da Semana Farroupilha, na avenida Beira-Rio, ao lado do Acampamento, acontece na noite de quarta-feira, 19 de setembro. São nove carros alegóricos e cerca de 1,5 mil participantes, boa parte deles desfilando com cavalos.

A cavalgada de abertura do Acampamento Farroupilha na edição de 2012, em 7 de setembro
Em anos recentes, os cavalos circulavam livremente pelas ruas de terra (ou lama, na chuva) do Parque da Harmonia. Mas tiveram a sua presença reduzida, por questões de segurança e higiene. Símbolo da cultura gaúcha e elemento associado à liberdade da vida no campo, o cavalo agora pode ser visto nas áreas especiais do Rodeio Crioulo e da Fazendinha, ou em piquetes como o Querência do Peão, que oferece aos visitantes uma oficina de encilhamento do animal.

Encilhar é “vestir” apropriadamente o cavalo antes da montaria, e as roupas e apetrechos são muitos. Antes de tudo, escova-se o pelo do bicho. O primeiro dos panos e couros a ser colocado sobre o lombo é a xerga, um tecido macio, que ajuda a segurar o suor do cavalo. Segue-se a carona, uma manta mais grossa, depois a sela de couro, o travessão para prender a sela e a cincha, que passa por baixo da barriga do cavalo. Por fim, o pelego que ajeita as pernas. E os freios na boca, e o laço na mão.

Seres urbanos que não possuem cavalos de estimação podem pelo menos levar de recordação um pelego fofo, de lã de ovelha, comprado nas lojas de artesanato do Acampamento Farroupilha.

Serviço:

Acampamento Farroupilha: Parque da Harmonia, av. José Loureiro da Silva, 255, em Porto Alegre
Tel: (51) 3289-8160

Transmissão pela Internet: Piquete Rodrigo Cambará

FESTIVAL DO RIO SERÁ AMPLIADO PARA DEMOCRATIZAR O ACESSO AO CINEMA - Akemi Nitahara


Rio de Janeiro – Considerado pelos organizadores como o principal evento de cinema na América Latina, o Festival do Rio vai exibir na edição deste ano cerca de 400 filmes de 60 países, entre os dias 27 de setembro e 11 de outubro, com programação espalhada por toda a cidade.

A expectativa da organização é superar os 250 mil expectadores do ano passado. Os filmes serão exibidos em 30 locais entre cinemas, arenas e praças. Na noite de abertura, só para convidados no Cine Odeon, na Cinelândia, será mostrado o longa Gonzaga – De Pai para Filho, de Breno Silveira, que tem estreia no circuito comercial prevista para 26 de outubro.

O festival conta com 20 mostras. Além das já conhecidas Panorama do Cinema Mundial, Expectativa 2012,Première Brasil, Première Latina, Midnight, Midnight Terror, Midnight Música, Gay, Fronteiras, Dox, Filme Doc,Geração, Itinerários Únicos e Meio Ambiente, o festival fará homenagem aos diretores Alberto Cavalcanti, John Carpenter, Manoel de Oliveira e João Pedro Rodrigues. Também haverá espaço reservado para produções do Reino Unido e de Portugal, além de uma mostra especial sobre surf.

O diretor-presidente da RioFilmes, empresa da prefeitura patrocinadora do evento, ao lado da Petrobras, Sérgio Sá Leitão, destaca a importância do festival para a capital fluminense.

“Ele ajuda a posicionar o Rio como o principal centro de cinema e de audiovisual do continente, é também muito importante para o desenvolvimento da indústria audiovisual carioca, porque traz uma série de profissionais, executivos, do exterior, tem uma série de workshops, debates, cursos, oficinas. Ele é muito importante também do ponto de vista da formação, da capacitação e, finalmente, tem um impacto grande na cidade em termos de democratização do acesso. Ele permite que a população do Rio possa ver 400 dos principais filmes brasileiros e estrangeiros, os melhores filmes dos festivais de Veneza, de Cannes, de Berlim”.

O crescimento da participação das produções nacionais, foi outro ponto destacado por Sá Leitão na edição deste ano do festival. “No ano passado foram cerca de 50 filmes brasileiros, entre curtas e longas, e este ano nós temos mais de 70 filmes”, disse. “Acho que vai ser uma oportunidade pra gente tirar o pulso de como está a produção cinematográfica brasileira para 2013”, completou.

Ele explicou que um dos objetivos deste ano é democratizar o acesso ao cinema, levando o festival a locais com pouca tradição em eventos desse tipo, indo para outros lugares além da zona sul e o centro da cidade.

“Este ano teremos sessões do festival na zona norte, na zona oeste. Teremos, por exemplo, uma mostra no CineCarioca Nova Brasília, no Complexo do Alemão. Teremos uma mostra no CineCarioca Méier, que fica no Imperator Centro Cultural João Nogueira. Teremos filmes no Ponto Cine de Guadalupe, nas arenas cariocas da Penha e da Pavuna. Enfim, o festival, ele realmente se espalhou pela cidade e acho que isso é muito positivo”.

De acordo com Sá Leitão, haverá também sessões gratuitas ao ar livre na praia de Copacabana. O destaque será a exibição, no dia 4 de outubro, do longa The Pleasure Garden, filme mudo de 1925 de Alfred Hitchcock, em versão restaurada e com acompanhamento ao vivo da Orquestra Sinfônica Brasileira Jovem.

O Festival do Rio traz também uma área de negócios, a RioMarket, com workshops, oficinas, palestras e seminários que dão aos produtores brasileiros a oportunidade de trocar experiência com técnicos estrangeiros em áreas como 3D, som e digitalização de filmes. As atividades serão no Armazém 6 do Cais do Porto, que também recebe sessões populares das mostras Première Brasil e do Cine Encontro, que são bate-papos gratuitos com diretores, produtores e atores participantes do festival.

A programação completa do festival estará disponível a partir de segunda-feira (24) na página da internet:http://www.festivaldorio.com.br/.

Extraído do sítio Agência Brasil

MACAU: TRICICLOS TRADICIONAIS PODEM ACABAR A BREVE TRECHO - Cecilia Lin


Em Macau, os triciclos eram utilizados pelos residentes como forma de transporte regular nos anos 60. Agora, só os turistas fazem uso deste serviço, até porque os mais jovens não querem dar continuidade à profissão. Com o aumento dos acidentes rodoviários, causados pelos autocarros, crê-se uma boa altura para trazer à memória da população esta profissão tradicional e, de outro modo, lamentar o seu desaparecimento.

Os primeiros meios de transporte na história de Macau foram as liteiras chinesas, que só se servem os ricos ou comerciantes. Antes da Segunda Guerra Mundial, riquexós de duas rodas, que só faziam uso da capacidade de pedalar dos homens e do seu impulso das mãos para avançar, acabam por tornar-se o meio de transporte principal para o povo.

Cerca de mil triciclos entraram no território em 1948, substituindo os riquexós e ficaram o novo meio de transporte por excelência a um preço mais acessível. Este período foi o ponto alto dos triciclos na história de Macau. O segundo pico foi nos anos 60, causa do rápido crescimento populacional face ao êxodo continental. Até aos anos 70, os triciclos eram não só utilizados por residentes mas também por turistas de Hong Kong, imagens patentes nos filmes de época da região vizinha. Este foi, de resto, o último pico na história dos triciclos.


Perdeu o papel de transporte público

Os autocarros, que hoje são o transporte público por excelência, foram passando por diferentes fases de desenvolvimento, cada vez mais desde o nascimento no 1925.

A Sociedade de Transportes Colectivos de Macau estabeleceu-se em 1986, logo seguida da companhia Transportes Urbanos de Macau nascida em 1988, até que em 2011, a terceira companhia do autocarro Reolian estabeleceu-se no mercado de Macau.

Em Fevereiro deste ano, concretizou-se a primeira fase do metro ligeiro, que tudo indica, vai entrar em funcionamento em Maio de 2015.

Os triciclos só permanecem no território, enquanto transporte público, até aos anos 60, pelo que agora são um meio que funciona em exclusivo para o transporte de turistas, que partem de três pontos turísticos de Macau: Leal Senado, Templo de A-Má e as Casas-Museu da Taipa de quinta-feira a domingo.

O Governo deixou de atribuir licenças para os triciclos desde a Administração portuguesa, de qualquer forma, também não há jovens que queiram trabalhar nesse sector, que depende da força do motorista e não tem um rendimento fixo. Estima-se assim que em dez anos a profissão ficará extinta e permanecerá apenas para a memória histórica da cidade.

Os desafios actuais

De acordo com o director da Associação dos Condutores de Triciclos de Macau (ACTM) Lei Kuok Wai, embora existam 60 triciclos em Macau, haverá menos de trinta condutores do triciclo nesta profissão até 2012. A maioria deles vão mudar para outro sector por causa de rendimento não-fixo.

Como a profissão é voluntária e já não há produção de triciclos, cada vez se regista um menor número devido a danos causados.

O custo de uma viagem turística a bordo de um triciclo pode custar entre 200 a 250 patacas. Na época alta de Turismo, um condutor do triciclo pode ganhar 6.000 a 8.000 patacas por mês, ao contrário, na época baixa para o turismo, ganha-se em torno de 3.000 patacas por mês.

Nas duas últimas década, quase ninguém se interessou por dar continuidade à profissão, nem os próprios reformados. O condutor mais “novo” já tem mais de 60 anos.

Nova oportunidades na cidade

Os triciclos são hoje uma imagem de marca do território e envergam a sua quota parte de história de uma cidade com diferentes características culturais e sociais.

“Algumas agências de turismo quiseram alugar centenas de triciclos e respectivos condutores mas o número de triciclos era menor do que o pretendido. [Hoje em dia há cerca de 60 triciclos, sendo que as agências pretendiam pôr ao serviço à volta de 200 veículos.] Também as operadoras de jogo se mostraram interessadas em contratar o serviço dos triciclos para levarem os clientes aos casinos. Iriam pagar também os custos mas no fim o preço deste serviço não chegou a um acordo”, disse Lei Kuok Wai, director da ACTM.

O responsável disse também que é necessária mais ajuda do Governo, tendo a Secretaria para os Assuntos Sociais e Cultural afirmado em ocasiões anteriores o desejo de manter esta profissão antiga. “Será que a máquina vai substituir o motor humano para poupar forças dos condutores? Ou, tal como na Malásia e em Pequim, podemos esperar que o Governo compre os triciclos e contrate os condutores, dando-lhes um rendimento fixo, de forma a melhorar a imagem da indústria a fim de reestruturar a indústria. O primeiro problema, porém, são as licenças dos triciclos.”


No ano passado a Direcção de Serviços de Turismo (DST) assinou na sexta-feira um protocolo com a ACTM, providenciou um uniforme para que os condutores deste tipo de transporte possam ser melhor identificados e alugou alguns triciclos para exposição aos turistas.

“Mais importante do que subsidiar uma actividade é criar condições para que [esta profissão] seja reconhecida, valorizada e devidamente paga” disse Costa Antunes, o director da DST.

Podemos então esperar por mais triciclos nas ruas de Macau ou teremos de nos contentar com fotos e reservá-los na memória? Vamos ver.

Extraído do sítio Hoje Macau

JUREMIR: "MUITOS COMEMORAM REVOLUÇÃO SEM CONHECER A HISTÓRIA" - Samir Oliveira

Juremir Machado da Silva publicou "História Regional da Infâmia" em 2010. Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21
O jornalista e historiador Juremir Machado da Silva publicou em 2010 o livro “História Regional da Infâmia”, no qual relata, através de documentos, uma série de fatos pouco divulgados sobre a Revolução Farroupilha. Dentre eles, o de que ela foi financiada com a venda de negros.

Nesta entrevista ao Sul21, Juremir fala sobre as constatações do livro e o processo de mitificação que se deu em cima da história da revolução. “Os republicanos positivistas tinham noção de que uma identidade se constrói a partir de um mito fundador. Era preciso uma mitologia época para construir essa unidade”, explica.

Bastante criticado por expor visões “pouco gloriosas” sobre a Revolução Farroupilha – um dos principais elementos na construção da imagem do gaúcho brasileiro-, o jornalista conta que muitos historiadores deixam de pesquisar o tema por causa da repercussão negativa e hostil de seus trabalhos no Rio Grande do Sul. “Recebi e-mails e torpedos de pessoas dizendo que iam me capar. Senti hostilidade em muitas situações”, comenta.
“Ninguém tinha dito que a Revolução Farroupilha se financiou com a venda de negros no Uruguai”
Sul21 – Como surgiu a ideia de escrever “A História Regional da Infâmia”?

Juremir Machado – Por muitas razões. Uma delas é a inconformidade com esse culto tradicionalista mal embasado em fatos históricos. Como fiz faculdade de História, tinha acompanhado desde sempre as polêmicas provocadas, primeiro, pelo Tau Golim. Em seguida, por Moacyr Flores, Mário Maestri, Décio Freitas… Todos os historiadores que mexeram com isso foram muito atacados, criticados e, às vezes, até estigmatizados. Mas em determinado momento me veio a ideia de fazer um livro, na medida em que comecei a encontrar documentos que me pareciam interessantes. Um grande amigo meu, Luiz Carlos Carneiro, que tinha sido meu professor de História no cursinho universitário, lá por 1980, tinha se tornado diretor do Arquivo Histórico do RS, que tinha todo o acervo sobre a Revolução Farroupilha. Então pude fazer a pesquisa com toda a tranquilidade. E as pessoas que trabalhavam lá me ajudaram muito fazendo transcrição de documentos.

Sul21 – Quanto tempo durou a pesquisa?

Juremir - Eu li toda a bibliografia existente e fui às fontes. Li mais de 15 mil documentos e trabalhei com mais de 12 pessoas. Foram três anos de pesquisa com estagiários, bolsistas de iniciação científica, pessoas que contratei em Pelotas, no Rio de Janeiro e em Porto Alegre. Debulhamos 15 mil documentos, alguns que nunca tinham sido trabalhados.

Sul21 – Que tipo de reações o livro provocou?

Juremir - Meu livro provoca dois tipos de polêmica: aqueles que dizem que tudo é falso e que eu preciso estudar mais; e aqueles que dizem que o livro não traz nada de novo. Isso é falso. É claro que o livro não parte de coisas que ninguém nunca tinha examinado, mas aprofunda muitas dessas coisas e descobre coisas novas. Eu chamo de documento infame toda a documentação referente ao financiamento da Revolução Farroupilha, à compra de munição, de fardamento, de alimentação com a venda de escravos no Uruguai. Ninguém tinha dito que, em determinado momento, por obra de Domingos José de Almeida, a Revolução Farroupilha se financiou com a venda de negros no Uruguai. Em algum momento se falou que teriam vendido alguns negros para comprar uma impressora para o jornal “O Povo”. A venda de negros para financiar a revolução gerou, inclusive, um processo judicial. Depois que deixou de ser ministro da Fazenda, Domingos José de Almeida entrou na Justiça da República pedindo o ressarcimento de tudo o que tinha investido. Ele detalha, briga, insulta e polemiza. Quer de volta o dinheiro dos negros que vendeu. Ele dá os nomes e todas as informações sobre as vendas.

"Meu livro provoca dois tipos de polêmica: aqueles que dizem que tudo é falso e que eu preciso estudar mais; e aqueles que dizem que o livro não traz nada de novo. Isso é falso". Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21
Sul21 – Como era a relação dos líderes da revolução com os negros? Havia uma retórica pretensamente abolicionista e uma prática diferente?

Juremir – Todos eram proprietários de escravos e viviam em uma sociedade escravista. Então eles podiam ser escravistas, seriam simplesmente homens de seu tempo. Mas em outros lugares estavam acontecendo revoltas pela libertação dos negros, como no Maranhão. No Uruguai e na Argentina, o processo de libertação dos negros estava muito mais acelerado. Era um tempo de escravismo, mas não da mesma maneira em todos os lugares. Falamos de Rivera e de Rosas como se fossem caudilhos hediondos, mas eles eram muito mais avançados, progressistas e iluministas. Nossos fazendeiros gostavam de se aliar com eles, mas tinham medo das coisas que eles faziam, como reforma agrária e libertação de negros. Eles eram muito mais adiantados e “perigosos” nesse sentido.
“Os farroupilhas não eram abolicionista e não pretendiam ser. Só queriam usar os negros”
Sul21 – Há o mito consagrado de que os farroupilhas eram abolicionistas.

Juremir - Não, eles não eram. Talvez um ou dois tivessem algum ardor nesse sentido. Mas a maioria não era. Eles prometeram liberdade para os negros dos adversários que aceitassem ser incorporados como soldados. Era uma forma de atrair mão de obra militar. Mas os escravos dos próprios farroupilhas continuaram nas fazendas trabalhando para que eles pudessem fazer a guerra. Quando a Revolução acabou e eles voltaram para casa, continuaram escravistas. Quando Bento Gonçalves morre, deixa um inventário com 53 escravos aos seus herdeiros. Escravos valiam muito. Ele morreu rico, com terras, fazendas e escravos. Quando fizeram, em Alegrete, o texto da Constituição, ela não previa a libertação dos escravos. Se eles tivessem vencido e a Constituição entrado em vigor, o Rio Grande do Sul continuaria sendo uma sociedade escravista. Eles não tinham nada de abolicionistas. Claro, em determinado momento, com a mão de obra militar minguando – principalmente quando o Império começou a mandar mais gente -, tiveram de recorrer aos negros dos adversários. O Domingos José de Almeida, além de ter vendido seus negros ao Uruguai para financiar a revolução, para ele mesmo se sustentar como ministro da Fazenda e cérebro da revolução, continuava alugando outros negros no Uruguai e vivendo das rendas desse aluguel. Os negros trabalhavam no Uruguai para que ele pudesse ser o chefe revolucionário. Existem muitos exemplos de situações mais adiantadas de libertação de escravos. No Brasil, no Uruguai, na Argentina, no Chile… Simón Bolivar tinha libertado os escravos. A libertação de escravos estava acontecendo com frequência. Rivera fez isso e nós não. Os farroupilhas não eram abolicionista e não pretendiam ser. Só queriam usar os negros.

"Muitos historiadores reconhecem que houve traição em Porongos, mas não demonstram como isso ocorreu. A maior parte pula essa etapa". Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21
Sul21 – Teve o episódio da batalha de Porongos…

Juremir - É curioso… Muitos historiadores reconhecem que houve traição em Porongos, mas não demonstram como isso ocorreu. A maior parte dos historiadores que examina Porongos pula essa etapa. Em determinado momento essa traição era negada. Como os líderes farroupilhas tinham prometido liberdade aos negros dos adversários, com o fim da revolução começam a ficar preocupados e receosos de que os negros possam querer se vingar caso isso não ocorra. Era um contingente expressivo de escravos. Então os líderes farroupilhas estavam numa contradição, já que esses negros pertenciam a adeptos dos imperiais, que os queriam de volta. Foi aí que veio aquela ideia “maravilhosa” de diminuir esse contingente ao máximo e fazer um pacto para eliminá-los. A cilada de Porongos chega a ser simplória. Os negros foram realmente desarmados e dizimados. Canabarro recebeu o aviso de um possível ataque e desarmou os homens, foi tudo muito preparado. Um outro aspecto que o meu livro vai adiante é em relação ao destino dos negros farrapos. Nem todos morreram. Sobraram alguns deles. Uns escaparam, conseguiram fugir a cavalo, e muitos caíram prisioneiros. Sempre se discutiu o que teriam feito com esses negros. Os farroupilhas dizem que Caxias libertou todos, incorporou ao Exército e conferiu a eles uma condição quase de enobrecimento. E alguns diziam que eles tinham sido enviados para o Rio de Janeiro, para a fazenda imperial Santa Cruz.

Sul21 – O que aconteceu?

Juremir - Fui atrás e consegui documentos mostrando para onde eles foram. Eles foram entregues pelos farroupilhas e foram transportados. Consegui documentos sobre como eles foram transportados, até com o nome do navio. Eles foram para o Rio de Janeiro, para o arsenal da Marinha.
“A Revolução Farroupilha foi feita pela Farsul da época com os métodos das Farc”
Sul21 – Politicamente, havia alguma unidade entre os líderes da revolução? 

Juremir - Era um saco de gatos. Antes de 1835 havia gente que oscilava. Bento Gonçalves, por exemplo, era um monarquista, não era republicano. Neto não era republicano. Bento Gonçalves tinha pendores para fazer uma associação com o Uruguai. Ele se relacionava com o Rivera e pensava, volta e meia, em uma perspectiva de junção com o Uruguai. Mas também não era algo muito convicto. Em 1834 aconteceu a principal causa da Revolução Farroupilha: um surto de carrapatos que devorou o gado. Os fazendeiros ficaram com um prejuízo enorme e fizeram exatamente como os pecuaristas fazem hoje em dia: quiseram repassar o prejuízo ao Império. Mas essa ajuda do governo central não vinha. Por outro lado, havia um contexto de muitos militares no Rio Grande do Sul. Em 1831, quando Dom Pedro I abdicou, muitos militares foram mandados para cá, numa espécie de geladeira, porque tinham se insubordinado. Então se juntam esses militares cansados e insatisfeitos com os fazendeiros que se sentiam prejudicados pelo Império. No começo das conspirações, eles só desejam que o Império atenda às suas reivindicações. Alguns querem ver reconstituída sua dignidade militar e serem transferidos para outros lugares. Nossos fazendeiros queriam atendimento às suas reivindicações econômicas. O movimento vai ganhando vida e eles não conseguem mais recuar. Em determinado momento, surge a perspectiva da República, que nenhum dos líderes tinha em mente. No meu livro, publico uma carta que Neto enviou aos vereadores de Pelotas. Ele, que tinha proclamado a República, disse “não sou republicano”. Eles não eram republicanos, mas aos poucos foram sendo empurrados para aquela situação e acabaram proclamando uma República que o Império nunca reconheceu. Para o Império, sempre se tratou apenas de uma província rebelada.

Sul21 – E por que a guerra durou tanto tempo?

Juremir - Quando os liberais estavam no poder, no período regencial, eles, no fundo, gostavam dessa gente daqui. Eles não queriam mandar muito efetivo para cá e deixaram a Revolução correr. Quando finalmente Dom Pedro II ganha a maioridade e os conservadores assumem o poder e passam a ter o primeiro ministro, eles enviam muito efetivo para o Rio Grande do Sul. Então por volta de 1842 já está liquidada a fatura. A revolução se transforma em uma guerra de guerrilhas. Os farroupilhas começam a fugir para todos os lados e, de vez em quando, fazem algumas emboscadas. Quando a coisa ficava muito pesada, todo mundo se refugiava no Uruguai. Foi uma guerra de guerrilhas na qual o exército imperial ficava atrás dos rebeldes e, de vez em quando, tinha algum combate. Houve muito pouco combate e morreu pouca gente. Em dez anos de guerra, morreram 2,9 mil pessoas. Morria mais gente de gripe do que de guerra. Passava meses sem que houvesse combate. Claro que houve momentos de heroísmo e momentos de infâmia absoluta, com estupro, degola, sequestro e execução sumária. É por isso que eu digo que a Revolução Farroupilha foi feita pela Farsul da época com os métodos das Farc. Do ponto de vista ideológico, eles eram a Farsul da época, com uma ideologia liberal incipiente. Eram proprietários rurais em defesa dos seus interesses. E utilizavam os métodos que hoje se condena nas Farc: sequestro, apropriação do gado e das terras alheias.

"Um dos grandes problemas da Revolução Farroupilha foi a corrupção", aponta jornalista e pesquisador gaúcho. Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21
Sul21 – Em seu livro, o senhor também aponta casos de corrupção entre os líderes farroupilhas.

Juremir – Quando eles se reúnem em Alegrete para fazer a Constituição, estavam totalmente rompidos. Antonio Vicente da Fontoura pertencia à chamada minoria. Ele havia sido ministro da Fazenda, sucedendo Domingos José de Almeida. Quando ele assumiu o Ministério, constatou que a corrupção corria solta. Ele descreve isso fartamente em seu diálogo e os historiadores nunca quiseram dar muita atenção. Os farroupilhas pegavam a fazenda de um adversário e arrendavam e o lucro desse arrendamento desaparecia. Até Neto foi acusado por Antonio Vicente da Fontoura de ter desaparecido com dinheiro. Um dos grandes problemas da Revolução Farroupilha foi a corrupção. Eles brigaram e se separaram por causa disso. O duelo entre Bento Gonçalves e Onofre Pires tinha na sua base acusações de corrupção.
“Os cariocas acham esse negócio de Semana Farroupilha quase ridículo, uma espécie de carnaval a cavalo”
Sul21 – Como se pautaram as relações dos farroupilhas com as lideranças uruguaias e argentinas? Havia, de fato, a intenção de se criar uma república que anexasse o território do Uruguai e algumas províncias da Argentina?

Juremir – Quando viram que Rivera estava libertando escravos e que tinha propensões à reforma agrária, a parceria deixou de ser interessante. A Revolução Farroupilha foi uma espécie de golpe militar. Esse golpe militar sofreu muita influência platina. Houve muita influência desses caudilhos uruguaios e argentinos. Mas depois houve momentos de aproximação e de separação. Essas alianças só não prosperaram definitivamente porque os líderes farroupilhas eram muito mais conservadores que os caudilhos uruguaios e argentinos. Rivera queria uma revolução benéfica para a população uruguaia. Bento Gonçalves e sua turma só entraram em ação por causa dos seus interesses particulares.

Sul21 – Como se deu a construção dos mitos em cima da Revolução Farroupilha?

Juremir - São várias etapas. Uma delas é quando Julio de Castilhos e os republicanos positivistas estão trabalhando pela construção da República no Rio Grande do Sul. Julio de Castilhos vai estudar direito em São Paulo e manda uma carta dizendo que é preciso estudar aquela guerra civil, porque ela poderia servir de fundamento para o que hoje nós chamaríamos de construção de uma identidade regional. Na época, a Revolução Farroupilha era chamada de guerra civil. Esses republicanos positivistas tinham bem a noção de que uma identidade se constrói a partir de um mito fundador. Então era preciso uma mitologia épica para construir essa unidade. Isso foi fartamente explorado. Depois, historiadores como Varela e Alfredo Ferreira Rodrigues ajudaram a construir uma ideia épica de revolução, influenciados pela perspectiva histórica dominante no século XIX. Nos anos 1930, os militares ligados ao Instituto Histórico e Geográfico fazem, em plena Era Vargas, uma recuperação dos fatos com interesse cívico de engrandecimento das atitudes militares. O interessante é que a Revolução Farroupilha foi feita por militares e escrita por militares.

Sul21 – E qual o papel dos historiadores na desmistificação da revolução?

Juremir – Os grandes historiadores estão desmistificando a Revolução Farroupilha. Nomes como Tau Golin, Moacyr Flores, Mário Maestri, Sandra Pesavento, Margeret Bakos, Décio Freitas… Moacyr Flores talvez seja aquele que trabalhou mais intensamente a Revolução Farroupilha. O livro “O Modelo Político dos Farrapos” é um marco na desmistificação. Tau Golin fez uma espécie de panfleto que teve muito impacto, questionando se Bento Gonçalves seria herói ou ladrão. Margaret Bakos trouxe muitos dados sobre a condição do negro na Revolução Farroupilha. São esses os caras que realmente têm escrito coisas importantes sobre a Revolução Farroupilha. Se fosse na França, esse pessoal estaria sendo destacado. Mas aqui é o inverso. Talvez porque o Rio Grande do Sul, como qualquer lugar, precisa de um mito fundador. E o que tem à mão é esse. A história, nesse sentido, estraga um pouco este prazer. Os fatos históricos não confirmam toda essa grandeza.

Sul21 – O que significa hoje comemorar a Revolução Farroupilha?

Juremir – Vale lembrar que a comemoração da Semana Farroupilha, tal qual a fazemos hoje, começa em dezembro de 1964. É uma obra da ditadura militar. O patriotismo servia muito bem nessa época. Acho muito interessante a ideia de que essas pessoas se reúnem para comemorar outra coisa. Comemoram um ideal de vida agropastoril, uma nostalgia da vida no campo, quando éramos realmente gaúchos e tínhamos estâncias. Há também o gosto de estar junto, de conviver e ter algo a compartilhar – algo que o sociólogo francês Michel Maffesoli chama de “tribalismo”. Esse fenômeno pode estar no escotismo, numa torcida de futebol, ou nesse congraçamento anual onde todos se encontram e brincam um pouco de casinha, como dizia Flávio Alcaraz Gomes. A Revolução Farroupilha surge como uma espécie de cimento para fortificar esse interesse de estar junto. Mas ela também tem um componente ideológico conservador. Muitos dos que estão comemorando a Revolução Farroupilha não conhecem grande coisa da sua história. Se for examinar no detalhe, eles não sabem. Conhecem a cartilha do Movimento Tradicionalista Gaúcho, que só destaca aquilo que exclusivamente lhes convém.

Juremir: "muitos dos que comemoram a Revolução Farroupilha não conhecem grande coisa da sua história. Conhecem a cartilha do MTG". Foto: Bernardo Jardim Ribeiro/Sul21
Sul21 – Qual o papel da mídia na consolidação do mito?

Juremir – A mídia precisa adular esse público para poder fidelizá-lo. É uma estratégia de marketing que reforça os mitos e dificulta a desconstrução feita pelos historiadores. O interesse da mídia nessa questão é meramente comercial. É uma estratégia de reforço de algo que é caro ao público. Ninguém quer brigar com boa parte do Rio Grande do Sul. É melhor dar uma adulada e deixar os universitários e acadêmicos falarem outras coisas. Se o público está feliz, por que estragar o prazer? Além de tudo, a mídia é conservadora. Muitas vezes os jornalistas compartilham esses valores e acreditam nessas histórias porque foram formados nessa matriz. Tudo isso entra no mesmo caldeirão e, ano a ano, as vozes dos historiadores ficam praticamente inaudíveis.

Sul21 – O Rio Grande do Sul tem uma relação mais intensa com seus mitos do que outras regiões do país?

Juremir – Talvez, até pelo tipo de construção histórica do Rio Grande do Sul, com tantas guerras de fronteira. Vários movimentos e situações se aproveitaram disso: a República, os anos Vargas, a ditadura militar e o crescimento do movimento tradicionalista.

Sul21 – Isso contribui para uma imagem mais arrogante do Rio Grande do Sul nos outros estados brasileiros?

Juremir – Isso é algo que só nós enxergamos. Os cariocas acham esse negócio de Semana Farroupilha quase ridículo, uma espécie de carnaval a cavalo.

Sul21 – E o nosso hino? Cantamos um hino que fala em uma “ímpia e injusta guerra”. 

Juremir – Nosso hino é racista, ainda por cima, quando diz que “povo que não tem virtude acaba por ser escravo”. É um insulto àqueles que lutaram com os farroupilhas e foram atraídos a eles com a promessa de liberdade.

Sul21 – Até hoje, o senhor ainda recebe críticas por causa do livro?

Juremir – Alguns historiadores preferem se afastar desse tema. Cansam de brigar e ouvir insultos. Eu mesmo sofri todo tipo de desqualificação. Diziam que eu não sou historiador e que o meu livro só requenta outras informações. Na época que saiu o livro, a Farsul ameaçou me processar, até por um mal entendido. Acharam que eu tinha dito que a Farsul tinha os métodos das Farc. O que eu disse, na verdade, foi que os farroupilhas tinham a ideologia da Farsul e os métodos das Farc. Recebi e-mails e torpedos de pessoas dizendo que iam me capar. Senti hostilidade em muitas situações. Já perdi a conta do número de insultos que recebi por e-mail, Twitter e Facebook. O maior insulto é a tentativa permanente de desqualificação do teu trabalho.

Extraído do sítio Sul21

A MILHA DOS MUSEUS DE BUENOS AIRES - Derderian Nicolás

Existe na cidade de Buenos Aires, entre os bairros de Retiro e Palermo, um corredor cultural chamado"A Milha dos Museus" (La Milla de los Museos). 


Caminhando, de bicicleta ou de ônibus, os 15 museus e espaços culturais reunidos na Milha dos Museus podem ser percorridos em só 48 h ou 3 dias, conforme a preferência ou disponibilidade dos visitantes. 


História, arte, tecnologia, ciência e personagens ao longo de 40 quadras. Esta estrutura cultural replica o conceito original das cidades de Nova Iorque ou Londres. 

Entre os espaços que se podem visitar poderão conhecer alguns emblemáticos como a Torre Monumental, Museu de Arte Hispano-americano, Museu de Arte Ferroviário, de Arquitetura, Palais de Glace, Centro Cultural Recoleta, Museu Nacional de Belas Artes, Automóvel Clube, Arte Decorativo, Arte Popular, Metropolitano, MALBA, de Evita, Planetário e o Sívori. 

Torre Monumental: Objetivo de fornecer informação sobre a identidade, patrimônio histórico e o interesse turístico da cidade de Buenos Aires.

Fonte: Wikipedia.org

Museu de Arte Hispano Americano: Observa-se um panorama dos âmbitos culturais de América do Sul, instrumentos de prata, pinacoteca, documentos, livros, gravados, indumentária, cerâmica, religião, etc.

Museu Nacional Ferroviário: História da Indústria Ferroviária na Argentina. 

Museu de Arquitetura: Desenho industrial, gráfico, imagem, som, têxtil e indumentária.

Palais de Glace: Exposições variadas de artistas internacionais.

Centro Cultural Recoleta: Espaço onde se desenvolvem 180 exposições anuais, 400 obras de teatro anuais, apresentações de livros, seminários, conferencias e simpósios.

Fonte: carteleradehistoria2.files.wordpress.com

Museu Nacional de Belas Artes: Coleção permanente de Arte Internacional desde a Idade Media até Historia dos Artistas Argentinos. 

Obras de Tiépolo, El Greco, Goya, Rodín, Manet, Monet, Van Gogh, Degas, De Chirico, Kandinsky, Picasso, Tápies e dos argentinos Morel, Pueyrredón, De la Cárcova, Sívori, Malharro, Fader, Guttero, Curatella Manes, Pettoruti, Quinquela Martín, Berni, Spilimbergo, Deira, Distéfano, Alonso, Benedit e Seguí.

Paseo das Esculturas: Espaço aberto com exposições temporárias.

Museu do Automóvel Clube: Veículos com ótimo estado de conservação desde o final do século XIX até o princípio do XX.


Museu Nacional de Arte Decorativo: Artes decorativas européias e orientais. Podem-se desfrutar obras de El Greco, Corot, Fragonard, Manet, Boudin e Fantin-Latour. Também possui esculturas, porcelana, tapetes, armas, retratos, etc.

Museu de Arte Popular Jose Hernandez: Arte típica do Rio da Prata, coloniais e indígenas.

Museu Metropolitano: Coleção de gravuras de Da Vinci, documentos fotográficos, bibliográficos, biográficos, de algumas edições de Saint-Exupery. Também possui uma biblioteca especializada em temas da América Latina.

MALBA: Instituição privada que exibe 400 obras dos principais artistas desta região.

Museu Evita: Possui uma amostra dos principais momentos da vida de Eva Perón.

Museu Planetário Galileu Galilei: Museu orientado à divulgação da astronomia.

Fonte: Wikipedia.org

Museu de Artes Plásticas Eduardo Sívori: Coleção de Arte Argentina, têxtil, pinturas, esculturas, gravuras, etc; com datas do final do século XIX.

Extraído do sítio Dicas do Mundo

UMA SÃO PETERSBURGO DIFERENTE - Maria Degtiariova

Se houvesse um ranking das cidades que têm mais lendas locais, São Petersburgo sem dúvida ocuparia um dos primeiros lugares. A Gazeta Russa vai levá-lo por uma viagem aos lugares mais peculiares da capital cultural russa.

O templo tibetano do norte

Foto: Maria Degtiariova
Em um jardim da avenida Primórski, pode-se ouvir o rufar de um tambor de oração. Aqui você encontrará um dos templos budistas mais setentrionais do mundo. 

Este "datsan" (termo da Mongólia que designa monastério budista de tradição tibetana de Gelukpa) adornado com elementos modernos foi construído em 1915 por iniciativa do próprio Dalai Lama de então. 

Naquele tempo, o líder espiritual se esforçava para estabelecer relações diplomáticas com o Império Russo, desejando apoio do tsar contra uma possível expansão britânica. 

Depois da revolução de 1917, por ordem do governo soviético, praticamente todos os templos budistas do país foram destruídos. 

Este datsan do norte, porém, permaneceu intocado, embora desempenhando funções diferentes da original: foi centro esportivo, emissora da rádio militar e laboratório de zoologia.

"Depois da perestroika o templo foi devolvido à comunidade budista", conta Sayan Lama. Sayan se formou no Instituto Budista da Buriátia, na Sibéria, e mudou-se para São Petersburgo praticar seus ensinamentos. “O lugar é agradável, cheio de harmonia", diz. 

Foto: Maria Degtiariova
Atualmente, sete lamas residem no templo. "Muitos fiéis visitam nosso templo. Eles pedem que oremos pela saúde, formulemos horóscopos astrológicos ou façamos rituais de limpeza das casas. Às vezes, recebemos visitas de alguns lamas do Tibete", completa Sayan Lama.

O líder espiritual do Tibet, considerado o protetor oficial do templo de São Petersburgo, visitou o local apenas uma vez, em 1987.

Lágrima do socialismo

Foto: Maria Degtiariova
A casa de número 7 na rua Rubinstein é considerada uma das construções mais exóticas de toda São Petersburgo. Foi erguida nos anos 1930 em estilo construtivista. 

Naquele tempo, o edifício foi considerado uma mostra da nova arquitetura soviética.

A casa recebeu desde engenheiros a escritores como moradores, e foi planejada para ser um exemplo de socialização. 

A realização do projeto foi pensada para que as pessoas vivessem como se fossem parte de uma única grande família. 

Foto: Maria Degtiariova
O resultado foi um total de 52 apartamentos, com cozinha e banheiros comuns, sala de jantar e um jardim de infância.

Quando o regime comunista caiu, o edifício foi apelidado de “lágrima do socialismo”.

Extraído do sítio Gazeta Russa

MUSEU DE ARTE MODERNA CONVIDA VISITANTE A REFLETIR SOBRE HISTÓRIA COLONIAL DO PAÍS - Elaine Patrícia Cruz




São Paulo – Em uma das paredes do Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo, uma pintura apresenta um velho mapa-múndi, com um corte exatamente no meio da tela. Como se a tela fosse um corpo, o corte vertical passa a expor as vísceras, a carne e o sangue da obra. A pintura, chamada de Mapa de Lopo Homem 2, da artista carioca Adriana Varejão, cria uma simbologia para a violência da história colonial no Brasil.

Esta é apenas uma das 42 obras da artista que estão expostas no MAM, no Parque Ibirapuera, até o dia 16 de dezembro. “Tecnicamente, é muito interessante como ela faz isso. Ela estrutura a pintura, usa resina e verniz. Parece realmente que são vísceras que saem de dentro do quadro”, explicou Felipe Chaimovich, curador do Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo, em entrevista à Agência Brasil.

É a primeira vez que a artista faz uma exposição panorâmica tão abrangente, com uma retrospectiva que abarca obras desde o início de sua carreira, nos anos de 1990. A exposição Adriana Varejão – Histórias às Margens tem curadoria de Adriano Pedrosa. O título da mostra refere-se, nas palavras da própria artista, ao mar, “mas também àquilo que está fora do centro”.

“[Os visitantes] vão encontrar trabalhos de todas as fases da Adriana Varejão, desde o início dos anos 1990, sempre ligado à ideia das histórias às margens, ou seja, esse comentário que ela faz sobre uma série de histórias que vão aparecendo, como a história colonial, a história do Brasil, a história da pintura, e de como isso tudo vai ganhando um corpo. Esse é o fio que leva o visitante ao longo dessas 42 obras que estão sendo expostas no MAM”, disse o curador do museu.

Alguns desses trabalhos são inéditos no país, vindos de coleções do Guggenheim Museum, em Nova York, e da Tate Modern, em Londres, entre outros. A exposição apresenta também telas produzidas especialmente para a ocasião, tal como um painel de azulejos. “Ela fez para o MAM, agora, uma série de azulejos em um painel de 18 metros, uma obra monumental”, disse Chaimovich.

Para ele, as obras de Adriana Varejão, que mostram pinturas, azulejos, cenas de canibalismo, vísceras, linhas geométricas e cerâmicas, provocam uma grande reflexão sobre a história do Brasil. “Ela é realmente uma artista que tem conhecimento muito profundo sobre essa circulação de imagens do mundo colonial e traz visivelmente uma reflexão com grande relevância sobre a história do Brasil”, disse.

A entrada para a exposição é gratuita. Mais informações podem ser conferidas no site www.mam.org.br.

Extraído do sítio Agência Brasil

24 de setembro de 2012

OBSERVANDO A LUA NO FESTIVAL DE OUTONO - Zhi Zhen

Pintura de Xiao Yun baseada no poema “Bebendo sozinho com a Lua” do famoso poeta Li Bai da Dinastia Tang. (The Epoch Times)
Poesia e tradição no Festival da Lua chinês

O Festival de Meados de Outono chinês cai em 30 de setembro este ano. É noite quando a Lua está cheia e perto da Terra e brilha com mais intensidade. Neste grande feriado chinês, famílias e amigos se reúnem para desfrutar a companhia mútua e compartilhar iguarias típicas, especialmente, o bolo da Lua. O feriado é baseado no calendário lunar e tem uma tradição que remonta muitos séculos.

Desde os tempos antigos, a Lua tem um significado rico para o povo chinês, cujo calendário, as estações de plantio e a vida foram associados à Lua. A Lua também possui mistérios mais profundos para a antiga cultura chinesa e tem sido objeto de lendas e poesia.

Tradicionalmente, os chineses ficariam de pé numa alta colina numa noite fria de outono ou simplesmente abririam suas janelas para ver a Lua cheia brilhante, maravilhar-se com sua beleza e enviar orações e desejos para a deusa da Lua.

A Lua recebeu nomes diferentes dependendo de sua fase e plenitude. Ela é chamada de gancho prateado ou de jade, arco de jade ou lunar, roda dourada e espelho prateado ou de jade, conforme passa por suas fases.

Há muitas lendas conhecidas sobre a Lua que foram transmitidas, incluindo as de Wu Gang derrubando a árvore cássia e da bela Chang’e indo para a lua.

História do Festival da Lua

O Festival de Meados de Outono tem uma longa história na China. O termo “Zhongqiu”, ou ‘meio do outono’, teria aparecido pela primeira vez num livro por volta do século II a.C. nos chamados ‘Ritos de Zhou’, também conhecidos como ‘Zhouli’, que, entre outras coisas, retratam uma cerimônia que o povo realizaria para mostrar sua veneração pela Lua.

Durante a Dinastia Tang (618-906 d.C.), a cerimônia se tornou mais popular e o Festival de Meados de Outono foi designado como um feriado oficial. No tradicional calendário lunar chinês, o 15 de agosto é documentado como a data do Festival no Livro de Tang, conhecido como ‘Tang Shu’ ou ‘Taizong Ji’.

O Festival se tornou ainda mais amplamente comemorado após a Dinastia Song e, durante as dinastias Ming e Qing, ele se tornou um dos feriados mais importantes na China, tão importante quanto o Ano Novo.

Poesia

Ao longo da história, muitos poemas e canções sobre a lua e o meio do outono foram escritos, tão numerosos que são simplesmente incontáveis. Alguns podem ser encontrados no livro ‘Shi Jing’, uma coleção de poesia clássica que apareceu pela primeira vez em meados do século II a.C.

Escrever poesia era uma forma de arte e também uma disciplina filosófica e espiritual que era generalizada entre os estudiosos e autoridades, até mesmo imperadores. A Lua clara e brilhante inspirou poetas antigos como um símbolo de pureza, nobreza e grandeza de espírito. Outros também a viam como um mistério celestial a ser contemplado.
“Não era o Leste que brilhava,era a luz da Lua que surgia”,é uma linha do Shi Jing.
“Quão amplo é o mundo, quão próximas as árvores estão do céu.e quão clara na água a proximidade da Lua!”é um poema de Meng Haoran (689-740 d.C.).
“As estrelas se inclinam do espaço abertoe a Lua vem correndo rio acima”é parte de um poema de Du Fu (712-770 d.C.).
“A Lua, crescida cheia agora sobre o mar,retificando todo o céu”é de Zhang Jiuling, um primeiro-ministro na Dinastia Tang.
O famoso poeta chinês Li Bai (701-762 d.C.) da Dinastia Tang escreveu um poema intitulado “Bebendo sozinho com a Lua”, que parece falar da humanidade perdida na ilusão e na solidão e, ainda, ansiando por conectar-se com o céu.

“De um frasco de vinho entre as flores, eu bebia sozinho.
Não havia ninguém comigo – até que, erguendo a taça,
Pedi a Lua brilhante,
para me trazer minha sombra e nos fazer três.”

Extraído do sítio The Epoch Times